Thursday, September 18, 2008

menos desigualdade (ainda que tardia e lentamente)


esta semana o parede bateu todos os recordes com centenas de visitas e mais de 50 comentários. Pensando nestes comentários e no debate entre visões de mundo a direita e a esquerda me lembrei várias vezes das conversas que tive com um pedreiro da minha última obra em BH, em 2004. Para preservar sua privacidade (embora sejam remotas as chances de que ele ou alguém que o reconheça venha ler este post), vou chamá-lo apenas de ZA.

pois bem, ZA tem quase 60 anos, trabalhou a vida inteira como pedreiro e junto com seu filho que é pintor construiu uma casa de 300 metros quadrados na entrada do aglomerado da serra onde mora com sua mulher e as famílias do filho pintor e da filha divorciada com 2 crianças.

e foi sobre uma destas crianças que rodou a conversa que tanto me marcou. ZA estava desesperado em 2004 porque seu neto, na época com 15 anos, não mostrava disposição para trabalhar com o avô e como todo adolescente questionava se valia a pena carregar tijolo e areia 8 horas por dia para ganhar 300 reais no final do mês. E o pior é que bem na frente da casa de ZA um grupo de meninos da mesma idade do seu neto tinha montado uma central de vendas de trouxas e papelotes onde faturavam por dia o que um servente de pedreiro demorava um mês inteiro para receber.

me lembrei muito desta história porque ela tem todos os componentes do drama da desigualdade. Tendo trabalhado a vida inteira ZA tinha agora uma vida minimamente confortável na sua casa simples mas espaçosa. Sua ética de trabalho é invejável, ZA nunca chegou na obra depois das 7:30 e nunca saiu antes das 18 horas, tendo construído sua casa trabalhando também em milhares de domingos ao longo da vida. Mesmo assim sua situação era extremamente vulnerável. Seu único patrimônio (e único apoio para uma velhice menos pobre) é a casa na favela que ele não consegue vender nem alugar por que alem de não ter a propriedade legal, fica em frente a uma boca-de-fumo e ninguém quer.

bom, esse ano visitando as obras da prefeitura no aglomerado da serra encontrei o filho pintor do ZA que me disse que o sobrinho estava trabalhando de armador para uma construtora grande, com um salário de R$ 1200, pensando em casar e etc...

o moço de 20 anos percebeu que não valeria a pena se arriscar no tráfico para morrer ou passar o resto da vida entrando e saindo cadeia, destino de TODOS os seus amigos da rua que tentaram a vida por aí. Ajudou também o fato de que BH passa por um boom da construção civil, o menino trabalhou uns meses na própria obra da prefeitura, aprendeu a cortar e dobrar ferragem e se mandou para ganhar mais na iniciativa privada.

resumindo, o moço flertou com a marginalidade porque o resultado imediato parecia muito melhor que carregar lata de massa por décadas a fio, e se salvou porque tinha de um lado a seriedade e a correção do avô como exemplo, e de outro um programa da obras da prefeitura que se preocupa com a qualificação da mão de obra local e sua inserção no mercado de trabalho.

bom, dei uma volta danada pra argumentar que a melhoria da qualidade de vida depende de valores à esquerda e à direita. Sem a ética do trabalho herdada de ZA o menino teria se perdido na marginalidade, mas sem os programas da prefeitura ele muito dificilmente conseguiria um emprego melhor que o de porteiro com sua 8ª série incompleta.

e assim aos poucos a vida vai melhorando como mostra o resultado da PNAD 2007 que saiu hoje.

40 comments:

carlos said...

é isso aí, fernando! eu te agradeço por esse post. estou aliviado! ufa!

ps. e aí? você acha que agora que ganhou um busto lá no Mineirão o Telê vai interceder por vocês de lá do paraíso dos bons boleiros? já deu uma melhoradinha, né? :-)

Henrique Gonçalves said...

Fico feliz com essa e outras milhares de boas histórias que acontecem a cada dia.
Mas ainda sim, custo a acreditar que somos apenas frutos do meio e do tempo em que vivemos.
Prefiro crer que esse garoto, independente dos bons ou maus exemplos, das vantagens ou desvantagens encontradas em sua trajetória, fez assim e não assado porque quis, porque sua opção foi essa e nada mais.

Marco Antonio Borges Netto - Marcão said...

Não lembro onde foi que li ou ouvi, mas um pesquisador disse que para combater o tráfico de drogas deve-se, além de prender traficantes, debelar quadrilhas, atingir o sustento econômico do tráfico.

Ou seja, tratar as drogas como questão de saúde pública e tratar o usuário/consumidor de uma maneira mais rígida.

Evidente que o Poder Público, seja ele de esquerda, de direita, ambidestro, cumpri o seu dever e sua obrigação com esses programas.

Hoje uma decisão do STF determina que os profissionais liberais devem recolher a COFINS. Detalhe: quem não pagou os últimos cinco anos em decorrência de uma decisão do STJ, deverá quitar a dívida.

O que quero dizer é que com essa carga tributária colossal, o Poder Público não tem feito lá grandes coisas.

Os nossos estudantes são um dos piores do mundo, o SUS não tem o que comemorar em 20 anos, a corrupção é endêmica, os gastos públicos são exorbitantes.

E mesmo tendo uma economia sólida, recursos naturais de sobra, segundo dados da Transparência Internacional, o Brasil demorará 35 anos para ter uma renda per capita de 21000 dólares. É o quinto país da América Latina que chegará nesse patamar. A Venezuela chegará em 30 anos.

Incrível.

Me desculpem, mas acho que, de modo geral, não temos o que celebrar.

Abraços.

carlos said...

olha só, eu reli o meu comment e achei melhor explicar direito: fiquei contente por você mostrar como uma iniciativa de uma prefeitura ajudou a mudar a vida do rapaz, e hoje ele tem um emprego com o qual vai poder planejar um pouco melhor a vida dele. um pouco só, pq 1200 reais é bem pouca grana.
E é claro que a estabilidade da família dele e a experiência ruim dos amigos ajudaram nessa opção, da qual não tiro mérito do cérebro dele próprio.
E sim! O estado tem de estar presente para bancar educação, saúde, segurança! Eu concordo com o Marcão, entretanto, que a gente não tem muito o que comemorar, não. A coisa ainda tá muito feia. E se tem uma coisa q direita e esquerda fazem bem no brasil é corrupção.

luciano l. basso said...

Fernando! Que fase! Tens postado um texto melhor do que o outro... muito bom mesmo!!!

Tive um mestre de obras que passou pelo mesmo problema com os seus dois filhos, que o ajudaram até perto dos 18 anos e depois encontraram atalhos ilusórios e bem mais fáceis do que virar massa no inverno da serra gaúcha... só que essa história não teve final feliz, faz algum tempo que ele não tem notícias dos guris...

A verdade é que dificilmente encontramos ambiente mais contrastante que o canteiro de obras... como entender o fato de um operário receber algumas centenas de reais por mês para materializar um produto que algumas vezes vale milhões.

Parabéns novamente, abraço.
luciano

luciano l. basso said...

Marco, eu discordo em gênero, número e grau com o teu pessimismo... acho que nunca vivemos um momento tão positivo no Brasil.

Os problemas existem, mas sinto te dizer que eles não são exclusividade nossa... os ditos países desenvolvidos também tem seus problemas sociais, seus políticos corruptos e otras cositas más...

Mas sei que tu deve ter teus motivos para te sentir assim e lembrei de uma frase do Niemeyer, um pessimista confesso -não com o Brasil, mas com a humanidade:

"Quando a vida se degrada e a esperança foge do coração dos homens, só a revolução."

Marco Antonio Borges Netto - Marcão - revistacrise@email.com said...

Luciano,

Não sou pessimista, sou realista.

Reconheço que principalmente depois do Plano Real a vida no Brasil melhorou muito. Não resta dúvidas.

Mas se informe melhor sobre os indices de educação, saúde, renda, segurança, corrupção, economia, dentre outros apresentados pelo PNAD e por demais órgãos estatais nacionais e internacionais (IBGE, INPI, Transparência Internacional, MEC, UNICEF, Anistia Internacional, Banco Mundial, etc.) que você ficará estarrecido em ver que o Brasil está nas últimas colocações na maioria das vezes.

O Brasil está longe de ser um país desenvolvido, mesmo tendo problemas sociais semelhantes a de países europeus.

O número de analfabetos funcionais é preocupante, mais de 50% da população não tem acesso a esgoto tratado, o SUS é capenga (100% das pessoas que leem esse blog não utiliza o SUS), a escola pública é patética (a maioria esmagadora dos leitores desse site estudaram em escolas particulares), abrir e fechar uma empresa de qualquer tamanho demanda um tempo absurdo (quem já não desistiu de aumentar o escritório? e um negociozinho?), os encargos trabalhistas são além da média, a pesquisa tecnológica é mínima (quantos nobel temos? quantos pedidos de patentes o Brasil tem?), os gastos públicos são faraônicos, exportamos matéria prima e não conhecimento (o minério de ferro é daqui, mas o que fazer com ele não é pesquisado aqui).

Eu só acho que esse momento positivo é positivo em comparação a outros anos. Mas tendo em vista a arrecadação tributária, os recursos naturais, o agronegócio avançado que o Brasil possui, deveríamos ser uma das - ou a - economia que mais cresce no mundo. Em termos economicos seriamos comparados com a China, com a Corea do Sul. E não com um país africano.

Em suma, esse momento poderia ser - e já passou da hora de ser - bem mais positivo que aparenta ser.

Como disse um comediante (fugiu o nome): o Brasil é um país em desenvolvimento há 500 e alguns anos.

E não quero revolução. Para crescermos, temos que avaliar onde estamos errando.

Sou a favor da democracia. Tanto é que me preocupa pesquisas que afirmam que a população não acredita no judiciário.

Enfim, não quero nem pretendo entrar em outra esfera.

Boa conversa que o Fernando proporciona.

Annima said...

Eu, particularmente, acho que o "determinismo genético" fala muito alto em nossas vidas.

Mas, isso não vem ao caso, pois não dá para desmerecer a importância da atuação do governo na questão da educação. Neste caso, o Brasil é uma bomba relógio prestes a explodir, se os esforços não forem plenamente direcionados para educar a população. E, educar, não pode ser semi-alfabetizar, mas fazer a coisa séria. O brasileiro fica passivo em muitas situações onde não deveria ficar...

Temos recursos para isso, mas a corrupção e o mau uso do dinheiro são nossos maiores problemas...
Não quero ser pessimista, muito pelo contrário. Mas a batalha é grande!

Alberto said...

O tripé camposto por 1.economia de mercado 2.estado democrático de direito e 3. educação é mais que a sustentação, é o motor da sociedade civilizada. Isso acho que todos estamos de acordo, não é?

O Brasil é capenga nos 3 itens, e assim como o marcão, não vejo nada a comemorar. Assim com não vejo o fim do mundo.

É um pais que evolui a medida que, sendo integrado à economia de mercado, gera mais riqueza interna e mais emprego.
Mas é um pais de instituições fracas, onde o estado de direito vive não sob ameaça apenas, mas sob ataque direto.
E é um país sem um politica de estado para a educação.

Epa, peraí, eu disse politica de estado? Estarei louco, ou sendo contraditório? Não. Vamos alinhar os termos, porque politicas de estado são coisas tão raras no brasil que pode geral desentendimentos.

A estabilização da moeda, por exemplo, é uma política de estado, não de governo. Isso quer dizer que se criaram mecanismos institucionais que garantem a manuntençao da diretrizes economicas independente do governo que está lá.

Ou seja, para e educação, precisariamos de uma mesma coisa: uma politica estruturada, com metas de curto, médio e longo prazo. Isso NÃO é sinonimo de investimento que se faz em escolas hoje, essa rede publica de vagabundagem & doutrinação vagabunda. Meritocracia, metas, e métodos. Tão simples quanto contestado.

Não acho que o estado tenha que ter tantas escolas, (e se tem que ter, que siga o princípio de subsidiariedade e deixe a tarefa para municípios) mas tem que organizar a bagunça, ninguém pode fazer isso por ele. Enfim, o Brasil começou a andar com a economia quando começou a seguir bom exemplos externos, com a educação não vai ser diferente.

luciano l. basso said...

Concordo, em parte, com todos... concordo que não temos muito o que comemorar; concordo que a educação no Brasil é um baita problema e acho que a falta dela é pior que uma bomba relógio, é um câncer e concordo que o Estado não deveria tomar para si tantas responsabilidades e que adaptar para nossa realidade exemplos externos é um belo caminho... mas também acho que não podemos ser pessimistas e acreditar que tudo está perdido.

Se me permitem, aproveito a boa discussão para fazer uma pergunta, por que nos textos sobre arquitetura, os do blog do Fernando mesmo, não temos tão ricas e calorosas discussões, como essa e como a anterior sobre aborto e outras milongas?

Reclamamos tanto da falta de boa arquitetura, da falta de crítica e nos blogs, bons e democráticos espaços que temos, nos colocamos como espectadores?

Annima said...

Excelente questionamento, Luciano.

Um dos problemas que temos aqui no Brasil, no que se refere ao debate de arquitetura, é o excesso de soberba para falar de alguns assuntos. Muitas vezes, a coisa deixa de avançar porque o conhecimento fica congelado atrás de poses e atitudes blases (não me refiro a vc). Ficaria feliz se me explicasse, por exemplo, porque, nas obras de Caltrava, as formas não correspondem à estrutura. Até então, eu achava que sim...

Se puder me responder isso, te agradeço muito.

carlos said...

pq a vida é mais importante que a arquitetura, luciano! :-)

mas eu acho que o que pega o arquiteto em cheio é que em um ambiente deseducado, e em que a ordem é faturar $$$, a arquitetura perde seu valor.

Fernando L Lara said...

Luciano,

voce fez a pergunta certa. Mesmo sendo a vida mais importante que a arquitetura, nos podiamos estar discutindo mais arquitetura, mesmo que seja para revelar as podres estrategias de se vender projetos e seus pugilismos destemperados.

mesmo assim, eu vou discordar de todo mundo e abusar do meu olhar de fora para defender que o Brasil esta melhorando sim. Devagar mas melhora a olhos vistos. Temos 98% das criancas de 7 anos na escola. A escola eh pessima, mas grande parte dos que hoje estao desempregados ou na marginalidade nem entrou numa escola porque nos anos 80 faltava vaga. Os meninos ainda param de estudar muito muito cedo, ha que se criar mecanismos que os mantenham estudando pelo menos ate o segundo grau (as meninas estao melhores ja ha duas geracoes). Mas basta olhar os indices que sairam ontem com a PNAD 2007. A percentagem de domicilios com esgoto subiu de 56% em 92 para 76% em 2007. A coleta de lixo que atingia apenas 66% agora cobre 88% dos lares. Perai, estas melhoras sao significativas sim porque como se diz aqui nos EUA, este "ultimo kilometro" para chegar ate a mais distante periferia eh o que custa mais caro e demora mais tempo.
Os dados da saude tambem sao impressionantes principalmente no que tange a desnutricao e mortalidade infantil.
Some-se isso a uma populacao crescendo pouco (1.9 filhos por mulher) e o quadro eh hoje muito mais positivo do que a 20 anos atras. Agora estas criancas que hoje comem e entram na 1a serie do ensino fundamental so vao gerar riqueza (e nao ter a marginalidade como unica opcao) daqui a 10 anos no minimo.

Em resumo, temos anos luz de trabalho pela frente, mas todas as ladeiras de temos pela frente sao menos ingremes que as da geracao passada.

ps: vou ver se arrumo um assunto arquitetonico que provoque o mesmo calor.

luciano l. basso said...

é bem por aí Fernando... é que o Brasil é tão grande e tem tanto para fazer que alguns tendem a deixar de acreditar... mas nós, tu como atleticano e eu como gremistão, sabemos que vai ser um pouco sofrido, mas no final vai dar tudo certo...

quanto ao pugilismo destemperado, é reflexo de uma fase de retomada do blog mais light... daqui a pouco ele toma novos ares de pseudo-seriedade hehehe...

ps.: não te preocupes em arranjar uma polêmica arquitetônica, todos os assuntos que tu postastes poderiam render calorosas discussões, às vezes para quem lê falta tempo... outras vezes falta vontade e interesse e pouquíssimas vezes falta conhecimento de causa para poder dar um pitaco.

luciano l. basso said...

annima, não é que a forma não corresponda à estrutura, mas sim que em vários de seus projetos há demasiados elementos que estão ali só para enfeitar... ou seja, ao invés de cornijas, frisos e frontões ele usa tirantes, mísulas e outros artifícios que teriam papel unicamente estrutural, mas que nos seus projetos se tu retirares a obra não vai cair...

esses tempos coloquei no blog que eu colaboro um post sobre ele, mas prometo que assim que der eu aprofundo um pouco a análise sobre as obras dele que eu já conheci...

Manuela said...

Anima,

As obras de Calatrava são de um profundo mau gosto para mim, mas, até onde eu saiba, são estruturais sim. Mas isso é lá importante??

Alberto said...

O PNAD diz, a economia vai bem, a infra-estrutura do país cresce em sua esteira, mas a sociedade vai mal, obrigado. O contraste entre os resultados de desenvovimento infra-estrutural e educacional acendem um alerta vermelho na minha opinião.

Concordo totalmente que a ladeira é menos ingreme, mas continuamos de chinelo. E bem ou mal, isso é uma corrida. No mínimo, contra o tempo.

****

Sobre o Calatrava, bem, se você usa e abusa de discursos e estéticas baseadas em formas e estruturas, digamos,biológicas, seria de se esperar uma certa analogia entre os esqueletos dos insetos e dos prédios, right? Isso dito, não sei se é importante, mas é uma fraude. E de mau gosto, de fato.

Annima said...

Se é de bom gosto ou não, não é isso que está em discussão.
O Luciano levantou uma questão interessante. Vcs viram quantos comentários rendeu o post sobre as eleições norte-americanas? O asusnto se estende porque o assunto é o aborto. Eleições das arquitetas mais bonitas também é um assunto que dá ibope... Quando falei de Calatrava, falei de dúvidas minhas, e num contexto específico. Agora, parece que quando o assunto é arquitetura propriamente dita, os comentários se resumem a frases de efeito. Ninguém deve se envergonhar por querem ampliar seu conhecimento sobre algo. No Brasil, o meio das artes, moda e... arquitetura, é assim.

Fernando L Lara said...

annima,

Puxando a conversa para o lado da arquitetura vou dar a minha opiniao sobre o unico edificio do Calatrava em que eu entrei. O museu de Milwaukee eh lindo de longe, suas "asas abertas" sobre o lago performam muito bem a funcao de marco urbano. Mas por dentro o predio eh sofrivel, confuso a ponto de eu nao conseguir achar o cafe (fica no andar debaixo depois de muitas voltas por um corredor comprido). A iluminacao do museu tambem eh ruim, as vezes muito escuro e as vezes claro demais. Ou seja, o edificio eh pessimo, a escultura eh linda. Isso pra mim define tudo que eu vi ate hoje do Calatrava. Mas assim como os Niemeyers dos ultimos 20 anos essa exuberancia formal casada com a assinatura de um starchitect vende muito bem, vide Libeskind, Gehry, Hadid....

a ladeira da boa arquitetura as vezes parece mais ingreme do que a ladeira da desigualdade brasileira...

Marco Antonio Borges Netto - Marcão said...

Reitero que o Brasil tá melhorando, mas poderia estar muito, mas muito melhor em muitos aspectos. A meritocracia seria muito bem vinda, como disse o Alberto.

Esses debates, apesar de não fugirem do foco, são mais acalorados do que quando se fala em arquitetura e urbanismo. O Luciano tem razão. Esse ponto é um dos motivos que criei meu blog: Crise [!] na Arquitetura e Urbanismo. Pois apesar de ser catecúmeno, isso me preocupa.

Se pararmos para pensar, todos os assuntos estão intrínsecos. Por exemplo, falamos recentemente de como as O.U.C. poderão ser úteis na arquitetura, como a CONFIS poderá afetar o profissional liberal e se o ensino de arquitetura e urbanismo é bom, é ruim ou desnecessário. Tudo isso passa por questões políticas, jurídicas, enfim, relativas ao Estado Democrático de Direito.

E talvez também pelo fato do Brasil estar caminhando a passos de formiga em questões que também afetam a arquitetura e urbanismo como educação, política e tecnologia, nos atemos a esses fatos e porque estamos em período de eleições municipais e estadunidenses.

Mas acho que o debate sobre arquitetura e urbanismo deve ser intenso como esses mas não podemos esfriar na discussão de temas assim, por exemplo.

Então, Fernando, que tal abrir um post sobre o Calatrava para debatermos a questão proposta pela Annima?!?!

Abraços.

Annima said...

Luciano, muito obrigada!

Exemplos assim, de arquitetos que visitaram edifícios e presenciaram erros como esses, são muito elucidativos. Já está salvo nos meus arquivos.
Do Calatrava, só visitei a Estação do Oriente que, por sinal, estava recém-inaugurada. Vai lá saber como está hoje, né?
Agora, a discussão da linguagem arquitetonica é complicada... Eu, particularmente, gosto do Calatrava nesse aspecto, assim como gosto de muitas coisas do Niemeyer, como o museu de Niterói(e também abomino outras, como o memorial)
Mas a funcionalidade deve ser uma das prioridades da arquitetura, sem dúvida!

luciano l. basso said...

Annima, não precisa agradecer, é um prazer ajudar, mas reforço que é opinião pessoal e eu não tenho a devida formação teórica para opinar sobre coisas muito sérias...

Tu estivestes na Gare do Oriente em que época do ano? As árvores são lindas, mas não protegem dos ventos e nem da chuva... tanto que li há algum tempo que estavam fazendo o projeto de "remendo" para ela... afinal, o orçamento devia ser apertado e fazem taaaantos anos que ela foi projetada... que agora um remendo é necessário.

O que o Fernando disse sobre o museu de Milwaukee e sobre a grife dos starchitects é muito pertinente... poucos da constelação se escapam, para citar um que eu gosto (claro que tem seus equívocos e contradições) é o lord Foster...

p.s.: Fernando, nem precisou de post para começar a discutir um pouco de arquitetura... agora falta a cerveja e as fritas

Annima said...

Estive lá em 98, na Expo.
Aliás, uma obra que me chamou muito a atenção foi o pavilhão do Siza. Aquela cobertura curva de concreto que parecia um tecido foi uma das coisas mais impressionantes que vi na vida.
Agora, estou com muita vontade de visitar o Iberê, em Porto Alegre.
O Siza é realmente impressionante!

Annima said...

Do Foster, já visitei o Mary Axe, lá em Londres, e Ponte do Milênio.
A Ponte é mais fotogênica do que realmente bela.
Agora, a torre Mary Axe é impressionante. Aquelas estrutura em diagonais na fachada, e a maneira como o Foster trabalhou os acessos foi de uma competência ímpar. A estrutura se torna vazada em alguns losangos e os acessos se configuram neles. No mais, achei o edifício muito bem integrado com o entorno, com aquela praça com mesas do restaurante e aqueles bancos que ladeiam a rua. Mas há quem diga que aquilo é arquitetura do espetáculo, o que tem uma conotação negativa.
Já a Torre Agbar, que eu também visitei, foi pobremente integrada ao entorno com aquela praça desnivelada, cheia de calombos e com aqueles banquinhos lúdicos...
Apesar de estar localizada numa área que era industrial, sem grandes definições, sinto que Nouvel poderia ter trabalhado melhor aquilo. Mas, acho que ele acertou na linguagem. Curti os caixilhos, aquelas cores e tudo mais

Marco Antonio Borges Netto - Marcão said...

Então... Alguém me indica algumas bibliografias? De crítica, doutrina e/ou de projetos?

Gosto da rede, mas nada se compara a uma livraria, a uma biblioteca.

Seria ótimo conhecer in locco muitos projetos, mas tô estudanto tanto que tô sem tempo de ganhar dinheiro e de viajar (rs.).

Abraços.

Alberto said...

Agora, Fernado, uma provocação se faz necessária: realmente a vida dos brasileiros melhorou bastante, e é isso que importa afterall. Mas a desigualdade não diminuiu não.

E insisito, que não vejo problema nenhum nisso. é melhor um país em que todos vivem bem, mesmo que desigualmente, do que em um país em que todo mundo vive igualitariamente no inferno, digo, em cuba, digo, na miséria.

Annima said...

Eu também estou atrás de livros bons, Marcão.
As sugestões vão valer para mim também.

Marco Antonio Borges Netto - Marcão - revistacrise@email.com said...

Olhem o que achei: http://www.stumbleupon.com/demo/?friend=2630264&msg=Simples+Auto-sustentabilidade#url=http://www.dailymail.co.uk/news/article-1056637/Lost-middle-class-tribes-secret-eco-village-Wales-spotted-aerial-photograph-taken-plane.html

Marco Antonio Borges Netto - Marcão - revistacrise@email.com said...

Caros, postei o seguinte no meu blog:

Na blogosfera e na emailosfera estamos discutindo muito a falta de debates sobre arquitetura e urbanismo. E quando o debate é instaurado, ele é superficial, pobre de bons argumentos e de opiniões relevantes.

Ao contrário, quando discute-se eleições municipais ou norte-americanas, o debate é incrivelmente enriquecedor e muito participativo.

Fernando Lara, em seu blog Parede de Meia, compartilhou com os leitores a notícia de que em um congresso em Londres discutiram se as escolas de arquitetura e urbanismo são realmente necessárias e fundamentais. Essa questão é apresentada na última Revista aU.

Sou catecúmeno, como sabem. E como tal, percebo que o ensino de projeto é deficitário sim (vivenciei essa experiência em duas faculdades). E somos todos responsáveis: professores, alunos, dirigentes e currículos. Essa discussão deve ser exaustivamente colocada em pauta.

No meio desse turbilhão, ocorreu-me uma idéia. Pode não ser nova, mas apresentarei:

Todas as faculdades de Arquitetura e Urbanismo deveriam selecionar os 3 melhores Trabalhos de Final de Graduação de cada ano. As revistas especializadas, em parceria com os IAB, CREA, etc., montariam uma comissão para julgar os melhores de acordo com critérios definidos por ela. Seriam eleitos os melhores de cada região ou estado, por exemplo.

E os trabalhos vencedores seriam publicados em uma revista que circularia como um número especial da aU e/ou da Projeto Design, etc..

Assim o estudante fará o TFG não só para cumprir tabela ou por formalidade e o professor será mais profissional nas orientações.

Fernando L Lara said...

Marcao,

voce esta reinventando o premio Opera Prima? Qual seria a diferenca entre este seu concurso e o premio que ja completou 20 anos?

Fernando

Marco Antonio Borges Netto - Marcão - revistacrise@email.com said...

Olá, Fernando!

Não pode haver mais e mais prêmios como esse?

Bom, então proponho uma forma de envolver ainda mais alunos e professores.

Há 2 anos e meio curso arquitetura e trabalhei dentro do departamento de arquitetura da PUC durante dois anos. E nesse período eu só fiquei sabendo desse premiação porque uma aluna da PUC ganhou o prêmio em 2002 ou 2003. Em nenhum período eu vi a faculdade empolvorosa com a possibilidade de inscrever TFGs. É uma monotonia só. Aliás, os alunos ficam uma pilha para concluí-lo, apenas. Por isso nem lembrei do Opera Prima.

Na lista de discussão que participo (deve ter mais de 2000 participantes), teve um arquiteto que achou que esse prêmio não existia mais.

As faculdades poderiam promover concursos internos, municipais, regionais...

Abraços.

Alberto said...

Marcão

O que eu realmente não entendi [e como isso colabora de alguma forma com o ensino deficitário.

A maioria das escolas ignoram ou repudiam o prêmio (assim como repudiam tudo que possa a vir a "avaliá-las" de alguma forma) e mesmo as poucas que as valorizam, as valorizam como marketing específico, investindo no resultado do projeto incrito especificamente, e não no ensino como um todo.

Asssim, esse prêmios premiam um esforço individual do aluno, que normalmente remama contra a maré. E nada mais.

Fernando L Lara said...

Marcão,

eu tive mesmo a impressão de que você não conhecia o Opera Prima porque sua primeira proposta foi parecida demais com o curso. Uma pena os alunos hoje não estarem antenados para isso (e parece que nem os professores).

Alberto, vale a pena ler um artigo do Serapião acho que na Projeto de agosto, onde ele fez um balanço de 20 anos de Opera Prima. Chamo a atenção para este artigo porque é no longo prazo que se percebe a qualidade das escolas. No balanço de 20 anos as escolas que se destacam são a UFPE, a UFRGS e a UFMG. Três excelentes escolas na minha modesta opinião. A presença constante delas entre os premiados transcende qualquer esforço puramente individual. Agora em qualquer escola, por melhor o pior que seja, existirão alunos brilhantes e alunos medíocres. E professores idem.

Ricardo Rossin said...

Concordo com o Fernando sobre as universidades e a avaliação, pois o aluno tem que estar antenado. Ficar esperando a universidade dizer algo é complicado. Eu, por exemplo, jamais teria ido a Barcelona fazer mestrado com bolsas de estudos esperando que minha faculdade falasse algo. Eu pesquisei!!! Claro que uma ajuda é bem vinda, mas a minha não sabia de nada disso! Porque será?

Sobre Calatrava eu digo: Eero já fazia o mesmo a muito tempo atrás, e não precisava usar aquarela, e concordo com o que Alberto disse sobre ele.

Já comentei várias obras dele no meu blog e não gostei nem um pouco do que vi!

Marco Antonio Borges Netto - Marcão - revistacrise@email.com said...

Fernando,

Você tinha razão. Eu ouvi falar do Opera Prima.

Ricardo, é óbvio que o aluno tem que correr atrás. Aliás, ele deve. Mas aonde o aluno busca informações primeiro?

Vale lembrar também que o cara entra cru e novo para a universidade.

Acho que todos devem fazer a sua parte. O aluno jamais em tempo algum deve esperar e a universidade e professores também não devem se omitir.

Quando era estudante de Direito, era um suplício conseguir que a escola ajudasse financeiramente a participação de alunos em congressos nacionais e internacionais para apresentarem artigos ou monografias selecionados.

Agora, se ainda tem gente que desconhece um concurso maduro e importante como esse, tem algo de errado.

Penso que para o aluno formar, ele deveria participar de concursos e cogeneres e que esses concursos também sejam utilizados como critério de avaliação do curso junto ao MEC. Uma espécie de prova de Ordem.

Essa competição salutar só tende a melhorar o ensino.

Parece que estamos chegando a um consenso.

luciano l. basso said...

Marco, eu tive a boa experiência de participar do opera prima, edição de 2003... então posso falar da minha experiência.

o aluno não precisa se "lembrar" do opera, é a faculdade que indica os trabalhos para a premiação de acordo com critérios pré-estabelecidos.

fora isso, todos os anos tem um espaço na revista Projeto divulgando todos os trabalhos selecionados, então os alunos que não conhecem a premiação é que tem algo errado...

o opera é uma premiação e não um concurso, não acho que arquitetura seja feita para competir...

e alberto, as escolas que ignoram ou repudiam essas premiações, é porque nunca ganharam uma... e por falar em opera, ainda existe o premio CSN?

Marco Antonio Borges Netto - Marcão - revistacrise@email.com said...

Mas concursos, prêmios, etc. são excelentes insentivos, ainda mais para os alunos que terão mais um objetivo além de "passar".

É treino. Tudo na vida é treino (treino: leia-se estudo, prática). Mais uma oportunidade para colocar em prática o que vê ou viu na faculdade.

Esses concursos e prêmios não são exclusivamente para competir, e sim para que o aluno estude ainda mais e conheça novas técnicas e materiais.

Marco Antonio Borges Netto - Marcão - revistacrise@email.com said...

Alberto,

Desculpe-me eu respondê-lo agora. Vi seu comentário agora.

Tornando o trabalho público, o projeto será feito com mais cuidado, zelo. Não só com o objetivo de "passar".

Fernando L Lara said...

Marcão,

você tocou num ponto chave aqui: os trabalhos tem de ser mostrados ao público. É a única forma de se melhorar o nível geral. Ao se expor todos os trabalhos expõe-se o professor também, o que elimina acordos do tipo um finge que ensina e o outro finge que aprende. Eu já participei de banca de TFG em que o/a aluno/a trouxe epenas a planta (mal resolvida) dizendo que tinha tido problema de plotagem e etc. Eu me recusei a aprová-lo/a e a orientadora insistindo que estava tudo bem, ele/a tinha trabalhado muito e etc. Então eu pedi para ver os croquis e o/a aluno/a disse que estavam em casa. Eu respondi que estaria ali por mais duas horas em outra bancas, podia ir buscar. A coisa foi ficando feia, a orientadora comecou a ficar irritada e encerrou a banca. Resultado, eu dei nota 40 naquela planta ruim, ela deu 90 e o outro membro tambem deu 90 para que na média ele/a fosse aprovado. Um escandalo que não aconteceria se os trabalhos fossem expostos e tivesse pelo menos uns 2 gatos pingados na pretensa banca.

Alberto said...

Fernando, seu relato me parece uma caso reocrrente na FAU-USP. Um professor conhecido meu de São Carlos, vei para uma banca: queria reprovar o aluno, mas não foi apenas coagido a aprová-lo foi coagido a dar 10!. De resto basta ver quantas pessoas são aprovados com 10 na FAU-USP, em comparação com São Carlos ou outras faculdades. Fabirca de gênios? Don't really think so.

Tá mais para um distorção, que se baseia um pouco nessa lógica de valorização do TFG. Claro, concordo com vocês, esses concurso não deixam de ser uma vitrine da produção das escolas, mas a acho, como disse, distorcida.

TFG é um processo que conta com orientação, e sabemso que em alguns casos, a mão pesada dos professores é determinante. Não estou dizendo que é trapaça: isso é da natureza do TFG.

Mas por isso, jamais pode ser tomado como medida da qualidade do ensino de determinada escola.

A crise do ensino não vai, de qualquer forma, se resolver através da pura e simples exposição, ainda mais só dos melhores projetos.

Ainda que exsitisse um anti-opera-prima, exibindo os trabalhos ruins ( o que acho cruel e desnecessário, by the way) ainda assim só se estaria expondo os problemas.

E a solução, qual é?