Tuesday, October 7, 2008

e o mercado não acredita mais no Mercado


por aqui não se fala em outra coisa. Com o índice Dow Jones 30% abaixo do nível de 6 meses atrás, a turbulência do sistema financeiro internacional bate a porta de todo mundo. São investimentos da universidade que estão adiados, a previdência privada de todo mundo que vale um terço a menos, a impossibilidade de se vender ou comprar um imóvel, e pior, nenhuma solução a vista.

mas vamos ver se conseguimos entender o problema. Para evitar uma recessão em 2000/2001 Alan Greenspan injetou trilhões na economia na forma de credito fácil pra todo mundo mas principalmente para grandes bancos de investimento. Esses créditos chegaram a grande maioria dos norte-americanos na forma de empréstimos para compra de carros, imóveis, roupas e etc. No caso dos imóveis, emprestou-se a juros flexíveis para famílias que não teriam renda para comprar uma casa com um financiamento tradicional. O tal sub-prime se refere ao individuo que não inspira segurança ou seja, cuja renda não comporta um empréstimo do tamanho X.

acontece que a maioria destes sub-prime mortgages foram feitos na forma de ARM ou adjustable rate mortgage. Funciona mais ou menos assim, você paga um juro artificialmente baixo nos primeiros 3 anos depois sua taxa flutua de acordo com o mercado. Isso permitiu que milhões de famílias que não poderiam comprar uma casa em San Francisco ou em New York com um financiamento tradicional pudessem fazê-lo, mas permitiu também que outros milhões comprassem uma casa muito maior do que podiam ou pior ainda, re-financiassem suas casas já pagas para “investir” o dinheiro em consumo. Os norte-americanos que já vinham se afundando em dívidas tinham de repente muita facilidade em contrair mais dívida.

nesse meio tempo, a Washington de Bush e Cheney ignorava escandalosamente o chamado “consenso de Washignton” e produzia déficit atrás de déficit desde 2001.

em 2007 a bolha do sub-prime mortgage estourou, o numero de famílias atrasando pagamentos e perdendo suas casas chegava as centenas de milhares por mês. Com isso o mercado imobiliário inteiro perdeu 10 a 15% do valor piorando a situação: quem pagava x com os juros artificialmente baixos tinha agora uma prestação de 2x ou 3x com sua casa valendo menos que a dívida.

calma que fica pior, como esses financiamentos foram agrupados em pacotes e revendidos a centenas de bancos, o sistema financeiro inteiro ganhou muito dinheiro entre 2001 e 2006 e agora é dono desses créditos “tóxicos” como dizem por aqui.

o governo norte-americano tem injetado trilhões (emprestados) desde que a crise se agravou no primeiro semestre de 2008 mas nada tem adiantado porque basicamente o mercado não sabe qual o tamanho do buraco. Nas palavras de um economista que eu escutei na NPR ontem, se ninguém quer comprar algo este algo não tem valor, são os tais créditos podres. Ninguém consegue estimar o quanto vale (ou não vale) estes créditos podres que os bancos, os fundos de investimento e os fundos de pensão (ou seja nós todos) tem nas mãos. Sem saber quanto vale o patrimônio ou qual o tamanho do buraco do outro, os bancos pararam de emprestar uns pros outros. Por conseqüência, pararam de emprestar também para empresas grandes e pequenas, da General Motors ao supermercado da esquina.

basicamente, ninguém confia em ninguém, a mão invisível do mercado travou.

Thomas Friedman e Paul Krugman (um de direita e outro de esquerda) do New York Times já vinham falando a muito tempo que os norte-americanos estavam enriquecendo vendendo casas uns aos outros com o dinheiro emprestado.

uma aposta de mais ou menos 1 trilhão de dólares que agora está sendo cobrada na conta de todo mundo.

15 comments:

Marco Antonio Borges Netto - Marcão - revistacrise@email.com said...

ainda bem que o lula percebeu a tempo que essa crise não é problema só do bush. é problema de todos.

Horizontes Arquitetura said...

Lula não percebeu nada marcão, pra variar ele não sabe de nada. A sorte é que temos alguém para 'perceber' por ele.
como disse nosso presidente alguns dias atrás: "a crise é problema do bush, ele que se vire. Ela (crise) não vai cruzar o 'atlantico' e chegar ao brasil... "

no mundo da fantasia em que ele vive nosso país é imune às crises internacionais, e, além do costumeiro assassinato ao português,agora se meteu a assassinar a geografia.

carlos said...

antes que assumam qq coisa a meu respeito, eu não sou petista, ok? mas presidente da república, de qq república, é igual jogador de futebol: tem de ser politicamente correto e abafar crises e escandalos. E comparado com Berlusconi, Putin, Sarkosy (basta procurar no youtube)e o próprio Bush Jr., o Lula até que não nos deixa passar tanta vergonha.
Isso posto, a Angela Merkel já tinha passado um pito nos americanos por conta do liberalismo total deles em relação ao mercado. Se não me engano, chegou a usar o termo "irresponsáveis". De fato, podiam ter dado uma regulada nisso antes de chegar nesse ponto. Parece que o famoso pacote de 700 bilhões nem dá pro começo - tanto que foi aprovado e o mercado continua em turbulência. Mas eu acredito (ou espero) que entre mortos e feridos, todos se salvarão. Tomara apenas que o pessoal passe a controlar só um pouquinho o mercado.

Mário do Val said...

Sabe o que eu acho engraçado em toda essa história? Foi como um professor falou outro dia: incoerência.

Na hora de ganhar dinheiro ninguém quer a mão do estado atrapalhando a invisível do mercado. Enquanto o capitalismo roda mais ou menos bem, todo mundo consome com crédito e paga os juros no final do mês qualquer banco vai torcer o nariz para ações governamentais. Basta ver que nos EUA a taxa básica de juros é bem baixa: consumam!!! O bom americano médio segue seus instintos e gasta o que tem e o que não tem.

Mas aí o sistema entra em colapso! Por que? Será que consumiram demais? Puxa vida, não é isso que todo capitalista quer? Ah... Mas vejam: eles consomem sem ter dinheiro para. O salário não dá!

Aí, a merda aparece nas nossas vistas, narizes e contas bancárias, e a mão invisível tá caindo no precipício e clama pela mão do estado: SALVE ME! O governo todo bondoso, um príncipe herói, vai lá e dá sua nobre mão de US$ 700 Bi para o invisível. Mas e depois? Será que a mão invisível será salva? Se for, vai deixar a do estado chegar mais perto?

Todo mundo fala em resgatar bancos e comprar títulos podres. Mas não ouvi ninguém dizer sobre salários e, principalmente, educação de consumo.

Marco Antonio Borges Netto - Marcão said...

nesse momento tá tendo debate dos candidatos estadunidenses.

Marco Antonio Borges Netto - Marcão said...

é você, marcelo?

O Lula não viu a crise porque tava comendo "pãozinho com mortadela" tranquilamente.

Ah, e disse, referindo-se aos pessimistas (?), que "Tem gente nesse país que parece que fez pós-graduação para malefícios, ou seja, pessoas que parecem que estudaram apenas para ver as coisas negativas. As coisas positivas não interessam."

Será que ele quis dizer que educação é ruim, tendo em vista que ele não estudou e que só faz coisas boas? Espero que não.

A íntegra da notícia está na Folha de São Paulo de hoje.

Alberto said...

O discurso de lula é delinquente, como sempre. Basta ver que ele fala A, e a equipe econômica dele fala Z.

Mário e Fernando. Reparem o discurso de vocês. Em comum, a constatação de que a raiz do problema são os juros artificialmente baixos, não é?

Agora, quem determina os juros? O mercado?

O excesso de crédito foi gerado pelos gênios do estado americano, tão artificial que não teria como ter outro destino senão um choque de demanda insano.

Fernando L Lara said...

Alberto,

os juros artificialmente baixos de 2001-02 foram uma estrategia do Greenpan para evitar uma recessao naquele momento, empurrou com a barriga e agora vai ter uma recessao 10 vezes maior. Mas taxa basica de juros eh um instrumento de todo e qualquer governo. Junto com o incentivo ao credito veio um relaxamento dos instrumentos de controle e supervisao que foram celebrados pelo mercado como "avancos". Agora o unico consenso que eu tenho escutado eh que a onda da desestatizacao e desregulamentacao da era Reagan finalmente acabou.

o que eh absurdo eh que a desregulamentacao gerou montanhas de dinheiro para poucos e agora gera montanhas de prejuizos pra todo mundo.

mas dada a facilidade com que o capitalismo gera desigualdade, eu acho que uma nova rodada de regulamentacao e controle ja esta chegando atrasada.

mas sobre o governo dos EUA, eh triste ver a covardia do FMI que sendo o principal organismo financeiro internacional devia ter levantado a bandeira la atras quando comecaram a acumular deficits com endividamenmto recorde. Ou a regra do impedimento so vale para os times pequenos?

carlos said...

obrigado, fernando. preguiça de explicar tudo isso. é aquele negócio de sempre: privatizar o lucro e socializar o prejuízo.

Marco Antonio Borges Netto - Marcão - revistacrise@email.com said...

Li uns artigos do Francisco Petros e do Márcio Mendonça. Achei bem elucidativos e didáticos. Claros, portanto. Então, compartilho um pouco da opinião deles.

Eles apontam os motivos de a crise não dissipar tão cedo:

1) As eleições norte-americanas ainda vão demorar cinco semanas para ocorrer. Liderança política neste momento é fundamental. Bush está desmoralizado;

2) A crise ainda se alastra pelo mundo. A fonte de maior preocupação é a Europa, continente no qual a especulação imobiliária foi tão grande quanto na América e onde há sinais de fragilidade no sistema financeiro. As quedas apresentadas nesta segunda-feira nas principais bolsas européias são apenas um prenúncio desta nova realidade. Além disso, a reunião do último fim de semana em Paris, na qual os líderes europeus procuraram traçar estratégias para agir de forma coordenada, mostrou exatamente o contrário : o nível de coordenação é débil e a União Européia vai passar por uma prova de fogo tremenda;

3) As autoridades norte-americanas que propuseram o pacote de socorro aos bancos estão deixando evidente de que não têm dimensão dos ativos "podres" em poder dos bancos. Ainda tem-se de cumprir um longo rito para que o resgate de ativos bancários por parte do Tesouro norte-americano passe a ser algo factual;

4) A queda (monumental) dos ativos, sobretudo das ações, ainda não motiva os investidores a comprar. Sinal de desconfiança. Isso pode demorar tempo. Por exemplo : depois da "bolha da internet", detonada em abril de 2000, os investidores começaram a deixar de perder dinheiro depois de 2 anos e meio. Durante o período a queda foi de quase 70%. Note-se que a crise atual é muito mais generalizada;

5) A contaminação do setor real pela crise de crédito é inédita desde os anos 30 e numa velocidade significativa. A taxa de desemprego e a desaceleração econômica (sobretudo, da atividade industrial) estão em patamares recordes e a taxa de investimento cai rapidamente. Isto tudo no início da recessão;

6) Há uma coordenação de políticas monetárias entre as principais economias. Todavia, é baixíssima a probabilidade de que a coordenação de políticas macroeconômicas seja razoavelmente implementada num momento em que todos os países desejam maximizar o emprego e renda. A disputa entre os países deve se acirrar;

7) Quase todas as principais economias estão com déficits significativos. No exato momento em que se precisa de recursos do erário para alavancar crescimento. Veja-se o caso dos EUA : por ocasião do ataque de 11/9/2001, os EUA tinham um superávit de 2% do PIB. Atualmente, o déficit caminha para algo como 6% do PIB. Não há recursos para mais déficit sem que haja uma desorganização econômica ainda maior;

8) A inflação vai voltar por força das variações das moedas, sobretudo dentre os países emergentes. Como combatê-la num contexto recessivo ? Trata-se de um quebra-cabeça muito difícil de ser montado;

9) Se os bancos estão a sofrer com a falta de confiança e a fragilidade de seus balanços, não devemos esquecer que há uma quantidade enorme de fundos especulativos (refiro-me especificamente aos hedge funds) que sofrerão com a ausência de recursos para financiar as suas estratégias. Tais fundos atuam de forma alavancada, ou seja, adquirem ativos em volumes bem acima de seu patrimônio, utilizando-se de mercados futuros e crédito junto ao sistema bancário. No momento, estes vão reduzir ativos para pagar dívidas, um processo fortíssimo de desalavancagem.

Para esses especialistas, a tarefa do governo brasileiro para combater a crise é difícil, considerando que: (a) orçamento é curto, (b) está comprometido em cerca de 80% com despesas obrigatórias, (c) há despesas pesadas já contratadas, tais como os aumentos para o funcionalismo público, (d) a receita deve cair com a diminuição da atividade econômica.

Henrique Gonçalves said...

Deixar o problema pra depois sempre é pior, não importa em qual escala!
Mas Fernando, quais seriam as implicações dessa recessão para o Brasil em termos práticos? Nós realmente estamos preparados pra enfrentar essa onda de escassez de investimentos americanos como o Mantega disse, ou vai ser um caos total os próximos anos?

Fernando L Lara said...

Boa pergunta Henrique,
o que eu li ate agora me faz pensar que o Brasil vai ter crescimento menor mas nao necessariamente recessao por conta do superavit primario e a balanca de exportacoes diversificada que vai se beneficiar de um dolar mais caro nos proximos meses.
Nao sei se vai afetar por exemplo o crediario das classes C e D que tem comprado muito e quase sempre a prestacao, provavelmente sim o que pode afetar a industria. O credito imobiliario tambem pode frear o crescimento quase explosivo do mercado da construcao dos ultimos anos. O maior problema ocorre se este cenario de incertezas se arrastar ate o inicio de 2010 quando comeca pra valer a campanha para a sucessao do Lula. Mas eu acho que tudo depende agora de um certo fator psicologico. Se depoisd a eleicao do Obama todo mundo voltar a ficar otimista a crise pode ser amenizada, caso contrario, teremos um 2009 muito muito ruim.

Ricardo Rossin said...

Off topic!

Poxa Fernando, vi que será lançado o seu livro. Parabens...

Será que se eu não depositar uma grana para você se não mandaria um exemplar pra mim com dedicatória e tudo...!!!

Abraçoss e Parabenss

Annima said...

Fernando,

Parabéns pelo livro!

Também quero um exemplar.

Abraços,

Annima

Henrique Gonçalves said...

Obrigado pela atenção, Fernando!


Ah, me inclua nessa do livro, por favor!