Monday, January 18, 2010

architecture is more visible when it fails



em tempos de extensa virtualidade a arquitetura é mais presente quando não funciona, quando as luzes se apagam, ou descem as encostas, ou a terra treme.


na verdade a fragilidade da vida nem precisa do colapso da arquitetura para se revelar, basta um único tijolo caindo do andar de cima. De repente a arquitetura se faz fragilíssima diante da natureza, levando consigo várias vidas e deixando pra trás a insuportável consciência de seu peso, sua matéria, sua gravidade.


um dos artigos meus de que mais me orgulho trata disso e pode ser lido aqui ou aqui: a arquitetura é mais visível quando falha.


mas para não ficar só lamentando a fragilidade e a irrelevância da arquitetura deixo aqui dois argumentos em contrário.


Martha Skinner e Doug Hecker deixaram de ficar apenas desenhando containers servindo de habitação popular e puseram a mão na massa (ou na lata), cortando, pintando e remendando um container pra provar que a idéia é viável. E sabe onde está um dos maiores depósitos de containers aposentados nas Américas? No Haiti que importa mais do que exporta e por isso tem um superávit de containers.


do outro lado do mundo John Scott-Railton (quem eu tive a honra de ter como orientando) levou alguns GPSs para o Cambodja e junto com uma ONG local mapeou uma comunidade que o governo queria expulsar. De posse do mapa (desenho é poder sim, não nos esqueçamos) o grupo tem conseguido uma posição muito melhor na negociação.


a arquitetura é sim quase sempre invisível até o ponto de rompimento, quando se torna pesada e dura,


mas não irrelevante.



in times of intense virtuality architecture is more present when it doesn’t work, when the lights are off, when the mudslides come down or when the earth shakes.


in fact, life’s fragility doesn’t even requires architecture’s collapse to reveal itself, all it needs is a loose brick from the floor above. Suddenly architecture becomes extremely fragile in face of natural forces, carrying with it’s failure several lives and leaving behind the unbearable awareness of its weight, its materiality, its gravity.


one of my favorite pieces talks about the fact that architecture is more visible when it fails (it can be read here or here)


but instead of lamenting the frailty and the irrelevance of architecture I leave here two arguments for the contrary.


Martha Skinner and Doug Hecker decided that architects should stop drawing emergency houses made out of shipping containers and went one step ahead: cutting, painting and patching an old container to prove it can be used as affordable, durable and ready-made houses. And guess where are the largest number of retired containers in the Americas: in Haity, a country that imports more than exports and therefore has a surplus of shipping containers.


and in the other side of the world John Scott-Railton (whom I once had the honor of advising) took a few GPS units to Cambodia and helped a local NGO produce a map of a shanty town that was under the threat of being evicted. The threat is still there but armed with only a map (yes, drawing is power, we should never forget that) is now in a much better position to negotiate.


architecture is very much invisible until it fails and becomes hard and heavy,


but it is not irrelevant



Monday, January 11, 2010

santiago perez

eu queria estar em Salvador esta semana para participar do juri do concurso do Teatro Castro Alves mas como não pude me livrar de compromissos acadêmicos aqui no Texas cá estou eu pensando em formas de juntar fabricação digital, sustentabilidade e sensibilidade social no mesmo projeto.


nesse sentido vale a pena conhecer o trabalho de Santiago Perez aqui em Houston que busca exatamente isso: usar as tecnologias digitais de forma a resolver de forma sustentável o problema da habitação. Veja tambem a parceria de Santiago com Bill Massie que já foi assunto aqui no parede.



I would rather be in Salvador this week working as a juror for the Castro Alves Theater competition but since academic obligations kept me in Texas I am here ruminating about digital fabrication, sustainability and social awareness.


in that sense it is worth checking the work of Santiago Perez here in Houston, attempting to do exactly that: to use digital fabrications to solve the issue of housing in a sustainable manner. It is also worth checking his partnership with Bill Massie that was already profiled here before

Tuesday, January 5, 2010

para Yumi e Isabella



chocados estamos todos com a tragédia da ilha grande que levou vocês embora. E mais ainda por estarmos tão próximos: adoramos o paraíso da ilha grande, convivemos em grupos parecidos, escolhemos a mesma profissão. Por isso a morte de vocês e dos outros na pousada nos toca mais fundo. É terrível enfrentar a idéia da nossa própria morte porque sabemos que podíamos estar alí ou num voo qualquer da TAM, da GOL ou da Air France. Assusta pensar que vida é tão frágil.


no meu caso, apenas dois graus de distância nos separavam, o que significa que eu conheço várias pessoas que conheceram vocês. Andamos pelos mesmos corredores da EA-UFMG e conversamos com as mesmas pessoas, separados por alguns anos apenas (eu fui aluno entre 1988-1993, professor em 1995 e de novo entre 2002-2004). Dividimos também esse encantamento com a arquitetura. Essa mesma arquitetura que devia nos proteger da chuva, do calor e do frio mas que foi insuficiente diante do volume de água e terra que desceu em cima da pousada na noite do reveillon.


e talvez seja isso que mais nos assuste diante da morte de vocês: perceber que apesar de toda essa tecnologia que nos cerca ainda somos insuficientes e quase insignificantes diante de uma natureza implacável como mostra a foto acima.


mas nesse momento de dor para os que ficaram eu ressalto o “quase” da frase anterior. Não somos totalmente insignificantes, apenas bastante. Tenho certeza que outras tantas mortes podem ser evitadas como no morro da carioca no continente, ou no vale do Itajaí, ou em Cunha, Petrópolis, Salvador, Rio, SP, BH. Tragédias anunciadas que matam todo ano, na América Latina mais de 1000 pessoas desabrigando mais de 100.000. Numa triste comparação temos destruição equivalente a um Katrina. Todo ano.


por isso conclamo a todos os alunos de arquitetura do Brasil a homenagearem vocês duas buscando uma relação mais inteligente entre o espaço que construímos e a chuva que cai todo ano, nos mesmos lugares, da mesma forma. Não somos assim tão insignificantes. Para cada metro quadrado revertido de cimento para um jardim rebaixado retiramos cerca de 1500 litros de água da inundação das áreas baixas que vemos toda semana na mídia.


não sei o que poderia ter sido feito para evitar o deslizamento na ilha grande dada a fragilidade do terreno e a atração paradisíaca do lugar. Mas na periferia das grandes cidades onde milhões vivem ao mesmo tempo tão perto e tão longe do paraíso, podemos sim evitar a dor de outras familias armados apenas com a insignificância da arquitetura.

Monday, December 21, 2009

retrospectiva 2009

este ano eu mudei de emprego e de casas (notar o plural) e o parede mudou também: ficou bilingue e sai quase sempre as segundas-feiras.


enquanto saio de circulação para recarregar as baterias deixo aqui minha seleção de 2009 e uma imagem que para mim resume o que foi esse ano de crise: o Brasil como jogador de pes, e a mesa em Copenhagen juntando Lula, Obama, Wen Jiabao, e Manmohan Singh diz tudo. Se existe um grupo que vai se tornar cada vez mais hegemônico caso continuem trabalhando juntos é esse aí.


2009 pra mim foi o ano em que o Brasil entrou no jogo pra valer.


p.s. em 23 de dezembro, minha análise corroborada aqui e aqui



while this blogger will take 2-weeks of much needed vacation I leave a selection of posts here that summarize 2009, the year in which we changed jobs, cities and the format of this blog.


but in this year of crisis in which so many things were unresolved I want to call attention to this image because 2009 was the year in which Brazil became a de facto global player.


outros fatos marcantes discutidos aqui no parede

other significant facts discussed here


sustentabilidade /sustainability


olimpíadas de 2016 no Rio


desigualdade de genero / gender inequality

Oscar Niemeyer destruindo suas obras / destroying his own works


goodbye ann arbor


muros nas favelas do Rio / walls around Rio's favelas

Monday, December 14, 2009

Serra, as enchentes e a responsabilidade de cada um / urban flooding and everybody's resposibility

nunca achei que ia escrever isso mas Jose Serra tem razão, ainda que parcialmente, quando diz que a população tem uma parcela de culpa pelas enchentes. Só que o problema maior não é o lixo nos córregos, ou se fosse o Tietê não teria trasbordado (ou alguém acredita que é possível atravessar 8 pistas de carros a 90km/h para jogar fora um saco de lixo?)


a culpa de cada um de nós está no quintal. No meu, no seu, no de todo mundo. Na medida em que impermeabilizamos toda (ou quase toda) a area das nossas propriedades urbanas, estamos lançando uma quantidade enorme de água no sistema público que invariavelmente descarrega no Tietê.


vejamos os números: uma chuva como a do dia 4 de dezembro jogou 77mm de água sobre toda a cidade. Isso significa 23 mil litros por lote de 300m2 ou 770 mil litros por quarteirão de 1 hectare (10.000m2). Para segurar essa água toda cada quarteirão da cidade precisaria de um piscinão de 770m3 ou um lote inteiro de 12 x 30 m por 2 m de profundidade. Mais pode ser lido aqui.


em resumo, Serra tem razão ao apontar a responsabilidade individual mas erra grosseiramente ao apontar para o lixo nos córregos, culpando apenas as populações mais pobres que vivem nas beiras dos cursos d’água, quando a culpa é de todos, principalmente dos que pavimentaram a totalidade de seus quintais.



I never thought I would write this but Jose Serra, governor of São Paulo has some reason when he says that the population is partially to blame by urban flooding. But he is absolutely wrong on blaming only garbage dumped into streams when the problem is low permeability because we pave everything, sending enormous amounts of water into the public system.


let’s see the numbers: when 77 mm of rain falls on the city (as happened on December 4th) we get 23.000 liters for an average lot of 300m2 or 770.000 liters for a regular block of 1 hectare. To hold all that water each block of the city would need a reservoir of 770m3 or an entire lot of 30 x 12 m x 2m deep. More here.


in summary, Serra is correct to point towards individual responsibility but comes, again, quite elitist when he blames only the poor who live by the waterways when the responsibility falls on everybody, mainly those who paved the totality of property.

Monday, December 7, 2009

Curitiba fica longe de Coritiba?



a selvageria ontem em Curitiba fica ainda mais horrorosa quando se pensa na cidade “verde”, civilizada e planejada de Lerner, tão celebrada no Paraná e no exterior. Como na música de Caetano, alguma coisa está fora da ordem. Hoje apareceram nos jornais e nos blogs vários relatos de que a relação entre a elite paranaense e a população não vai muito bem (aqui). Curitiba revelou ontem uma fúria inesperada, as imagens tem algo de primitivo combinado com um discurso fascista.


enquanto isso o Rio de Janeiro explodia numa alegria tripla (quádrupla se contarmos a volta do Vasco). Parabéns ao Rio de todas as cores, torço para que os cariocas aproveitem esse momento único de alegria para retomar pouco a pouco sua cidade.


e torço também para que os críticos da autocracia e do autoritarismo curitibano sejam ouvidos. Os hooligans do Coritiba podem ter prestado, de forma criminosa, um favor a cidade.

Tuesday, December 1, 2009

Gyong-Gi provincial government bldg competition

voltei da Coréia do Sul com o concurso na cabeça, claro, e escrevi três posts diferentes que foram rejeitados por diversas razões. Acabei resolvendo que seria melhor me expressar pelo desenho, assim evito indiscrições ou deslumbramentos de qualquer natureza.


as imagens abaixo (contexto + três finalistas: Rogers, Lee, Park) dão um resumo da minha leitura e indicam a direção de algumas das principais conversas entre os membros do júri. O resultado final pode ser lido aqui e não cabe a mim neste momento esmiuçar nenhum dos argumentos mas sim registrar a intensidade e a pluralidade das propostas e dos debates.


o resto fica por conta da imaginação de vocês até que possamos conversar a respeito numa mesa de bar.



o contexto / the site




Seung Hong Park




Richard Rogers




Sang Leem Lee


I came back from Korea thinking about the competition and wrote three different posts, all rejected. Instead I decided to use my analytical drawings to avoid indiscretions or infatuations of any nature.


the images above (site + three finalists: Rogers, Lee, Park ) summarize my analysis and indicate the route of some juri conversations. The final results can be read here and I think I should not elaborate any of the arguments but indeed register the intensity and the plurality of the proposals and the subsequent debates.


everything else belongs to your imagination until we can discuss it personally over good food and drinks.