Thursday, April 3, 2008

contra-cultura ou contra a cultura?


acabei de ler o livro-manifesto de Andrew Keeen, “the cult of the amateur, how today’s internet is killing our culture”.


o argumento de Keen é de que a suposta democratização do acesso e da disseminação da informação está causando mais dano que benefício. Como exemplo, Keen lista vários blogs supostamente amadores pagos por empresas ou lobbies, mensagens de ódio em redes de relacionamento, vídeos falsos no Youtube e outras campanhas difamatórias do tipo para mostrar o poder destrutivo desta avalanche de informações sem controle que nos afeta diáriamente e contra a qual não temos ainda abrigos adequados.


até aqui concordo plenamente com o argumento de Andrew Keen, principalmente quando ele expõe o lado negro da Wikipedia, como o caso dos executivos do Wal-Mart constantemente editando favoravelmente o artigo sobre a firma, ou o caso de uma arbitragem da própria Wipkipedia que considerou equivalentes as contribuições de um adolescente e as de um climatologista com 18 anos de carreira no caso de artigos sobre o degelo da Antártica.

mas a idéia de Keen de que a blogosfera atual se equivale a milhões de macacos digitando em milhões de teclados (usando a metáfora de T.H Huxley, avô de Aldous, o autor de Admirável Mundo Novo) e de que esta pletora de informações está sufocando a idéia mesma de cultura me parece exagerada e tendenciosa.


sendo o próprio Keen um crítico de música, seu capítulo sobre o impacto da internet na indústria fonográfica explica muito do seu desespero atual. Keen vai fundo em detalhes mostrando a falência da Tower Records e a perda de faturamento de Hollywood para argumentar os prejuízos causados pela internet, sem ao menos citar o outro lado, ou seja: o forte lobby da indústria de entretenimento que durante décadas manipulou preços e mercados, sufocando concorrentes e criando cartéis e monopólios.

na questão do jornalismo o texto de Keen é um pouco mais equilibrado, ainda que vociferando contra a falta de controle e rigor das informações na blogosfera. No final do livro o autor aponta possíveis “soluções” como as iniciativas do New York Times e do Guardian de disponibilizar conteúdo gratuitamente na internet em troca de publicidade, e o quanto ainda se valoriza a informação produzida por um jornalista e escrutinada por um editor.

em vários momentos Keen cita a importante função que o especialista desempenha na sociedade contemporânea, e a diluição deste conhecimento acumulado é o principal problema apontado pelo autor. Mas Keen se recusa a tratar o outro lado da moeda: o enrigecimento das estruturas que acabam gerando defesas corporativistas, cartéis e lobbies de todo tipo. Um pouquinho de Foucault não faria mal nenhum à análise de Keen que as vezes parece estar interessdo em salvar a cultura, outras vezes parece simplesmente amarrado a um modelo capitalista de marketing cultural que precisa urgentemente de evoluir para preservar o que existe de melhor na capilaridade interativa da internet sem necessariamente deixar de valorizar o talento e o esforço.

vai levar algum tempo e ainda vamos ler, ver e ouvir muita porcaria, mas o trigo há de se separar do joio nesse campo fértil que é a web.


3 comments:

Zololkis said...
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Anonymous said...

nando, deixei um comentario no post do REinaldo/galo/100 anos, que só vi hoje. Vai lá.
bj,
Mauricio Lara

Fernando L Lara said...

Mauricio,
Reinaldo nos trouxe muitas alegrias mas hoje foi meu tio jornalista quem me fez feliz com o comentário no blog.
beijos e até breve,
Fernando.