Sunday, January 6, 2008

Gehry sem inspiração



dando sequência à série “cadê a arquitetura norte-americana?”, resolvi falar primeiro do novo edifício de Frank Gehry na rua 18 com 11ª avenida, bem na margem do rio Hudson.


trata-se de um edifício de 8 andares apenas, o que em Manhattan não é muito (se bem que Renzo Piano construíu uma jóia de 3 andares, assunto de um post no futuro breve). Apesar de não ser muito alto, o edifício se faz perceber de longe pela horizontalidade predominante nos piers e pela brancura que brilha de longe.


e o melhor do prédio parece estar aí, visto de longe suas curvas brancas e brilhantes de destacam do escuro padrão de tijolo dos galpões e apartamentos em volta. E as curvas, marca registrada de Gehry, são lindas de longe, ajudando a fazer do edifício uma novidade, uma relativa surpresa.


mas de perto o prédio não se relaciona bem com a rua, surgindo bruscamente do passeio já com seus vidros branqueados. As curvas que de longe pareciam tão diferente, de perto ficam meio que repetitivas. Na verdade, depois da primeira impressão, o edifício não é muito inspirador. Num exercício de “what if”, fiquei imaginando que se não fosse pelas curvas (e os vidros curvos são mesmo deslumbrantes) o prédio ficaria igualzinho àqueles predinhos de vidro recortado dos anos 70, com a fachada zigue-zaguando monótonamente de um lado pro outro.


o certo é que Gehry me parece mesmo dar ênfase exagerada à manipulação formal, em detrimento de outras questões compositivas como relação com a rua, coroamento, detalhes de caixilharia (tantas vezes se vê a massa plástica resolvendo as quinas). Seu processo de projeto incial, com bloquinhos de madeira ou papelão, fica evidente em um edifício como este de NY. O que faz falta é o Gehry dos anos 70 com suas inversões tectônicas, usando materiais menos nobres e expondo as entranhas do processo construtivo. Parece que Frank Gehry perdeu a garra, ficou tudo muito fácil com o software CATIA customizado para suas cascas curvas (casca mesmo, superfície externa de revestimento) e os orçamentos já de antemão esperando as firulas volumétricas.


um pouquinho mais de desafio não ia fazer mal a Frank Gehry não, quem sabe depois do MIT vem coisa nova por aí?

3 comments:

Alberto said...

Fernando

Para mim foi muito importante assistir ao documentário sobre o Gehry. A linguagem que um arquiteto uso pra falar de seu projeto (as vezes) é a chave para tentar ver o que ele está vendo.

Fiquei imaginando ele comentar alguma intenção vaga de marcar a fachada "como se fosse o vento sobre uma vela" ou algo assim. E no próprio documentário ele já sonhava com uma fachada toda de vidro translúcido.

Acho que esses prédios envelhecerão melhor que muitos modernos. Melhor que os metebolistas, for sure.

Fernando said...

Oi Fernando,

De longe, esse prédio de Gehry parece mesmo ser mais interessante que de perto. A relação com os transeuntes não parece ser das mais agradáveis.

Abraço,

F.Galvão.

Fernando L Lara said...

Gostei da inspiração nas velas as margens do Hudson mas o teste do tempo me parece o mais importante mesmo. Quem sabe voltaremos ao assunto em 2028 ou 2048? Tomara que estejamos todos vivos....