Wednesday, June 4, 2008

um ócio nada criativo


um pensamento me ocorre toda vez que ando pelo centro de Belo Horizonte: quando é que o Mercado imobiliário vai perceber que temos espaços fantásticos pouquíssimo utilizados nas áreas centrais de todas as grandes cidades brasileiras?

é como se a cidade fosse feita de camadas horizontais com nenhuma ou pouca relação entre elas.

nas calçadas falta espaço, milhões de pessoas circulando entre ambulantes, bancas, lojas, esperando ônibus e disputando espaço com os carros mesmo nas faixas de pedestre. Dentro das lojas o espaço também é escasso e esta primeira camada fervilha de atividade.

logo acima vem a camada das sobre-lojas, espaços usados para estoque e escritórios apertados. Ainda vivo mas sufocado pela falta de luz e ar.

e depois vem a camada que um dia foi nobre: andares e mais andares de edifícios bem ou mal projetados, a grande maioria dos anos 50 e 60 e precisando de alguns ajustes mas cuja super-estrutura poderia durar mais um século inteiro. E estes espaços agonizam com taxa de ocupação muitas vezes abaixo de 50%.

um verdadeiro tesouro desperdiçado como este aí da foto, o antigo edifício do Banco Mineiro da Produção, desenhado por Niemeyer nos anos 50 que por muito tempo foi Bemge e agora se encontra quase vazio.

agora que estamos aprendendo a conservar e reciclar quase tudo, quando é que vamos parar de desperdiçar arquitetura?

9 comments:

Helê said...

Oi, FErnando. Quer dizer que o 'Duas Fridas' é leitura quase diária sua e vc nem dá um alô, nem deixa uma pegada? Bom, há tímidos até na internet, eu entendo - e caras de pau (?) como eu, que vão deixando recado sem ser convidado. Obrigada pelo link e pela leitura. Apareça, e se possível, manifestes-se ;-)
Frida Helê

joão amaro correia said...

cá em lisboa é capaz de ser bem pior. o centro histórico, iluminista, completamente abandonado. as lojas desactualizadas e vazias, perderam em favor de grandes centros comerciais da periferia. o centro é desabitado. ou habitado por velhos que escassamente o ocupam. ainda assim, os preços do imobiliário são absurdamente caros.

Ricardo Rossin said...

Seria o "terrain vague" que Solà Morales comenta?

Acho que é culpa do modelo de ocupação que temos, talvez não no caso citado, mas nos novos bairros das grandes cidades. Existe uma aversão ao centro de grandes cidades. Só arquiteto gosta do centro, e político, pra fazer propaganda pois, o empresário de dinheiro prefere se esconder em uma das 9 torres do complexo (rídiculo) do shopping cidade jardim em Sao Paulo.

Alberto said...

Opa. A transmissão de pensamento segue em banda larga: esse é o tema da minha próxima coluna!

BH teve planejamento, São Paulo não: a lógica da auto-construção foi aplicada ao urbanismo, com as consequencias similares.

Isso não é o terrain vague não, Rossin, mas a relação possível é que eles formam certas rupturas no tecido da cidade que acabam formando ilhas a serem transpostas.

A demanda de se reciclar arquitetura vai deixar de ser uma OPÇÃO de marketing e se tornar uma NECESSIDADE em breve - em SP já é. Daí quem sabe. Quem sabe...

Fernando L Lara said...

Obrigado Helê pela visita, prometo me mostrar no Duas Fridas também.

João Amaro, seja bem vindo, será um prazer trocar idéias sobre processos semelhantes dos dois lados do Atlântico.

Ricardo e Alberto, e pensar que o governo do estado de Minas Gerais ao invés de aproveitar a capacidade ociosa e consolidar o centro de BH com seus diversos órgãos, está construindo um elefante branco para 20 mil funcionários a 20 km do centro. Tomara que a necessidade de que fala o Alberto chegue logo.

Alberto said...

Bom como dizem os americanos, it's going to get worse before it gets better...

juliana m. said...

O porquê da vontade do governador de isolar o centro administrativo acho bem clara...o pior, que, pra fazer o recorte bem pequenininho na arquitetura, se o projeto de neo jk do moço fosse coerente, ele escolheria alguém novo pra fazer o projeto, alguém com idéias super novas querendo revolucionar o mundo, né? chamar o niemeyer pro projeto era o equivalente a fazer neo clássico na pampulha...mas o mundo de hoje parece não conseguir ler nada lém do preto no branco;)

Fernando L Lara said...

Juliana,

você acaba de cunhar uma frase e tanto: o Aécio é o JK ao contrário!

.cleozinha. said...

Concordo plenamente, esse predio estar subutilizado eh simplemente um desperdicio. Mas olhe, ali do ladinho tem um exemplo de mudanca: o Cine Brasil que estah sendo reformado e abrigarah um espaco muito legal. Quem sabe dah tao certo que motiva uma mudanca na area toda? (reparou que estou num computador sem acentos, neh? sorry!) Beijo!