Thursday, June 26, 2008

um parque a 10 metros do chão




semana passada tivemos uma boa discussão aqui nesse blog sobre se New York continuava sendo ou não um modelo de cidade para o século XXI.


eu até que me posicionei de forma um pouco cética afirmando que New York ainda era influente mas que outros modelos já em formação hão de se consolidar no futuro.


mas não é que hoje, olhando as imagens para o parque do high-line, fiquei admirado mesmo com a capacidade de New York City de se reinventar.


a cidade que já é um exemplo de densidade, diversidade e ênfase no transporte público de massa ganha agora um parque linear elevado, implantado em cima de uma linha férrea desativada.


o projeto do high-line foi objeto de um concurso ganho por Diller, Scofidio + Renfro em 2004 e está sendo implementado aos poucos. Quando completo, ligará 20 quarteirões no lado oeste de Manhattan. Mais informações aqui


e se existe uma tendência predominante neste início de século XXI é a implementação de parques e jardins em áreas residuais, gerando um novo layer de espaços peatonais sobrepostos ao tecido da cidade. No caso do high-line em New York isto se dá de maneira literal uma vez que os novos espaços públicos estão a cerca de 10 m do chão.


cá entre nós, enquanto o etanol der sobrevida ao transporte sobre rodas, que tal usarmos as nossas vias férreas abandonadas ou sub-utilizadas para cortar as cidades com novos parques e espaços públicos de lazer?

21 comments:

Paula Vieira said...

Que interessante! Boa solução, no mínimo 10 vezes melhor que aumentar a largura das vias laterais as linhas férreas abandonadas, como se isso fosse resolver o problema do trânsito/caos. Paula Vieira.
ps. mas Fernando, só não entendi o que são espaços peatonais?! ihhh, desculpe minha ignorância :D

Fernando L Lara said...

oi Paula,
ja estava sentindo sua falta aqui no blog. Peatonal é uma forma de se referir ao pedestre, muito usada em Portugal, em espanhol (peatonales) e por dinossauros como eu.
abracos,
Fernando

Mário do Val said...

É fernando, acho que você tem lido muito Luis Fernandes Galiano...

Por aqui há uns 2 anos teve um polêmico concurso promovido pela prefeitura de SP para darem idéias sobre o que fazer com o Elevado Costa e Silva - mais conhecido como Minhocão. Para quem não sabe é uma via de carros elevada que faz uma importante conexão leste-oeste na cidade, construída nos anos 70 numa região central bastante consolidada. O Minhocão causou um grande cizalhamento na cidade, degradando todo o seu entorno imediato. E não é exatamente residual. Hoje São Paulo depende dele em termos viários.

O concurso esteve envolvido numa polêmica em relação a direitos autorais - não me lembro exatamente o que - mas que fez com que o IAB daqui soltasse uma carta orientando os arquitetos a não entregarem o projeto. Muitos seguiram. Não sei se isso fez muita diferença no resultado final, mas o fato é que o concurso foi até o fim, com três premiados e quatro menções.

O primeiro colocado (FRENTES), propõe isso que você comenta Fernando: um "layer peatonal" em cima de uma estrutura a ser adicionada a já existente. A via não deixa de ser avenida, mas é encaixotada e ganha um parque linear por cima.

Houve ainda um outro projeto feito por um pessoal lá do Mackenzie, que não foi entregue, e que propunha a demolição do Minhocão e toda uma reestruturação viária dessa ligação leste-oeste, que somando-se a um tratamento paisagístico, criava áreas alagáveis e bastante verde.

É curioso, porque atualmente o elevado é fechado aos domingos e feriados justamente para servir de passeio para pedestres. A paisagem não é lá muito inspiradora, e o verde existente são matinhos rizomáticos que brotam nas trincas e fendas do concreto velho e mal cuidado. Mas de certa forma a anarquia funciona. As pessoas se apropriam daquele monstrego para darem uma caminhada domingo de manhã.

Ricardo Rossin said...

Eu lembro do concurso do minhocão, o qual entrei e depois abandonei. A maneira de encaixotar a via foi uma maneira singela de cobrir um santo e descobrir o outro, mas tudo bem, criticas a parte, acho que esse projeto do Diller e etc... é um bom exemplo do que poderíamos adotar em muitos outros sítios das grandes cidades. Eu gosto desse tipo de situação não cotiadiana criada. Faz com que tenhamos mais participação no projeto.

Alberto said...

Lamento amigos, vou mais uma vez contra a maré.

Não vi fotos sob a high line, mas imagino ser a versão menos hardcore da Amaral Gurgel, a avenida sob o minhocão. Um desastre.

Um desastre que esse urbanismo "quinto elemento", if you know what I mean, não se propõe a solucionar, mas admitir cmo um dado de projeto.

Isso é preocupante por dois motivos:primeiro, porque a cidade tem muito mais dinamica embaixo do que em cimma da ponte; segundo porque o layer de cima de hoje, será o de baixo de amanhã.

NY é um modelo de sucesso e fracasso, ao longo da história (e de seu território) regulado sempre pela vitalidade do uso do seu solo, e valorizar um espaço futuro em detrimento de um problema presente, me parece uma decisão imediatista.

PS: Dando linha paralela a conversa das cidades do amanhã, 3a temporada: Como pode a Waterfront City ser uma citação direta a NY, e ao mesmo tempo uma proposta contemporânea e efetivamente diferente de urbanismo?

Fernando L Lara said...

concordo com voce Alberto de que o res-do-chao é muito mais importante, mas dado que a ferrovia desativada ja existe, porque nao transforma-la em espaco publico. Se este parque elevado vai ou nao revitalizar o terreo que com certeza sofreu muito com a implantacao desta linha elevada, so o tempo vai dizer.

vou checar a waterfront pra poder comentar.
abs,
Fernando

Mário do Val said...

Eu to com o Fernando. As poucas vezes que falei do Minhocão pra alguém, sempre me referi a ele como um estupro na cidade.

Acontece que hoje não existe nenhuma solução razoável e ao mesmo tempo eficaz para o problema que ele causa no térreo. Digo isso porque acho que demoli-lo não deixa de ser ótima idéia. Mas onde passariam os milhares de autos que por ele transitam todos os dias?

Eu concordo com o Alberto que essa dinâmica abre precedentes para, dia após dia, irmos sobrepondo os layers, numa lógica em que o céu é o limite. Não concordo que a solução para as cidades é ficar suspendendo avenidas sobre pilotis.

Só que dentro de uma cidade equivocada como São Paulo, acho uma boa os moradores usarem aquele trambolho como passeio público. Que opções eles tem na região? O Largo do Arouche? A Pça da República? Eles aproveitam o que a cidade os apresenta, seja lá o que for!

juliana m. said...

Em paris há um jaridm linear suspenso num viaduto, chamado promenade plantée. Funciona como um peneno parque, as pessoas vão para caminhar, correr, levar cachorros e crianças. E funciona bem.

Marco Antonio Borges Netto - Marcão - revistacrise@email.com said...

Olá, pessoal!
Estou, aos poucos, lendo esse blog recém descoberto e aos poucos vou-me inteirando dos debates.

Precisamos de viadutos assim? Já discuti no meu blog essa questão.

Em muitas cidades esses "instrumentos" viários estão sendo extintos e abolidos (http://revistacrise.blogspot.com/2006/10/na-contramo.html).

Aqui em Belo Horizonte, por exemplo, na Linha Verde há uns 10.

Mudando de assunto mas dentro do assunto, gostaria de aprofundar mais sobre a questão de Nova York. Mesmo porque não conheço a cidade pessoalmente.

O que sei sobre o urbanisnmo de lá resume-se a Robert Moses.

Ele encarava a malha urbana de forma arbitrária e desconhecia o que os antecessores fizeram de bom e ruim para a cidade.

Além do mais, limitou-se a obter das autoridades e afins verbas para a consecução dos projetos. Não sabia "ler" uma planta.

Usou e abusou das auto-estradas, que eram sinônimos de prazer: liberdade ao volante. Segundo Moses, as "higways" aliviam as tensões típicas urbanas. Afastava, portanto, o ser humano da cidade.

E que na década de 60, findo o poder de Moses, Nova York foi crescendo e desenvolvendo-se espontaneamente, sem planejamento.

Ah, e que Nova York foi fundada por judeus que moraram no Brasil na época do Nassau e fugiram do país com a expulsão dos holandeses (isso é verdade? Não procurei em fontes fidedignas ;)).

Portanto, tenho lá minhas dúvidas com relação ao modelo de cidade.

Abraços.

Ricardo Rossin said...

Não é o caso citado, mas odeio quando aqueles "grandes" arquitetos fazem suas megas torres de multiplos usos e dizem:

"Existe um praça pública no 135 Andar"...Desculpe mas não da pra aceitar...

Fernando L Lara said...

Marcao,

vale lembrar que o impacto de Robert Moses foi muito maior fora de Manhattan, no Queens, no Bronx, em Long Island. E foi fundada por Holandeses sim mas nao os brasileiros que foram pra la pouco depois em busca de liberdade religiosa (que sempre foi o forte da ilha).

Agora o que eu acho mais importante de se discutir eh essa questao do "sem-planejamento". Acredito que se confunde planejamento urbano com centralizacao administrativa. New York sempre teve planejamento, assim como Belo Horizonte, Sao Paulo, Rio de Janeiro. Tirando as favelas, alguem sempre desenhou e outro alguem aprovou cada um dos loteamentos e obras viarias. Se este processo foi descontinuo e fragmentado, trata-se de um caracteristica deste planejamento e nao ausencia de.

abracos,
Fernando

paula vieira said...

Obrigada, Fernando! Só após uma 2 leitura, entendi a expressão, pois lembra tb pedestre em francês. As discussões aqui estão ótimas! Mantenho-me informada e sempre aprendo! Até mais.

Marco Antonio Borges Netto - Marcão - revistacrise@email.com said...

Obrigado.

De fato, essa questão do "sem-planejamento" é forte.

Como você sabe, em Belo Horizonte tem-se a impressão de quem planeja a cidade é uma Empresa Pública, a BHTRANS. Percebo isso quando ando de ônibus ou táxi e ouço e converso com as pessoas.

E, por falar em apropriação, você conhece o projeto abaixo?
http://blog.uncovering.org/archives/2008/05/criatividade_estreita.html

Ah, Beagá também tem um parque linear. Na Avenida dos Andradas. Mas sinto que cobriram o Arrudas unica e exclusivamente com o intuito de cobri-lo para esconder a degradação e o mal cheiro. Porque não tratar do rio também?

Abraços.

Alberto said...

Marco Antonio, sabia que o Moses deu seus muy bien remunerados pitacos em São Paulo?

A ligação Leste-Oeste de São Paulo não pode ser desmantelada d dia pra noite - pura e simplesmente demolir o minhocão agora seriantecipar o fatídico dia D do transito.

Que até lá se use o minhocão nos fins de semana, como pista caminhada or wahtever suits you, acho bom (e bem melhor que a Paulista, como querem certos urbanistas de ocasião). Mas projetar algo e medio e longo prazo pra ele é absurdo. No futuro, ele tem de ser é demolido, e substituido por alternativas não só de trasnporte coletivo, mas para carrso também.

Só que no chão.

Mário do Val said...

Ou embaixo dele.

Marco Antonio Borges Netto - Marcão - revistacrise@email.com said...

Dá-lhe de Nova York:

"GLOBONEWS
29/06 - Domingo > 21:30

Greenbuilding nos Estados Unidos

No segundo programa da série sobre greenbuilding, vamos mostrar como a construção sustentável avança nos Estados Unidos. Existem hoje mais de 1500 construções comprovadamente sustentáveis naquele país, 26 delas em Nova Iorque. Outras cerca de 12 mil construções esperam para receber o certificado de sustentabilidade."

Marco Antonio Borges Netto - Marcão - revistacrise@email.com said...

Pois é Mário e Alberto, repetindo o quationamento do Fernando em postagens anteriores: Onde estão os arquitetos urbanistas?

Fernando L Lara said...

em resposta ao "desaparecimento" da nossa propria classe, eu acredito que o desafio da sustentabilidade traz uma oportunidade unica para recuperarmos nosso papel social. Ou pegamos o touro a unha agora e assumimos nossa responsabilidade na construcao de uma cidade melhor, ou fechamos o buteco da responsabilidade e nos lancamos de vez no esquema da moda. Que pensam voces?

Marco Antonio Borges Netto - Marcão - revistacrise@email.com said...

Fernando, na sua opinião os currículos são de acordo? As faculdades realmente preparam o aluno para o mercado?
Muitas vezes tenho a impressão de que as faculdades agem como o Windows Vista: ele encontra algo errado e pergunta ao usuário, que não é expert, para executar.
Deixa o aluno correr solto. Quantos TFG saem do papel?
Deu pra entender?
Creio também que não faria mal estudar uma obra do professor.

Fernando L Lara said...

vich Marcao,
esse assunto da pra gente conversar um ano inteiro. Vamos marcar logo esse encontro de blogueiros de BH pra gente poder estender essa conversa.

Marco Antonio Borges Netto - Marcão - revistacrise@email.com said...

Boa ideia do encontro.