Tuesday, April 22, 2008

a ditadura da visão


o erro de photoshop da AU que virou assunto da blogosfera esta semana (aqui e aqui) me fez refletir sobre o excesso de visualidade da arquitetura em tempos de informação torrencial. Tudo é imagem, tudo é photoshop, como escapar deste dilema? Já que a ferramenta existe e infelizmente a maioria dos nossos colegas arquitetos pelo mundo a fora só passa os olhos nas revistas para captar imagens, raramente para ler o que se diz delas.

pensando nisto lembrei de duas excelentes dissertações de mestrado que tive o prazer de avaliar alguns anos atrás. Por coincidência Katia e Katja partiram quase da mesma pergunta: se a arquitetura atual é por demais imagética, deve haver um meio de, retirando a visualidade do jogo, chegar à essência do espaço. Ambas foram então entrevistar deficientes visuais para saber deles que arquitetura é essa que se faz sem a percepção visual.

Katja Frois tomou um caminho mais fenomenológico e entrevistou deficientes visuais depois de visitarem 3 espaços “sacros”, discutindo então a experiência destas visitas e a idéia do sagrado apreendida sem a imagem (ou mesmo sem a luz).

Katia Lopes de Paula usou uma metodologia mais empírica e gravou a fala dos deficientes visuais descrevendo os espaços por que passavam, trabalhando as diferenças entre o que eles percebiam e o que veem as pessoas com visão completa.
e o interessante é que ambas descobriram uma riqueza da experiência que transcende nossa dependência contemporânea da imagem e da visualidade.

para entender melhor a arquitetura, que tal se fecharmos um pouco os olhos e abrirmos os outros sentidos?


os interessados podem ler as dissertações na respectivas bibliotecas da UFRJ e UFMG:
Katia Cristina Lopes de Paula. A arquitetura além da visão: uma reflexão sobre a experiência no ambiente construído a partir da percepção de pesoas cegas congênitas.. 2003. Dissertação (Mestrado em Arquitetura) - Universidade Federal do Rio de Janeiro, oriantadora: Profa. Dra. Cristiane Rose Duarte.

Katja Plots Frois. O resgate da dimensão ética da arquitetura através da percepção dos cegos. 2002. Dissertação (Mestrado em Arquitetura) - Universidade Federal de Minas Gerais, orientador: Prof. Dr Carlos Antônio Brandão.

4 comments:

Diego Schmidt (lotaH) said...

A cada dia fico mais contente de ler esse blog.
Fechar os olhos é importante para os arquitetos. Vamos espalhar essa idéia.

Marcus said...

José Saramago, em "Ensaio sobre a Cegueira" já nos propunha a cegueira para nos encontrarmos com essência humana e da vida.
Talvez falte para nós arquitetos os sentidos aguçados e a sensibilidade que os deficientes visuais aprimoram.
Deixar de lado essa celebraçao iconográfica e a frivolidade e trabalhar aquilo que é essencial e pertinente.
Ótimo post e parabéns pelo blog. Abraço

Fernando L Lara said...

Marcus e Diego,

bem vindos a comunidade dos comentadores no parede de meia. O retorno de voces é o que me faz continuar escrevendo. Obrigado, Fernando.

Alberto said...

Fernando, agumas observações:

1. A visão não se contrapõe, claro, à percepção tátil. Na verdade, pra quem enxerga, pelo contrario. A visão de um grande pé direito traz contentamento estético também pela memória da experiência sinestésica.

2.Se uma arquitetura é "por demais imagética" - não é por excesso de "imagem", mas por falta do resto - de uma correlação entre imagem e suas outras qualidades ambientais. O Guggenheim NY por exemplo, é por demais imágético? Quando há equilibrio, a imagem é o que justifica.

3.As vezes a visão condiciona completamente a percepção sensorial. Alguém subiria (escalaria talvez seja o termo) a Sagrada Família se não se apaixonasse por ela antes? Não é tão dissecável assim essa relação.

Bom, isso posto, concordo que certos projetos são vergonhosamente ruins em função da forma estranha que apresenta. Daí, concordo,todo porrete será pouco.

PS:Valeu pela visita!