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Monday, June 1, 2009

global apartments book

esta semana marca o lançamento de mais um livro, desta vez uma produção do grupo de pesquisa que liderei em Michigan. O Global Apartments Research Group surgiu da convergência de vários interesses. Eu queria aprender sobre apartamentos em diferentes partes do planeta e os alunos que vinham de diferentes países estavam empolgados por finalmente encontrarem um professor interessado no ambiente construído contemporâneo de seus países de origem. Durante quatro anos nos reunimos duas vezes ao mês durante o calendário acadêmico para discutir edifícios multi-familiares em 13 países diferentes (Brasil, Costa-Rica, Índia, México, Egito, Finlândia, Itália, Coréia do Sul, Rússia, Alemanha, Estados Unidos, Turquia e Japão.


juntos aprendemos que os apartamentos são na realidade muito semelhantes, apesar de serem construídos em diferentes partes do mundo e de abrigarem famílias tão diversas quanto as brasileiras, egípcias e coreanas. Em 2006, uma bolsa do Office for the Vice President for Research (OVPR) da Universidade de Michigan possibilitou que eu organizasse esses dados de uma forma mais produtiva e promovesse o trabalho de alunos na análise de dados, alguns dos quais transformaram-se em capítulos para este livro.



o objetivo principal foi investigar o grau de semelhança entre esses edifícios, ou se as semelhanças são mais visuais do que sensoriais. A idéia inicial é que embora as fachadas desses edifícios aparentem ser relacionadas, as práticas habitacionais mais tradicionais ainda prevalecem na maneira como as pessoas se apropriam desses espaços. O livro pretende então investigar os meios e as maneiras como esses espaços modernistas (tão semelhantes) são usados em diferentes culturas (tão diversas).



com o transcorrer do século XX, a habitação nas áreas urbanas se homogeneizou dramaticamente ao redor do mundo. Os edifícios residenciais de São Paulo são hoje muito semelhantes aos de Seul, Moscou e Chicago. O livro lançado esta semana reúne trabalhos de vários alunos e colegas que são referência para o grupo de pesquisa que eu dirigi em Michigan entre 2004 e 2009.



o livro está disponível aqui na versão impressa (U$ 15.97) ou download (U$ 1.99)





this week marks the arrival of another publication, this one organized by the research group I led in Michigan. The Global Apartments Research Group was born from this convergence of interests. I was very curious to learn about apartments in different parts of the planet and many international students were excited that, at last, a professor was interested in the contemporary built environment of their native lands. For 4 years (2005-2009) we met regularly (twice a month for most of the academic year) and discussed multi-family housing solutions in 13 different countries (Brazil, Costa-Rica, India, Mexico, Egypt, Finland, Italy, South Korea, Russia, Germany, US, Turkey, Japan).


together we learned that the apartments are indeed very similar, despite being built in opposing parts of the world and housing families as diverse as Brazilians, Egyptians or Koreans. In 2006 a grant from Michigan’s Office for the Vice President for Research (OVPR) allowed me to organize the data collection in a more productive way and support student summer work on analyzing parts of the data, some of which became chapters in this book.


the main goal was to investigate the extent to which those buildings are or are not alike, or whether the similarities are more visual than experiential. The idea is that, although apparently related on the façade, more traditional ways of inhabiting still prevail in the way people appropriate these spaces. The book then investigates the means and the forms by which those modernist spaces (so comparable) are appropriated by local cultures (so diverse).


as the 20th Century progressed, urban housing became quite homogenized throughout the world. Apartment buildings in Sao Paulo are very similar to those in Seoul, Moscow, and even Chicago. It is clear that the modernist architectural vocabulary made famous by the so-called “International style” has gone much beyond corporation identity buildings and prevails in the housing sector in most of the urbanized world.


the book is available here in print form (15.97) and download (1.99)

Tuesday, October 7, 2008

e o mercado não acredita mais no Mercado


por aqui não se fala em outra coisa. Com o índice Dow Jones 30% abaixo do nível de 6 meses atrás, a turbulência do sistema financeiro internacional bate a porta de todo mundo. São investimentos da universidade que estão adiados, a previdência privada de todo mundo que vale um terço a menos, a impossibilidade de se vender ou comprar um imóvel, e pior, nenhuma solução a vista.

mas vamos ver se conseguimos entender o problema. Para evitar uma recessão em 2000/2001 Alan Greenspan injetou trilhões na economia na forma de credito fácil pra todo mundo mas principalmente para grandes bancos de investimento. Esses créditos chegaram a grande maioria dos norte-americanos na forma de empréstimos para compra de carros, imóveis, roupas e etc. No caso dos imóveis, emprestou-se a juros flexíveis para famílias que não teriam renda para comprar uma casa com um financiamento tradicional. O tal sub-prime se refere ao individuo que não inspira segurança ou seja, cuja renda não comporta um empréstimo do tamanho X.

acontece que a maioria destes sub-prime mortgages foram feitos na forma de ARM ou adjustable rate mortgage. Funciona mais ou menos assim, você paga um juro artificialmente baixo nos primeiros 3 anos depois sua taxa flutua de acordo com o mercado. Isso permitiu que milhões de famílias que não poderiam comprar uma casa em San Francisco ou em New York com um financiamento tradicional pudessem fazê-lo, mas permitiu também que outros milhões comprassem uma casa muito maior do que podiam ou pior ainda, re-financiassem suas casas já pagas para “investir” o dinheiro em consumo. Os norte-americanos que já vinham se afundando em dívidas tinham de repente muita facilidade em contrair mais dívida.

nesse meio tempo, a Washington de Bush e Cheney ignorava escandalosamente o chamado “consenso de Washignton” e produzia déficit atrás de déficit desde 2001.

em 2007 a bolha do sub-prime mortgage estourou, o numero de famílias atrasando pagamentos e perdendo suas casas chegava as centenas de milhares por mês. Com isso o mercado imobiliário inteiro perdeu 10 a 15% do valor piorando a situação: quem pagava x com os juros artificialmente baixos tinha agora uma prestação de 2x ou 3x com sua casa valendo menos que a dívida.

calma que fica pior, como esses financiamentos foram agrupados em pacotes e revendidos a centenas de bancos, o sistema financeiro inteiro ganhou muito dinheiro entre 2001 e 2006 e agora é dono desses créditos “tóxicos” como dizem por aqui.

o governo norte-americano tem injetado trilhões (emprestados) desde que a crise se agravou no primeiro semestre de 2008 mas nada tem adiantado porque basicamente o mercado não sabe qual o tamanho do buraco. Nas palavras de um economista que eu escutei na NPR ontem, se ninguém quer comprar algo este algo não tem valor, são os tais créditos podres. Ninguém consegue estimar o quanto vale (ou não vale) estes créditos podres que os bancos, os fundos de investimento e os fundos de pensão (ou seja nós todos) tem nas mãos. Sem saber quanto vale o patrimônio ou qual o tamanho do buraco do outro, os bancos pararam de emprestar uns pros outros. Por conseqüência, pararam de emprestar também para empresas grandes e pequenas, da General Motors ao supermercado da esquina.

basicamente, ninguém confia em ninguém, a mão invisível do mercado travou.

Thomas Friedman e Paul Krugman (um de direita e outro de esquerda) do New York Times já vinham falando a muito tempo que os norte-americanos estavam enriquecendo vendendo casas uns aos outros com o dinheiro emprestado.

uma aposta de mais ou menos 1 trilhão de dólares que agora está sendo cobrada na conta de todo mundo.

Sunday, May 4, 2008

faca de dois gumes


na semana passada a agência de classificação de risco Standard & Poor elevou o grau de investmento do Brasil e como conseqüência o Real se valorizou perante todas as moedas (perante o dólar já não é notícia) e bilhões de dólares ou euros devem migrar para o mercado brasileiro nos próximos meses.

mas quem são e o que fazem essas poderosas agências de classificação de risco que agem literalmente como a famosa mão invisível do mercado?

ou mais importante, o quão confiável são tais classificações?

junto com a Moddy e a Fitch, a Standard & Poor compõe as três principais agências especializadas em avaliar o risco de quase tudo. No mercado imobiliário dos EUA elas reinam absolutas e desenvolveram uma tabela com 8 tipologias diferentes: residencial unifamiliar, multifamiliar, comercial, escritórios e shopping centers são 5 dessas categorias, e não se consegue um bom financimento se seu projeto não se encaixar nos parâmetros deles.
ou seja, se você projetar uma casa ou um shopping center que não se encaixe no modelinho, pode se preparar para pagar juros de 10% ao ano ao invés dos costumares 5 ou 6 % da maioria absoluta dos financiamentos.

mas mesmo com todo esse controle elas erraram feio na análise dos chamados financiamentos sub-prime cuja implosão já causou perdas de 250 bilhões de dólares aos bancos e investidores que vão desde gigantes como o tal Bear Sterns à aposentadoria privada de quase todo mundo.

e porque erraram? porque os bancos que faziam os empréstimos no varejo para clientes cuja renda dificilmente seria suficiente para pagar as prestações não ficavam mais de uns poucos dias com a dívida. Juntavam alguns milhares de hipotecas em um pacote e as revendiam para outros bancos, sem antes contratar uma das agências de risco para “avaliar” o pacote. Com todo mundo ganhando gordas comissões a cada transação e ninguém fiscalizando vocês já imaginam o que aconteceu.

milhares de pacotes de hipotecas classificados como AAA (ou praticamente de risco zero) são agora moeda podre. O valor da casa caiu, as taxas de juros subiram, o morador ficou com uma dívida maior que o valor da casa e se mandou, perdendo tudo que investiu inclusive o próprio teto. E quem comprou esses papéis que deveriam ser seguríssimos ficou com uma casa abandonada nas mãos que vale pouco mais da metade do valor da dívida.

agora essas mesmas agências de risco avaliam o potencial de investimento de um país inteiro.

pra mim é uma faca de dois gumes. Da mesma forma que no mercado imobiliário risco baixo significa conformidade com uma certa tabela de tipologias, no mercado financeiro internacional risco baixo significa adesão a um certo número de parâmetros, e pode ter certeza que investimento em educação e pesquisa não conta, mas redução de benefícios previdenciários conta e muito.

a famosa mão invisível do mercado as vezes se suja tanto que fica bem visível, e a imagem não é nem um pouco agradável.

Sunday, April 27, 2008

luxúria imobiliária



House Lust é o nome do livro de Daniel Mcginn cuja tradução seria algo como “luxúria imobiliária. Mcginn é jornalista da Newsweek e no livro ele tenta explicar as razões psicológicas por trás da bolha imobiliária de 2002-2005 nos EUA. Percorrendo lançamentos imobiliários de 600 m2 cujo preço inicial é de 1 milhão (podendo ir a 5 milhões em algumas áres de New York ou San Francisco).

escrito em 2007, o livro já indicava que esta bolha imobiliária estava para estourar e que muita gente ia acabar devendo mais do que o valor da casa assim que as taxas de juros subissem e o mercado esfriasse.

mas o interessante do livro de Mcginn é quando ele começa a tentar entender porque alguem que vive bem em uma casa de 300 m2 fica obscecado em se mudar para uma casa de 450 m2 e 1 milhão a mais.
por exemplo, em um dos capítulos Mcginn discute a idéia de que muita gente busca se dispõe a pagar muito mais por uma casa nova, como se imóvel fosse um carro e o “cheiro de novo” fosse um valor de uso. Acontece que carros tem uma vida útil de 10 anos, talvez 15, enquanto casas tem uma vida perfeitamente útil de no mínimo 60 anos, talvez 100, muitas vezes 200.

e o argumento usado para explicar esta obcessão a casa nova é de que as pessoas não gostam da idéia de que alguem já usou aquele banheiro ou deixou marcas de gordura na parede da sala de jantar.
mas como na comparação com os carros, os especialistas sabem que o semi-novo, aquele carro de 1 ou 2 anos com menos de 20 mil kilômetros é de longe o melhor custo-benefício, assim como aquela casa ou apartamento de menos de 10 anos, cujo valor já caiu um pouco ao mesmo tempo em que a infra estrutura não deve dar problema nas próximas décadas.

e quanto a supervalorização do novo, pra mim isso é uma mal disfarçada fixação com a idéia de pureza ou virgindade. Pureza que aliás é um conceito inventado artificialmente para reforçar a exclusão daquilo que não é considerado “puro”.

portanto cuidemos bem das nossas casas velhas (principalmente as modernas senhoras de 1950), que como escreveu o Quintana, é onde reside a melhor arquitetura.

Monday, December 10, 2007

lições de capitalismo a la yankees


muito já foi escrito sobre o fato de que a economia norte-americana foi feita de inúmeros calotes e falências, e que o respeito aos contratos só vale quando interessa aos grandes.


pois o modelo econômico de Alan Greenspan (diretor do Fed entre 1987 e 2006, nomeado por Reagan mas mantido por Clinton) e sua ênfase no endividamento fácil que por sinal sustenta o consumo parece ter criado mais um desses momentos com a chamada crise dos financiamentos imobiliários sub-prime.

resumindo a ópera em dois parágrafos temos mais ou menos o seguinte: entre 99 e 2000 quando a bolha dot.com começou a estourar, Greenspan já de olho na eleição de Bush facilitou a injeção de bilhões no mercado imobiliário como forma de evitar uma recessão mais dolorosa. A migração de recursos para a carteira de imóveis provocou um aumento de preços sem precedente. Entre 2000 e 2004 qualquer casinha nos EUA estava valorizando ao ritmo de 10% ao ano no mínimo, em algumas cidades como São Francisco, Chicago, New York e partes da Florida muito mais que isso. Com as casas valorizando nesse ritmo e a oferta de crédito facilitada um número gigantesco de norte-americanos refinanciou seus imóveis, vendendo para os bancos a valorização (equity) de suas casas em troca de cash para continuar consumindo. O aumento de preços (não acompanhado pelo aumento de salários, muito pelo contrário) começou a apertar a classe média que precisava de casa para morar mas não podia pagar meio milhão por um apartamentinho a 50km de distância de Manhattan ou qualquer outra cidade hipervalirizada. É ai que entra o tal subprime. Trata-se de um financiamento de alto risco onde o mutuário pagaria uma taxa baixa nos três primeiros anos (explicitamente chamada de teaser ou isca) e depois teria os juros aumentados acima da flutuação normal da taxa básica para compensar. Em vários ARM (adjustable rate mortgages) o mutuário não paga nada do principal nos primeiros anos, só os juros, como forma de baratear a prestação mensal.

o pesadelo começa quando as casas deixam de se valorizar ou mesmo desvalorizam como vem acontecendo nos últimos 24 meses. O mutuário que não está pagando o principal deve exatamente o mesmo valor que devia 2 anos atrás, sua casa vale menos (queimando a entrada paga ou indo diretamente para o vermelho) e a taxa de juro está programada para subir acima do normal dentro de alguns meses.
o resultado: 18% desses mutuários tipo ARM já atrasou pelo menos uma prestação em 2007. Caso não consigam pagar a casa volta para o banco e vai ao leilão. O fato de algumas casas na vizinhança estarem indo a leilão derruba ainda mais o preço de todas as outras e temos um efeito dominó que, especula-se, pode colocar o mundo numa recessão de 2008.

isso porque o consumo desenfreado norte-americano sustenta a expansão da manufatura chinesa tanto quanto o agro-business brasileiro e o mercado de commodities em geral.

a saída proposta semana passada pelo governo Bush foi uma espécie de acordo de cavalheiros com os bancos de forma a frear o aumento das taxas dos financiamentos ARM e assim dar uma sobrevida ao sistema todo.

eu não tenho nehuma ilusão quanto à famosa mão invisível do mercado e acredito que ela só entra em ação para proteger os interesses dos grandes contra milhões de pequenos. Mas ao mexer nos contratos desta maneira o goveno Bush está recompensando mutuários que compraram casas maiores ou mais caras do que podiam pagar e banqueiros que emprestaram de forma predatória para quem não teria mesmo como pagar. Os milhões de outros que tomaram a decisão certa de comprar o que lhes cabia estão pagando pela imprudência de uns e pela ganância de outros.

continuar insistindo no endividamento como forma de manter a economia girando não me parece tambem nem um pouco sustentável mas vale lembrar que a economia norte-americana foi formada por calotes históricos e quebradeiras homéricas,

as nuvens vão se acumulando no horizonte, resta saber se a tempestade cai aqui ou depois da serra.

Thursday, October 25, 2007

o corretor joga contra ou a favor?

no quinto post da série “como comprar um apartamento”, tratarei da difícil e muitas vezes frustrante relação com o corrector de imóveis. Dado que corretores costumam odiar arquitetos via de regra (sempre fazemos perguntas inconvenientes) não tenho mesmo muito a perder então contarei sobre o experimento (científico diga-se de passagem) de Stephen Dubner and Steven Levitt no livro “freakonomics”.

é o seguinte: Levitt, o economista da dupla, queria saber se vale mesmo a pena usar um corretor de imóveis para vender sua casa ou apartamento. Os dados (transações imobiliárias nos EUA são dados públicos e não tem essa de passar escritura por menos) mostram que imóveis vendem mais rápido quando se usa a rede de contatos de um corretor. Mas Levitt não estava satisfeito apenas com a questão do tempo, porque vender rápido não significa vender bem e resolveu comparar imóveis em geral com aqueles de propriedade do próprio corretor. Usando sua cidade de Chicago como balão de ensaio, Levitt percebeu que os imóveis de propriedade dos corretores demoravam em média 3 semanas a mais para serem vendidos mas alcançavam um preço 10% superior (corrigindo estatisticamente por todos os outros fatores como localização, área, idade, etc...)

a explicacão é simples. Como o corretor ganha 6% do valor da transação, tem muito pouco incentivo para esperar para vender algum tempo depois por um valor 10% maior. Nesse meio tempo, além de correr o risco de perder o comprador, o corretor teria pelo trabalho de mostrar o imóvel diversas vezes um ganho de apenas 6% de 10% ou seja 0.6%. Ora, entre ganhar 6% hoje ou ter que trabalhar mais para talvez ganhar 6.6% daqui a várias semanas, o corretor invariavelmente trabalha para que o negócio seja fechado hoje mesmo. O que Levitt brilhantemente percebeu foi que quando é o seu próprio imóvel que está a venda, os corretores se esforçam para alcançar um preço 10 ou 15% maior, mesmo que tenham de esperar mais tempo.

lembre-se disso na hora de vender seu imóvel: um bom corretor pode prestar um serviço importante com sua experiência em transações imobiliárias, mas estará quase sempre interessado em fechar logo o negócio, muitas vezes em detrimento do seu interesse como proprietário.

Wednesday, October 10, 2007

location location location

continuando a série Como Comprar um Apartamento, escrevo hoje sobre o princípio número 1 do valor imobiliário: tudo se baseia na localização.

a idéia é antiga, faz parte do folclore do mercado imobiliário, mas será um componente essencial do preço? De acordo com os pesquisadores Bernardo Furtado (UNA-BH) e Ricardo Ruiz (UFMG) sim, a localização é o fator que mais influencia o valor do imóvel, estatisticamente falando. Ou seja, controlando por todas as outras variáveis: área, acabamento, amenidades coletivas,vagas de garagem, número de quartos, a localização é a que tem maior influência direta no preço final.

mas porquê faz sentido mercadológicamente pagar as vezes o dobro por literalmente o mesmo imóvel só por causa da localização?
na teoria, os economistas explicariam assim: existem áreas com melhor infra-estrutura que outras, mais área verde, mais acessibilidade, melhores escolas, melhores hospitais, melhor comércio e etc.... como cada família tem uma renda diferente, as que podem pagar mais conseguem comprar seu espaço nas áreas melhores e assim por diante até aqueles que não tem como pagar nada. Se alguma variável nova entrar na equação (um novo centro comercial, uma mudança no trânsito ou o aumento da violência na favela vizinha) os agentes (moradores) vão se ajustar a nova realidade se mudando dali ou para acolá, puxando o preço médio para baixo ou para cima.

Furtado e Ruiz explicam que a correlação entre valor da terra e renda média é tão grande que pode-se trocar um pelo outro nos modelos matemáticos de análise.

na prática, são inúmeros os artifícios mercadológicos para “puxar” a valorização de uma determinada área. Desde apropriação indevida do nome (bairros vistos como bons costumam crescer enquanto bairros decadentes vão encolhendo com o passar do tempo); passando pela ênfase apenas nos aspectos positivos ou mesmo a manipulação dos ritmos diários na hora de visitar o imóvel (as 10 da manhã o trânsito é calmo pode-se manter as janelas fechadas sem maiores problemas, agora as 6 da tarde.....)
então a minha primeira recomendação é estudar com cuidado a vizinhança do imóvel que você tem em mente. Visite o quarteirão em diferentes horas do dia; pesquise preços de alguns meses atrás (porteiros são ótimas fontes de informação longe do corretor); considere bairros menos nobres onde seu dinheiro pode certamente comprar um apartamento melhor.

e lembre-se do que diz o próprio nome: seu apartamento é Imóvel, não pode ser rebocado caso você não goste da vizinhança.

Wednesday, October 3, 2007

quanto mais longe mais triste?

William McKibben acabou de dar uma palestra aqui em Michigan. Entre as idéias que mais me chamaram a atenção o autor de Deep Economy e idealizador do movimento Step it Up soltou a seguinte provocação:

desde 1956 uma pesquisa aqui nos EUA constata a cada ano que menos pessoas se dizem felizes, na exata proporção inversa do poder de compra ou do crescimento da economia. Tal tendência vale claro para indivíduos cuja renda percapita está acima de 12.000 dólares por ano, ou seja, acima da linha de pobreza.

segundo McKibben, isto se explicaria pela redução no número e na qualidade da interação entre as pessoas. Como o padrão suburbano norte-americano constrói casas cada vez maiores e mais distantes uma das outras (citando a última moda de 2 master bedrooms!!!), as pessoas têm cada vez menos contato com o outro.

claro que o argumento principal de McKibben é pelo aumento da densidade e mudança nos hábitos de consumo, mas não deixa de ser uma provocação bem interessante.

seríamos mais felizes quanto mais interagimos com os outros?

no caso brasileiro, será que esta teoria do isolamento-gera-infelicidade se aplica tanto aos condomínios verticais quanto aos horizontais?

Tuesday, September 25, 2007

Kieran + Timberlake ali na esquina



No meio de tanta mediocridade sendo construida nos quatro cantos do mundo, a gente meio que tem a obrigação de elogiar e anotar quando uma pequena pérola aparece no campo de visão. Mais ainda quando esta jóia fica bem ali na esquina.


Este é o caso deste pequeno edifício de apartamentos, projeto de Kieran, Timberlake, and Associates (KTA), aqui em Ann Arbor, a 50 metros da escola da minha filha.


Como eu passo na frente da obra 10 vezes por semana, já tinha notado a composição arrojada das aberturas, e já sabia que se tratava de um projeto de Stephen Kieran + James Timberlake, cujo sucesso em edifícios educacionais tem sido tema de várias reportagens da mídia arquitetônica por aqui.


Mas ao chegar agora em setembro e ver o edifício terminado encheu meus olhos. A intrincada organização interna dos apartmentos gera uma variação de pé-direitos e volumes que dá a cada unidade uma espacialidade diferenciada, além de permitir essa composição mais livre na fachada. Um cruzamento bem sucedido de raumplan do Loos com a fachada livre do Corbusier.


Vale também ressaltar que o edifício foi totalmente ocupado imediatamente após o término da obra em agosto último, um prodígio em tempos de crise no mercado imobiliário norte-americano e particularmente em Michigan.


Pra mim, além de ganhar uma pérola ali na esquina, ganhei um excelente exemplo de que a boa arquitetura pode aprimorar e muito a qualidade dos edifícios de apartamento ao mesmo tempo em que se faz mais rentável e vendável.

Thursday, September 20, 2007

Sobre como comprar um apartamento

Imagine se ao comprar um carro, ao invés de buscar informações sobre o custo de manutenção, o consumo de combustível e o valor de revenda, você olhasse apenas os itens em destaque na propaganda da revista: o estofamento assinado por fulano, a cor da luz do painel e a nova lanterna traseira re-estilizada para o modelo 2008 ficar um pouco diferente do modelo 2007.

Ridículo não?

Agora na hora de comprar um apartamento, um investimento normalmente 10 vezes mais caro que um carro e no qual você vai passar 12 horas por dia e não duas, um numero enorme de pessoas tem deixado que o piso da cozinha, os metais do banheiro e o espaço gourmet do pilotis sejam os fatores mais importantes na hora da escolha.

Se o leitor é um colega arquiteto, provavelmente já sabe de cor e salteado o conteúdo destas linhas.

Mas se você desconfia que na hora de comprar um apartamento os corretores desviam a sua atenção para um monte de bobagens comparáveis com a lanterna traseira re-estilizada, então essa serie pode lhe servir.

Usando da experiência de pesquisa comparando tipologias habitacionais ao redor do mundo (ver Global Apartments Research Group) e da experiência da frustração (quase desespero) de tentar encontrar um apartamento decente em Belo Horizonte (2 vezes por sinal), eu pretendo escrever de vez em quando aqui neste blog sobre algumas das questões que na minha opinião são mais importantes do que os metais do banheiro na hora de comprar um imóvel.

E pra começar conto uma historia verídica acontecida em São Paulo uns 10 anos atrás. Uma reconhecida critica de arquitetura que eu muito admiro foi procurada por um jornal de circulação nacional para escrever uma coluna semanal de arquitetura. Como teste, escreveu uma coluna sobre como comprar um apartamento: como entender a insolação, como verificar o estado da estrutura, como qualificar os revestimentos, como perceber problemas na rede hidráulica e etc... Acontece que o editor do referido jornal disse que ela pra ela escrever mais sobre arquitetura assim tipo obras excepcionais, museus, lojas, vanguarda ...... Mas, respondeu ela, 90% da cidade é feita de edifícios residenciais, metade da vida todo mundo passa dentro de casa, porque não escrever sobre este que é o maior investimento da vida de quase todos nós. O editor então respondeu curto e grosso: 35% do faturamento do jornal vem dos classificados de imóveis e os anunciantes não gostaram nem um pouco do tema daquela coluna piloto.

Pois é, foi lembrando dessa historia que tive a idéia de escrever justamente sobre isso nesse blog que não tem anunciante mesmo. Se servir para duas ou três famílias escolherem um espaço melhor pra se viver já vou dormir feliz.