Monday, October 20, 2008

O’Gorman brothers



quando eu dou aula sobre arquiteturas contemporâneas ao sul de do trópico de câncer ou sobre modernismos periféricos, sempre uso um texto de Edward Said na introdução. Em “Orientalism” seu livro clássico, Said explica que a idéia de “oriente” foi inventada pelos europeus para definirem a sí mesmos como ocidentais ou “não-orientais”. Assim Said problematiza toda a construção da oposição oriente-ocidente a partir da origem fictícia do binômio.

bom, eu poderia escrever páginas aqui sobre Said e o orientalismo mas não é sobre isso o post de hoje. Lendo sobre os congressos panamericanos de arquitetura (um livro editado por Ramon Gutierrez em Buenos Aires) descobri a figura de Edmundo O’Gorman, historiador mexicano que escreveu “
Invención de América” em 1958 e influenciou gerações com a idéia de que a américa não foi nunca descoberta e sim inventada, construída.

corri na biblioteca, achei uma tradução de 1962 e adorei o texto de O’Gorman. Basicamente, o mexicano analisa todos os documentos de Colombo, Cabral, Vespucio e cia para montar seu argumento sobre a construção da américa.

em um mundo que se pensava estático e finito, perfeito e inalterável, o novo continente foi por muito tempo chamado de “orbis alterius” em oposição ao “orbis terrarum” que era formado pelos continentes contíguos que hoje chamamos Europa, Ásia e Africa.

me pareceu genial, a américa é desde sempre a “alteridade” que desloca o pensamento eurocentrico. No último parágrafo do livro O’Gorman resume tudo ao dizer que “o processo de invenção do corpo e da geografia da américa forçou o abandono de conceitos insulares e arcaicos de um mundo centrado apenas na história européia.

eu não sabia e nunca ouvi ninguem falar sobre isso mas O’Gorman escreveu mais ou menos a mesma coisa que Said só que 20 anos antes e merece o crédito por tê-lo feito.

e para nós arquitetos cabe ainda revelar que Edmundo era irmão de Juan O’Gorman, arquiteto da vanguarda mexicana que projetou os ateliers de Diego e Frida e a biblioteca da UNAM, antes de abandonar a arquitetura para se dedicar somente a pintura porque a primeira seria “demasiadamente burguesa”.
salve O'Gormans

8 comments:

Ricardo Rossin said...
This comment has been removed by the author.
Ricardo Rossin said...

Muito interessante essa questão de "américa inventada".

Na verdade o que mais me impressiona é quando imagino como uma pessoa pode chegar a esse ponto e sair pesquisando esse tipo de assunto. Eu fico impressionado.

carlos said...

vou tentar encontrar esse livro Orientalism. Mas legal mesmo é essa ilustra! Onde você conseguiu? ou é de sua autoria?

Fernando L Lara said...

Carlos,

o desenho acima que se nao me engano se chama "nuestro norte es el sur" eh de autoria do artista uruguaio Joaquín Torres García (1874-1949).

Edgar Pereira said...

Seria interessante de nós, sulamericanos, adotássemos essa representação cartográfica. Tudo é uma questão de ponto de vista. Afinal, todo mapa possui um conteúdo político-ideológico, e não é à toa que utilizamos um sistema baseado no ponto de vista do hemisfério norte...

A Austrália tem um mapa mundi em que ela é o "centro do mundo":
http://i212.photobucket.com/albums/cc254/blogdaterra/australia.jpg

Edgar Pereira said...

Obrigado, Fernando,

E ah, aliás, um comentário super atualizado e criativo:

Parabéns pelo livro!

(É verdade, apesar do tom de brincadeira, viu? Vai entrar na minha lista de leituras, assim que eu finalizar História Crítica da Arquitetura Moderna)

Fernando L Lara said...

Egdar,

faz todo o sentido, meu capitulo 4 tem umas 20 paginas argumentando que a visao de Frampton eh muito estreita.... espero que voce goste,
abracos

marcia said...

oi Fernando,

1º sobre ESaid/O'Gorman brothers:

- admiro o Said e mais do que isso, ele, em especial, me faz sentir o que significa 'viver' sua realidade me colocando em 'seu' lugar. no caso dele, o exercício da compaixão ou da ética se vc preferir, me é natural e imediato; vem antes de tudo. (talvez isso seja frequente para mim. com ele é sempre).
dito isso, eu não apenas entendo, mas aceito como 'inevitável' a construção de seu pensamento sublinhando que as noções de "oriente próximo, o. médio e extremo oriente" são referências geográficas criadas por 'ocidentais'/europeus em relação à Europa. Convenientemente criadas.e ele vai em frente a partir daí.

– o O'Gorman também é novidade para mim! eu não o conhecia. e pretendo conhecer melhor.

(note : considero indispensável essa infos nas salas de aula)

meu comentário : espero que vc. compreenda: eu não rebaixo esses pensamentos, mas não os cultivo…
porque eu não ligo para geografias;
eu nasci no mundo… e a minha questão atual é tentar entender melhor o 'amor mundi' da HArendt…
principalmente nesse nosso mundo paradoxal que constrói muros (físicos/reais e imaginários), mesmo tendo derrubado muros (penso em Berlim).

para mim a arquitetura (e tudo) se pensa e toma corpo a partir disso.

2º "arquitetura popular modernista" no litoral sul de SPaulo: vai ser como procurar uma microagulha num palheiro gigantesco… pesquisando um pouqinho via internet, através de fotos atuais, nas imobiliárias locais, conversando, etc., só pra sentir o drama, me deparei com uma "tragédia": talvez não reste muito mais dessa modalidade de "modernidade" não…
e vou precisar de muitas viagens até lá. já me imagino planejando as estratégias de busca,percorrendo rua por rua, sol branco, a pino…ainda bem que o Atlântico está ali mesmo…bem que vc. falou que seu trabalho vem desde 1999…
quer saber, acho que vai ser uma delícia! mas temo pelo resultado


beijo