Sunday, January 4, 2009

quem tem medo da pré-fabricação?



a capa da revista Dwell deste mês traz Bill Massie e sua casa de Crambrook, já resenhada aqui no Parede em outubro passado. A Dwell no entanto reforça todos os problemas que eu percebo quando a elite arquitetônica (ou a arquitetura elitista) tenta se apropriar dos processos de fabricação em massa.

o título do artigo “Massie Produced” , já faz o trocadilho com o nome do arquiteto e a tão temida idéia de mass-production que tanto assusta os arquitetos.

e cabe aqui perguntar porque? porque a idéia de produção de edifícios em escala industrial assusta tanto?

em pleno século XXI, depois de um século de Fordismo, me parece ilógico pensar que a produção em série é um fantasma ameaçador que venha a destruir a arte e a magia da arquitetura. Tudo bem que os Fords e Fiats da nossa era não tem lá nenhuma magia, mas os Audis, BMWs e Lexus são fabricados com a mesma lógica, só que com mais capricho. Exclusividade e artesania mesmo ficam por conta das Ferrari e Lamborghini que ninguém em sã consciência proporia como representantes do futuro da industria automobilística.

acontece que na arquitetura se passa justamente o contrário. Me lembro de uma conversa com Charlie Lazor, criador da Flatpack house, em que um colega insistia em colocar um limite onde a produção das casas deixaria de ser arquitetura. “Com 10 casas por ano você ainda pode dizer que faz arquitetura, mas quando chegar a 100, 200 casas seu trabalho passa a ser industralização”, dizia o tal colega. E Lazor, muito apropriadamente respondia: mas se as casas são todas desenhadas pelos mesmos arquitetos e construídas com o mesmo sistema construtivo desenvolvido por nós, porque elas seriam arquitetura se fizermos 10 e deixariam de ser arquitetura se fizermos 200?

não preciso dizer que eu concordo em número e grau com Charlie Lazor. Esta obsessão com a exclusividade e com a originalidade nos impede de alçar vôos mais altos e cumprir um papel muito mais relevante na sociedade.

o artigo da Dwell sobre a casa de Massie por exemplo explica todo o projeto de fabricação (que de produção em massa não tem quase nada) para argumentar que se trata de uma edificação única, uma peça de design by Massie com o precinho de 750.000 dólares.

não sei que tipo de produção em massa é essa? Para mim me parece muito mais uma peça de alta costura cujo valor, inquestionável, está na investigação e experimentação ali investidos.

o que me incomoda mesmo é o fato de que enquanto Lazor é descartado como não-arquitetura, o modelo de alta-costura de Massie e cia se faz cada vez mais dominante. E segundo este modelo os arquitetos vão seguindo a sina dos alfaiates: enquanto uma meia dúzia se torna gênio da alta costura, milhares se tornam operadores de máquinas em Bangladesh, Hanoi ou Shanghai.

4 comments:

Edgar Pereira said...

Olá, Fernando,

acredito que a arquitetura do século XXI deve considerar fortemente a pré-fabricação de elementos construtivos e a industrialização, como maneira de reduzir custos (pela escala produtiva) e de reduzir impactos ambientais (pela possibilidade de maior controle no processo de produção e de utilização de matéria prima renovável). não vejo como a pré-fabricação de construções possa ser considerada como não-arquitetura, afinal a criatividade do arquiteto reside em resolver determinada demanda espacial utilizando determinado elemento, não importando a técnica empregada - evidente que cada solução técnica resulta em um resultado diferente, mas a técnica empregada não resume o que é arquitetura e o que não é. e porque não se inspirar na eficiência produtiva presente na indústria automobilística e empregar algo similar na construção civil? talvez não na produção de edifícios em massa, mas de "partes de edifícios", elementos estruturais e de vedação modulares, que permitam arranjos variados.
aliás, tenho a intenção de desenvolver uma dissertação de mestrado justamente sobre o tema da pré-fabricação de construções, com ênfase na utilização da madeira.

Marco Antonio Borges Netto - Marcão said...

Fernando,

Concordo com você e complemento:

Penso que o Lelé é um ícone mundial dessa "industrialização da arquitetura".

Nas palavras de Yopanan, "os componentes construtivos pré-fabricados concebidos por Lelé (...) tornam-se assim executáveis por qualquer pessoa, em qualquer lugar, que queira fazer uso de seus sistemas construtivos para resolver as necessidades arquitetônicas específicas da obra em questão. (...) responsável por obras de grande porte e complexidade, e com cronograma restrito, (Lelé) elabora uma arquitetura que tem por necessidade ser comunicável e compreensível aos seus auxiliares e aos futuros usuários, com um grau de universalidade que talvez só a arte seja capaz de atingir."

Lelé, portanto, busca atingir o desempenho resistente desejado com economia de produção, resolvendo efetiva e integralmente a construção. A produção industrial de edifícios leva-se em conta principalmente a rapidez e a economia observando o programa e o local da implantação.

Na Revista AU de outubro de 2008 tem, dentre outras coisas, uma reportagem sobre o Lelé e uma matéria sobre pré-fabricados de concreto.

PS.: O Arrudas transbordou no dia 31/12/2008 e inundou uns 4km. A avenida Tereza Cristina foi totalmente ocupada pelas águas. Comentei sobre isso na Crise [!].

Fernando L Lara said...

Egdar e Marcao,

eh isso, concordo plenamente com voces e me assusta o fato de que muitos arquitetos ainda veem na pre-fabricacao uma ameaca a criatividade. Viva Lele que prova o contrario.

e sobre a chuva do dia 31/12 em BH, enfrentei ela no caminho do aeroporto, foi muita agua mas eh incrivel como isso se repete varias vezes por ano ninguem questiona pra valer o problema da permeabilidade

Rejane Beçak Leao said...

Com o avanço da reprodução técnica deste começo de millenium a “produção de reproduções” em massa de casas pré fabricadas com cuidado de desenho, terá que tomar a mesma direção que a de certos objetos de design como cadeiras , garfos e facas ou filmes.
A autenticidade do desenho ( ou design, para os mais sofisticados, pois faz diferença), segundo Walter Benjamin, continua único. “O aqui e agora do original constitui o conteúdo da sua autenticidade, e nela se enraíza uma tradição que identifica esse objeto, até os nossos dias, como sendo aquele objeto, sempre igual e idêntico a si mesmo.”
O próximo teste agora para o Massie vai ser a reprodução sem perder a qualidade de desenho, como a que acontece com a fabricação de carros.
Rejane