Sunday, September 28, 2008

design and ethics

acabei ontem de ler o novo livro de Thomas Fisher, Design and Ethics, publicado este ano pela Elsevier. Tom Fisher é um dos meus autores favoritos no cenário acadêmico norte-americano. Ex-editor da revista Progressive Architecture (nos seus melhores tempos, antes de ter sido comprada e fechada pela concorrente) e atualmente é dean da escola de arquitetura de Minnesota.

o livro não é o melhor do autor nem entraria na minha lista dos top 50, é meio desfocado, as vezes parece ter sido escrito para o público em geral, mas é demasiadamente arquitetônico sem sê-lo o suficiente. Deu pra entender? Pois é, eu também não saquei direito qual a intenção principal do autor.

mas o Tom Fisher acerta ao trazer o tema da ética para a discussão sobre arquitetura. O texto é muito bem embasado no que diz respeito a este ramo da filosofia e muito bem amarrado com as questões contemporâneas do design.

por exemplo, Fisher vai direto ao ponto quando argumenta que a arquitetura precisa servir as pessoas e deixar de se preocupar com a beleza e a ordem como fins em si mesmas. Discorrendo sobre o panorama norte-americano (mas serve também para os jovens da pseudo-vanguarda brasileira), Fisher demonstra como a ênfase na abstração vai corroendo o papel social da arquitetura. Numa das melhores passagens do livro o autor explica como a pseudo-vanguarda cria uma escassez artificial. Nada é bom o suficiente então deve-se sempre inventar a próxima moda que de novo não tem nada, enquanto a verdadeira escassez (de qualidade na construção em geral) nunca é devidamente atacada.

a mudança ética de que fala Tom Fisher passa por uma mudança de discurso, pela inclusão de todo tipo de construção como objeto de estudo da arquitetura e não apenas aqueles projetados por arquitetos famosos, argumento que faz parte da maioria dos meus escritos. Fisher acerta também ao dizer que nossas conversas abstratas são uma barreira que atrapalha o entendimento do nosso trabalho por parte da sociedade.

em resumo, não é o melhor texto de Thomas Fisher mas é uma discussão oportuna e importante.

33 comments:

Annima said...

As "conversas abstratas" que os arquitetos têm são um reflexo do conhecimento superficial dos temas ou simplesmente é um sintoma de pedantismo?
De onde surgiu este imensa lacuna entre arquitetos e a sociedade?

Talvez o Tom Fisher - ao desenvolver um texto "híbrido" desses(para leigos/arquitetos) -tenha percebido que, para sermos valorizados como profissionais, temos de ser compreendidos antes.

Mas se nem os próprios arquitetos se compreendem...

Alberto said...

Buenas, pronto pra próxima, old top? Então vamos lá.

1.Não acho cabível, ainda hoje, contrapror "estética" e "papel social" da arquitetura, seja em nome da ética ou do que quer que seja.Basicamente porque:

a) A estética é o maior papel social da arquitetura, repito, o maior. É a razão pela qual as grandes obras são conhecidas primordialmente, porque em suas estética está uma visão de Cultura, com C maíusculo mesmo, que se sobrepõe sempre ao seu valor utilitário - social ou não - em cada circunstãncia. Basta ver o esforço de mudar esse tal "papel social" da arquitetura nas grandes obras de cada cidade, adaptando seu uso para proteger a sua "estética" da demolição

b)Não existe tal contraposição; a estética nunca é um fim em si, está sempre vinculada ao firmitas e utilitas do problema. Obras de grande desempenho em seu "papel social" tem a sua estética determinada das formas mais deversas. Uma coisa completa a outra, mas jamais barra.

2)Todo tipo de construção já é objeto de estudo da arquitetura. O que não é a mesma coisa de compulsoriamente elevar todo tipo de construção ao status de arquitetura. Seria uma distorção impossível de corrigir, na teoria ou na prática.

3)Conversas abstratas de quem, cara-pálida? Por experiência própria, sei que é bem possível tornar assuntos importantes da arquitetura em assuntos de interesse para os não-iniciados.

Condenar os arquitetos, entretanto, a manter discussões exclusivamente acessíveis a todos seria equivalente a censurar o pensamento e brecar o desenvovimento da arquitetura - o que, portanto, seria uma das coisas mais antéticas que se pode fazer.

Isso nada mais é que o zeitgeist da era Lula, a meu ver: o ignorante tem sempre razão.

Annima said...

Sério, Alberto? É isso mesmo?

O debate entre especialistas/leigos não breca o desenvolvimento de outros campos, como o da medicina, por exemplo.
Por que a arquitetura tem de estar neste pedestal?

Agora, numa coisa concordo com vc: não dá para contrapor a estética ao papel social da arquitetura.

Alberto said...

Ah Annima, não é isso. Assim como o debate especialistas/leigos é importante em qualquer área de conhecimento, o debate entre especialistas é tão importante quanto - e tem o seu lugar. Tanto é que os médicos tem lá seus congressos, e vá entender o que dizem por lá.

Nos artigos que escrevo para a MORAR por exemplo, eu tento trazer alguns assuntos de arquitetura e do urbanismo para o leitor comum de jornal.

Agora, nunca me esqueço que para chegar a uma clareza (mínima, vá lá) sobre um assunto a ponto de trazê-lo para uma linguagem mais cotidiana, é porque já discuti muito o assunto, nos termos próprios dos chamados "especialistas", com meus amigos arquitetos.

Enfim, não há contradição entre uma coisa e outra também

PS: Acabei de postar o ultimo artigo de Setembro, no architecture

Fernando L Lara said...

Alberto,

esse isolamento de que eu falo eh muito pior nos EUA do que no Brasil, mas isso porque o pensamento de esquerda no Brasil eh majoritario, o que pra mim eh uma vantagem, uma qualidade do modo de pensar brasileiro.

mas aqui em Michigan hoje mesmo eu estava num comite revisando os temas dos trabalhos finais de mestrado (que sao projetos) dos ultimos 3 anos. De quase 600 trabalhos eu contei uns 30 que tinham um forte componente de realidade e 8 (isso mesmo, 1,3%) que se ocupavam de melhorar as condicoes habitacionais das familias de baixa renda (1 no Brasil, 3 na China e 4 na Africa).
Os outros 560 (ou 90%) tratavam de temas como "a insustentavel dureza do desenho", "a violencia como estrategia projetual" ou meu favorito: "terrenos bordados pela experiencia do flaneur".

a pergunta que costumo repetir a exaustao nas bancas aqui eh a seguinte: como seu trabalho contribui para deixar o mundo um pouquinho melhor do que era antes?

carlito said...

terrenos bordados pela experiência do flaneur é bom mesmo! Feliz do povo que pode ter esse tipo de "preocupação".
Eu concordo com o Alberto que há coisas que precisam ser discutidas entre os arquitetos, e outras que precisam ser discutidas com todo mundo. E aí acho que nossas entidades de representação teriam de ter o trabalho de chegar na mídia geral e explicar as coisas, tipo serviço de utilidade pública mesmo.
O problema, me parece, é que uns estão com o rabo muito preso com as incorporadoras e etc. e outros não se ligam ou não querem se ligar. Não vou ficar procurando isso agora, mas acho que li em alguma lugar o nosso querido Paulo Mendes da Rocha dizer que a burguesia paulistana merece o neoclássico, por exemplo.
Falando de ética e de desenho, o que precisa ser urgentemente discutido no Brasil, numas de iluminismo mesmo, é urbanismo. Temos ótima arquitetura sendo produzida aqui, mas nenhum urbanismo. E parece que ninguém tem idéia do que seja isso: é só ver na campanha pra prefeito de são paulo: o mesmo cara do aerotrem, o maluf com a freeway em cima do rio tietê. Maluf à parte, tem ética esse desenho urbano que acabou com os rios de São Paulo? Não sei se já escrevi isso em algum comentário em algum lugar, mas falam que são paulo é feia como se fosse geneticamente feia. Mas não!!! a cidade podia ser linda se seus rios tivessem sido tratados com respeito, com parques ao longo deles. Só que, como diz um amigo meu, mataram no ninho.
Enfim, quero dizer que a questão do desenho melhorar a vida das pessoas, a meu ver, passa muito mais pelo desenho urbano do que outra coisa. mas no brasil parece que ninguém acorda pra isso.
bom, desculpem o tamanho do comentário. é um desabafo, na verdade.

carlos said...

oi pessoal, me liguei que assinei como carlito, mas sou eu, o carlos :P

juliana m. said...

Ei Fernando,

Estudei na EAUFMG e não via praticamente nenhuma preocupção com o mundo melhor, ou quando havia era de botique, prá "fazer o filme com a banca". Eu me lembro numa das primeiras aulas de urbanismo 1 a professora comentando: nos anos 70 todo mundo queria ser urbanista, hoje ninguém mais quer. Porque é isso mesmo, quem se pretende relacionar com a realidade das cidades acaba trabalhando com governo e políticas urbanas. E ninguém mais está muito interessado nisso não, viu. Esse negócio de esquerda majoritária é igual religião. Os recém convertidos são os mais fervorosos, os filhos e netos já começam a relativizar os dogmas.todo mundo pode associar o discurso de esquerda como um pensamento mais familiar, mas pensar nisso como um discurso ético, uma diretriz para ação, etc, ninguém pensa. (e eu pessoalmente não acho que ética não nada a ver com direita e esquerda)aliás se haviam 3 pessoas na ea que seriam capazes de identificar a filiação ideológica de um discurso era muito. ou então pensam errado, provocando problemas piores, aliás. que se não tivesse partido envolvido. aquele pensamento maniqueísta e simplória que não cabe no mundo da vida.
abraços

Fernando L Lara said...

Juliana e Carlos,
eu concordo que os problemas sao mais urgentes na escala do urbanismo, mas nao absolvo a arquitetura de casa edificio dessa culpa nao. Fico triste cada vez que viajo pelas estradas de Minas e vejo cidades horriveis, tanto pela falta de urbanismo quanto pelo descaso absoluto de cada familia com a imagem (e aqui a etica se junta a estetica) de suas residencias. Qual a mensagem passada pelo carro zero dentro de uma casa sem reboco se nao a absoluta desimportancia da arquitetura?

carlos said...

verdade. é um sério problema de valores mesmo. pro carro, tudo. pra casa, nada. O importante é ter um carrão, que por sinal só dá despesa e desvaloriza independentemente do quanto se invista nele, em vez de investir na casa, que com as melhorias vale mais. Aí a gente volta pra qustão da educação - inclusive do analfabetismo financeiro (li isso em algum lugar tb). E tem tb que se a casa (ou até o barraco) é alugado, aí que não se investe mesmo. E a falta de senso de coletividade: se arrumar todas as fachadas, a rua fica mais bonita e melhora a vida de todo mundo. Mas aí eu acho que o poder público devia intervir de alguma forma, fazendo exigências e, é claro, dando condições de se fazerem as coisas. inclusive revendo o código de obras.

Annima said...

É mesmo Carlos. Imagine as Marginais cercadas por parques lineares e as represas também... A cidade seria outra. Bendito Prestes Maia...

juliana m. said...

Eu sou totalmente contra essa do poder público legislar sobre fachada. Porque poder público é gente, não uma entidade alienígena, e aí, vai ter censura de fachada? neoclassicismo? Vai ter que nascer outro Warchavchik? E as pessoas investem sim em casa. Muito. rios de dinheiro. E pra isso elas contratam decoradores. Essa é a questão. As pessoas não sabem a diferença de um espaço bom pra um ruim, então acham que precisam é de um móvel de design, prá dar jeito. Decoradores sabem menos ainda, porque nem vão morar no lugar ruim que atulharam de assinaturas, só querem a comissão e ainda acham que são a salvação da arquitetura. Falta de educação urbana é de empresa de arquitetura que contrata estagiários por meio salário mínimo pra resolver projeto, e dá-lhe absurdo, fachada de fundo dando prá rua porque alguém "não viu" que era uma esquina, e assim por diante.

carlos said...

pois é por isso mesmo que eu acho que tem de alguém ir lá e por limites nisso, Juliana! calçada e fachada estão na rua, todo mundo tem de ver e é obrigado a conviver. Perto de onde eu moro tem uns prédios medonhos com vidros espelhados cor de rosa e outro turquesa eu tenho de vê-los todos os dias!
além disso incomoda demais em são paulo a falta de uniformidade de escala. Cada um vai lá e faz o que quiser - incluo nisso as monstruosidades que as incorporadoras fazem.
Agora, as pessoas que investem na casa e pagam decorador não são as mesmas de quem a gente estava falando antes. Essas moram no prédio neoclássico com clube, andam de Pajero e Hilux e chamam o decorador pra ir pra Miami comprar a mobília. A gente tá falando a classe média baixa que opta pelo carro em detrimento da casa.

Alberto said...

Primeiro, vou reproduzir um post INTEIRO do Alexandre Soares Silva. Lá vai.

Meu nome é Alexandre e eu tenho medo dos sentimentos excessivamente lindos

"A esquerda é uma contínua competição para ver quem tem os sentimentos mais lindos da sala. Sua concepção de beleza, em termos de sentimento, é nouveau-riche: os sentimentos que brilham mais. Gostam dos espelhos, do ouro e das lantejoulas da alma.

Esses sentimentos excessivamente lindos sempre terminam em ódio a quem tem sentimentos discretos. O homem vestido de oncinha na alma quer matar o homem vestido de cinza. O homem que se baba todo de amor aos pobres quer matar o homem que dá esmola e fica quietinho. A esquerda é um ódio à discrição dos sentimentos."

E mais não digo sobre essa absurda hipotese de que a esquerda tem o monopólio de qualquer valor moral que seja. A única coisa que a esquerda trouxe ao mundo real foi miséria e genocídio -culposo ou doloso a depender do caso. Os sentimentos excessivamente lindos nunca sairam do campo das idéias.
So gimme a break com esse negócio de qualidade de pensamento de esquerda ser uma vantagem.

Só é pra quem vive de discurso.

Alberto said...

Não há maior contribuição para o mundo que a arquitetura possa trazer do que uma obra cosnsistentemente bela.

No dia do meu TGI, foi apresentado o de uma colega minha também, que fez um loteamento be-êne-agá-riano de habitação popular. tudo ia as mil maravilhas quando o convidado notou que nos quartos projetados não cabiam, em hipotese nenhuma, uma cama.

Isso é a qualidad do pensamento de esquerda na faculdade. Quer salvar o mundo, e não sabe o quanto mede uma cama. Durma-se.

Alberto said...

Agora, censura de fachadas? Sempre teremos Paris, nãoé mesmo?

Isso que dá querer elevar qualquer tipo de construção ao status de arquitetura.

Achar que todo mundo deva se importar como arquitetura é igual achar que todo mundo deva gostar de filme nacional. É uma fantasia fascista.

Ou a arquitetura fala naturalmente ás pessoas, ou paciência.

Hitler também achava que ninguém era obrigado a ser exposto a qualquer obra modernista.

Fernando L Lara said...

Alberto, Carlos e Juliana,

acho um exagero termos regulamentacao de fachada, ja nao bastam os departamentos de patrimonio zelando por uma arquitetura bem mais ou menos que por ser velhinha se torna intocavel. Mas isso eh assunto para um outro post.

agora a chamada "cosmetica" urbana eh razoavelmente importante sim, todo mundo gosta de andar numa rua limpa com casas pintadas e flores no jardim. O IAB-MG tinha um premio chamado "gentileza urbana" que conseguia chamar atencao para essas pequenas delicadezas que encontramos de vez em quando na cidade.

agora Alberto, eu acho que o melhor que aconteceu ao PT foi justamente ter perdido esta superioridade moral que a esquerda tinha desde o golpe de 64. Vamos falar de propostas e resultados e ai sim, acho que a esquerda "pragmatica" tem dado um show no Brasil, ate porque a direita anda completamente atabalhoada ha muitos anos. Eu nao me engano, votaria na esquerda pragmatica se estivesse ai na semana que vem mas espero que a oposicao seja vigilante como o PT era nos anos 90 para o bem das instituicoes.

e talvez um dia o urbanismo primeiro e depois a arquitetura entrem na discussao publica pra valer

Alberto said...

A esquerda pragmática é aquela que faz parceria público-privadas para deslachar obras de infra-estrutura?

É a que privatiza serviços fundamentais para que melhorem de qualidade para população?

É a que cria incentivos fiscais para que empreededores recuperem áreas degradadas?

Bom, se for, eu voto nela também. A questão é que ela é tão pragmática que QUASE vira de direita.

A unica coisa que essa tal esquerda pragmática não consegue disfarçar-se de direita é pela indisfarçavel ojeriza pela democracia. No es preciso dar los exemplos, no?

juliana m. said...

Carlos, não, a gente está falando das mesmas pessoas sim. O desejo de comprar um carro, seja um gol ou uma hillux é o mesmo. O de ter um celular x e não um fuleiro. A diferença é que é mais fácil pagar um carro, um celular e uma calça da vide bula do que uma casa. A gente está sim falando do mesmo mundo, em que todo mundo compartilha valores parecidos. A diferença também é que a casa é mais fácil de esconder. Você pode sair por aí com sua roupa e seu celular dirigindo seu carro e nunca levar ninguém prá ver onde você mora. A questão é entender em que mudo você vive, e lidar com ele. Se as pessoas perderam o habitar bem, o dwell, como valor de bem estar, bem viver, o que pode ser feito? de quem é a culpa? essa é a única questão real da arquitetura. Porque diz a respeito do lugar no mundo do que a gente faz. Se não existe lugar pra isso, a gente está aqui discutindo o sexo dos anjos. As pessoas terem como valor um prédio neoclássico dentro de um condomínio fechado, ou não rebocarem sua casa, está no mesmo campo de problemas. Exatamente o mesmo.

E isso vale por extensão a cidade. Claro que todo mundo gosta de uma cidade limpa e bonita. Por isso quem pode vai passar férias na europa, não é? Porque esse valor têm se perdido no Brasil, então? Até que ponto degradação de algumas áreas é uma questão arquitetônica? Aí sim a gente começa discutir projetação. E nosso papel no mundo. e tudo o mais.


E se vc pode barrar projetos que vc acha ruins, alguém pode barrar projetos revolucionários também. Ou simplesmente o projeto do colega de faculdade que a figura achava chata. E aí, quem controla isso? O Warchavchik não te lembra nada? É por isso que a liberdade é sempre melhor que o controle, Carlos. Quer dizer, se você acha que o mundo pode ser diverso, não todinho do jeito que vc acha que deve.

Fernando L Lara said...

Juliana,
faço minhas as suas palavras. Disse tudo.

Marco Antonio Borges Netto - Marcão - revistacrise@email.com said...

Antes de eu falar qualquer coisa aqui, cabe um esclarecimento: Não sou de direita nem de esquerda. Só prefiro viver num país que apresente níveis desiguais de prosperidade a um país que apresente miséria iguais para todos. Mas a pessoa deve ter oportunidades para chegar a essa prosperidade. Um meio termo, digamos. Temos que fazer com que as pessoas ajudem umas as outras. Principalmente as que tem dinheiro. Com dinheiro fica mais fácil ajudar.

Bom, voltando para o assunto.

Me preocupa muito quando o Estado quer controlar tudo, fazer a sua maneira.

Controlar fachada?!?!? É o fim da picada. Arquitetura não se restringe ao bonito ou ao feio. Ditadura da beleza? São conceitos muito subjetivos e nada simples. Umberto Eco que o diga. Aliás, arquitetura tá bem longe disso.

A arquitetura deve responder à pergunta que o Fernando fez: a que se destina o projeto? O que ele melhorará a vida da pessoa, da sociedade?

Por exemplo, citando o urbanismo. A Linha Verde e as duplicações de avenidads em Belo Horizonte.

Priorizando o veículo nas obras acima citadas, os Poderes Públicos Estadual e Municipal não pensaram nos catadores de papel que andam a cidade inteira com os carrinhos lotados.

Não é nem a questão de topografia, pois um carrinho elétrico desenvolvido pela Itaipu Binacional ajuda muito. O fato é que é perigoso transitar de bicicleta ou de carro de recicláveis pelas ruas de Belo Horizonte. Uma ciclovia ajudaria.

Lembro que quase nunca se vê um ciclista em Belo Horizonte e os catadores acabam atrapalhando o trânsito correndo o risco de machucarem.

Então, o design serve para isso. Ajudar. Se é belo ou não, como diria o Alberto, it´s up 2 you.

Abraços.

Marco Antonio Borges Netto - Marcão - revistacrise@email.com said...

Espero ter sido claro.

Até.

carlos said...

eu ainda acho que tinha de se colocar um limite. eu estou falando de questões urbanas, da cidade que já está construída (e que tem bem pouca arquitetura), e não de projetos novos, muito embora eu pense que eles deveríamos nos esforçar para que nossos projetos se comuniquem melhor com o entorno, porque não é o que eu vejo, pelo menos não em são paulo. Vocês vão dizer que a lei cidade limpa foi ruim? na minha opinião, apesar da maioria só ter substituído aqueles letreiros medonhos por texturas ou cerâmica e etc, ficou melhor do que antes. é desse tipo de coisa que eu estou falando.
ok juliana, eu entendi e você tem razão. só que aí o problema é aquele: educação. se as pessoas tivessem um pouco mais de noção das coisas, teriam outros valores.

Marco Antonio Borges Netto - Marcão - revistacrise@email.com said...

Bom, claro que a lei deve existir. Se com ela a sociedade é confusa e complexa, imagine sem lei.

Mas acho que deve ter limite para legislar.

Daqui a pouco vai ter lei querendo "substituir" o arquiteto, dizendo como projetar e quais materiais utilizar. e por aí vai.

carlos said...

bom, marcão, isso já acontece...

o que eu proponho é que haja limites pras pessoas "comuns" fazerem intervenções e manter um pouco mais a ordem. Por exemplo, lojista que trata o espaço da calçada como se fosse criadomudo (põe uns vasinhos de flor, um banquinho, etc.), ou em um conjunto de casas geminadas, vai lá um morador e troca a veneziana de madeira por uma sasazaki. esse tipo de coisa. parece bobo, eu sei, mas faz uma baita diferença. faz a cidade parecer um favelão.

Marco Antonio Borges Netto - Marcão - revistacrise@email.com said...

Pessoal,

Só para lembrar, ontem, dia 5 de outubro, a Constituição Federal completou 20 anos.

Voltando. Mas a lei já determina como será feita a ocupação do passeio, não? X metros para postes, lixeiras, esgoto, árvores, etc. X metros para o passante. X para bancas de jornal, etc.. E por aí vai.

Olha, é preocupante um arquiteto aceitar que o leigo faça intervenções nas fachadas ou algo do gênero sem o auxílio de um profissional.

Não será a lei que impedirá que a cidade se pareça com um "favelão". É a atuação do arquiteto urbanista.

Anonymous said...

tá. e cadê o arquiteto e urbanista? estou numa rua aqui no centro de são paulo e não estou vendo nenhum arquiteto e urbanista. estou vendo, sim, um monte de fachada e passeio público numa quizumba, e não tem ninguém pra melhorar isso. Que tal se as nossas entidades de classe oferecessem nossos préstimos para as associações de bairro? quem encara aí um trabalho voluntário pra melhorar a cidade?

carlos said...

cliquei no botão errado e entrou como anonymous, lo siento.

carlos said...

ah, e só pra completar, marcão, qtas pessoas você conhece que efetivamente contratam um arq. pra fazer qq coisa? na fachada ou não? essa não é um dos grandes problemas da profissão hoje? que todo mundo se vira com pedreiro, mestre de obra ou, no máximo, um engenheiro? A gente tem de encarar a realidade.

Marco Antonio Borges Netto - Marcão - revistacrise@email.com said...

Você chegou ao ponto que queria, Carlos. Falei seis e você meia dúzia.

Se permitirmos que o leigo faça o trabalho do arquiteto amparado por uma legislação, as escolas de arquitetura acabarão de vez.

Então ao invés de dar essa colher da chá, vamos pensar em uma saída para resolver esses problemas apontados por você e outros tantos.

Achar uma forma de valorizar a profissão.

De fato CREA e cia. deixam a desejar.

carlos said...

desculpe, marco, mas você não entendeu. eu falei, de forma meio leviana, meio retórica, que devia ter algum jeito de impedir o camarada de fazer o que ele quiser na fachada, na porta da casa dele (residência ou comércio etc.). Ou você acha que as cidades brasileiras são bonitas? Ou que São Paulo é linda? E como fazer pra mudar a mentalidade das pessoas? Pq o que o Ruy Ohtake fez em Heliópolis não pode ser feito em outras partes da cidade, com seriedade? será q assim o arq. seria mais valorizado?

pq qto a valorizar a profissão, enquanto os arquitetos ficarem sentados choramingando o qto são desvalorizados, não vai acontecer nada. Logo alguém vai chiar que não dá pra trabalhar de graça. Tudo bem, eu entendo. Mas alguma coisa tem de acontecer.

Marco Antonio Borges Netto - Marcão - revistacrise@email.com said...

Concordo, Carlos.

Construiu ou reformou sem um projeto arquitetônico, demoli. Não importa que construção seja.

Para que a lei seja efetiva e eficaz, deve-se garantir que ela nunca seja mais descumprida. Vigiar e punir. A lá Foucault também.

Se eu construir fora da norma, as consequências são mínimas e atingem poucas pessoas.

Marco Antonio Borges Netto - Marcão - revistacrise@email.com said...

Desrespeitou o projeto arquitetônico, demoli também.