Sunday, May 4, 2008

faca de dois gumes


na semana passada a agência de classificação de risco Standard & Poor elevou o grau de investmento do Brasil e como conseqüência o Real se valorizou perante todas as moedas (perante o dólar já não é notícia) e bilhões de dólares ou euros devem migrar para o mercado brasileiro nos próximos meses.

mas quem são e o que fazem essas poderosas agências de classificação de risco que agem literalmente como a famosa mão invisível do mercado?

ou mais importante, o quão confiável são tais classificações?

junto com a Moddy e a Fitch, a Standard & Poor compõe as três principais agências especializadas em avaliar o risco de quase tudo. No mercado imobiliário dos EUA elas reinam absolutas e desenvolveram uma tabela com 8 tipologias diferentes: residencial unifamiliar, multifamiliar, comercial, escritórios e shopping centers são 5 dessas categorias, e não se consegue um bom financimento se seu projeto não se encaixar nos parâmetros deles.
ou seja, se você projetar uma casa ou um shopping center que não se encaixe no modelinho, pode se preparar para pagar juros de 10% ao ano ao invés dos costumares 5 ou 6 % da maioria absoluta dos financiamentos.

mas mesmo com todo esse controle elas erraram feio na análise dos chamados financiamentos sub-prime cuja implosão já causou perdas de 250 bilhões de dólares aos bancos e investidores que vão desde gigantes como o tal Bear Sterns à aposentadoria privada de quase todo mundo.

e porque erraram? porque os bancos que faziam os empréstimos no varejo para clientes cuja renda dificilmente seria suficiente para pagar as prestações não ficavam mais de uns poucos dias com a dívida. Juntavam alguns milhares de hipotecas em um pacote e as revendiam para outros bancos, sem antes contratar uma das agências de risco para “avaliar” o pacote. Com todo mundo ganhando gordas comissões a cada transação e ninguém fiscalizando vocês já imaginam o que aconteceu.

milhares de pacotes de hipotecas classificados como AAA (ou praticamente de risco zero) são agora moeda podre. O valor da casa caiu, as taxas de juros subiram, o morador ficou com uma dívida maior que o valor da casa e se mandou, perdendo tudo que investiu inclusive o próprio teto. E quem comprou esses papéis que deveriam ser seguríssimos ficou com uma casa abandonada nas mãos que vale pouco mais da metade do valor da dívida.

agora essas mesmas agências de risco avaliam o potencial de investimento de um país inteiro.

pra mim é uma faca de dois gumes. Da mesma forma que no mercado imobiliário risco baixo significa conformidade com uma certa tabela de tipologias, no mercado financeiro internacional risco baixo significa adesão a um certo número de parâmetros, e pode ter certeza que investimento em educação e pesquisa não conta, mas redução de benefícios previdenciários conta e muito.

a famosa mão invisível do mercado as vezes se suja tanto que fica bem visível, e a imagem não é nem um pouco agradável.

5 comments:

Mário do Val said...

Fernando,

Sempre muito elucidativas essas suas explicações sobre a ponte entre macro e micro-economia, mostrando como que isso nos afeta.

Penso que investimento em pesquisa e educação só faz sentido nesse mundo financeiro, de mãos invisíveis, quando tem uma justificativa econômica. Sabemos que ela existe. E sabemos também que é o melhor investimento a longo prazo a se fazer.

Há de se convencer os "investidores" e "analistas" a darem preferência em colocar seu dinheiro em aplicações que incentivem o desenvolvimento da humanidade ao invés de só lucrar em cima dela - em especial de sua maior e mais desfavorecida porção.

luciano l. basso said...

Fernando, tu que tens (está tendo, ou teve) a vivência desse momento de quebra do mercado imobiliário americano e que sempre nos presenteia no blog com textos tão elucidativos quanto aos reais motivos dessa encrenca.... tu consegues perceber que o Brasil pode estar indo para o mesmo caminho?

Grandes incorporadoras que rapidamente passaram a atuar em diversas regiões do país (sendo que muitas vezes apenas "alugam" a marca) e tem como principal mercadoria empreendimentos vendidos com financiamentos a perder de vista (15, 20 anos...) e taxas de juros de cerca de 9-10% ao ano...

É sabido que os bancos, quando não estão financiando diretamente, estão comprando estas dívidas e que essas incorporadoras há tempos não faturam vendendo imóveis, mas sim vendendo crédito.

Tu acredita que daqui a 3 ou 4 anos, quando a prestação que hoje é de 500 reis passar a ser cerca de 30% mais -além dos reajustes de inflação- a coisa comece a pretear por aqui também?

Abraço
Luciano

Fernando L Lara said...

Luciano,

nao conheco bem os numeros das incorporadoras brasileras porque eles raramente sao publicaveis. Acho menos perigoso no Brasil porque a maioria dos compradores da uma entrada significatva, 30, 40, 50% do valor e isso serve como colchao depois quando o valor do imovel cair.

mas sei que no caso dos imoveis populares, esses que sao anunciados com prestacoes de 300 reais por mes, as construtoras e seus bracos financeiros ganham na inadimplencia. Sabendo que 20 a 30% dos mutuarios vao atrasar as prestacoes, os contratos sao draconianos. Atrasou 3 meses perdeu o imovel, isso as vezes depois de ter pago 5 anos ou mais. O lucro eh certo, vende-se um apartamento 2 vezes em poucos anos!

Mario,

essa eh uma batalha dificil, convencer investidores a serem socialmente responsaveis. Tem melhorado com a visibilidade das acoes sociais mas eh como remar contra a correnteza num rio cheio de cachoeiras.

Ricardo Rossin said...

Nossa, eu sou um pouco ignorante nesses assuntos, meu conhecimento fica em arquitetura (mesmo assim muito pouco ainda), mas adorei ler esse post, que tem a ver com arquitetura óbvio. Realmente é algo que esclarece dúvidas ou explica o que se passa a pessoas como eu.

Sobre o post mesmo só posso dizer que eu entrarei logo logo na estátisticas de pessoas que pagarão seus apartamentos em 50 anos quando voltar ao Brasil...rs...

Ricardo Rossin said...
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