Monday, December 10, 2007

lições de capitalismo a la yankees


muito já foi escrito sobre o fato de que a economia norte-americana foi feita de inúmeros calotes e falências, e que o respeito aos contratos só vale quando interessa aos grandes.


pois o modelo econômico de Alan Greenspan (diretor do Fed entre 1987 e 2006, nomeado por Reagan mas mantido por Clinton) e sua ênfase no endividamento fácil que por sinal sustenta o consumo parece ter criado mais um desses momentos com a chamada crise dos financiamentos imobiliários sub-prime.

resumindo a ópera em dois parágrafos temos mais ou menos o seguinte: entre 99 e 2000 quando a bolha dot.com começou a estourar, Greenspan já de olho na eleição de Bush facilitou a injeção de bilhões no mercado imobiliário como forma de evitar uma recessão mais dolorosa. A migração de recursos para a carteira de imóveis provocou um aumento de preços sem precedente. Entre 2000 e 2004 qualquer casinha nos EUA estava valorizando ao ritmo de 10% ao ano no mínimo, em algumas cidades como São Francisco, Chicago, New York e partes da Florida muito mais que isso. Com as casas valorizando nesse ritmo e a oferta de crédito facilitada um número gigantesco de norte-americanos refinanciou seus imóveis, vendendo para os bancos a valorização (equity) de suas casas em troca de cash para continuar consumindo. O aumento de preços (não acompanhado pelo aumento de salários, muito pelo contrário) começou a apertar a classe média que precisava de casa para morar mas não podia pagar meio milhão por um apartamentinho a 50km de distância de Manhattan ou qualquer outra cidade hipervalirizada. É ai que entra o tal subprime. Trata-se de um financiamento de alto risco onde o mutuário pagaria uma taxa baixa nos três primeiros anos (explicitamente chamada de teaser ou isca) e depois teria os juros aumentados acima da flutuação normal da taxa básica para compensar. Em vários ARM (adjustable rate mortgages) o mutuário não paga nada do principal nos primeiros anos, só os juros, como forma de baratear a prestação mensal.

o pesadelo começa quando as casas deixam de se valorizar ou mesmo desvalorizam como vem acontecendo nos últimos 24 meses. O mutuário que não está pagando o principal deve exatamente o mesmo valor que devia 2 anos atrás, sua casa vale menos (queimando a entrada paga ou indo diretamente para o vermelho) e a taxa de juro está programada para subir acima do normal dentro de alguns meses.
o resultado: 18% desses mutuários tipo ARM já atrasou pelo menos uma prestação em 2007. Caso não consigam pagar a casa volta para o banco e vai ao leilão. O fato de algumas casas na vizinhança estarem indo a leilão derruba ainda mais o preço de todas as outras e temos um efeito dominó que, especula-se, pode colocar o mundo numa recessão de 2008.

isso porque o consumo desenfreado norte-americano sustenta a expansão da manufatura chinesa tanto quanto o agro-business brasileiro e o mercado de commodities em geral.

a saída proposta semana passada pelo governo Bush foi uma espécie de acordo de cavalheiros com os bancos de forma a frear o aumento das taxas dos financiamentos ARM e assim dar uma sobrevida ao sistema todo.

eu não tenho nehuma ilusão quanto à famosa mão invisível do mercado e acredito que ela só entra em ação para proteger os interesses dos grandes contra milhões de pequenos. Mas ao mexer nos contratos desta maneira o goveno Bush está recompensando mutuários que compraram casas maiores ou mais caras do que podiam pagar e banqueiros que emprestaram de forma predatória para quem não teria mesmo como pagar. Os milhões de outros que tomaram a decisão certa de comprar o que lhes cabia estão pagando pela imprudência de uns e pela ganância de outros.

continuar insistindo no endividamento como forma de manter a economia girando não me parece tambem nem um pouco sustentável mas vale lembrar que a economia norte-americana foi formada por calotes históricos e quebradeiras homéricas,

as nuvens vão se acumulando no horizonte, resta saber se a tempestade cai aqui ou depois da serra.

4 comments:

Alberto said...

Fernando, sua sintese é didática e oportuna. Mas a econômica, não a ideológica.

Greenspan armando a eleição de Bush. Até no Brasil a gente sabe que não é bem por aí. Alem do mais, essa bolha é uma "herança maldita" da familia Adams -e de ve cair no colo da Morticia de volta o ano que vem, infelizmente.

A mão invisível do mercado evita justamente essa ajuda aos "mais iguais que os outros", e, mal parafraseando alguém, pobre sempre reclama ou que não tem nada ou que perdeu tudo. Quem perde tudo mesmo quando a mão puxa um freio são os ricos, so cut the bs.

Abraço

Fernando L Lara said...

meu caro Alberto,
veja os numeros: entre nov de 2000 (no meio do imbrolio da eleicao) e set de 2001 a taxa media de juros para financiamento imobiliario caiu de 9.50 para 5.53% e continuou caindo menos dramaticamnete depois de 9/11 ate chegar a 4.0% em jul de 03. Coincidentemente a taxa volta a subir no final de 2004, coincidindo com outra eleicao. Esta taxa foi a principal responsavel por evitar uma recessao em 2001 no primeiro ano do governo Bush e tambem pela bolha do mercado imobiliario norte-americano.
Se voce acredita que isso eh pura coincidencia e a que a mao invisivel do mercado existe, tudo bem, eu acredito em papai noel e ele vai trazer um presente pra mim daqui a 2 semanas. Agora ideologia eh igual sotaque, todo mundo tem mas acha que so o outro eh que tem.

Max said...

e a inflação aí bateu recordes agora, também, né?

sei não, sei não...

Edson Mahfuz said...

oi fernando,

finalmente consegui entender esse assunto. explicação clara e didática. excelente.

vou virar um visitante assiduo.

um grande abraço.