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Monday, November 2, 2009

problemas na demanda e na oferta / problems on supply and demand



passei a semana com dois livros no criado-mudo que fazem bastante sentido juntos. Crude World: the violent twilight of oil escrito por Peter Mass e Traffic : why we drive the way we do (and what it says about us) por Tom Vanderbilt.


em Crude World (o título já é ótimo) Mass faz um retrato do rastro de destruição deixado pela industria do petróleo, do Alaska ao Equador passando pela Nigéria, pela Russia e é claro pelo Oriente Médio. Por todo lado a regra é o aumento da corrupção e da violência associado diretamente à descoberta de petróleo (a única exceção sendo a Noruega).


não sendo uma indústria que gera empregos na mesma escala do investimento inicial, a exploração de petróleo gravita em torno de um grupo limitado de “oilmen” cuja principal função produtiva é conseguir contratos de exploração a qualquer custo. E qualquer custo significa sustentar a família real saudita, os oligarcas russos ou chefes tribais nigerianos. E mesmo na ausência de corrupção e repressão o fluxo de capital do petróleo infla artificialmente a moeda local causando aos poucos o asfixiamento da industria pela dificuldade de exportação e facilidade de importação de bens de consumo e manufaturados.


em Traffic a questão é a demanda e não a oferta de gasolina e outros derivados. O século XX vaiprovavelmente ficar na história como uma época em que a parte mais rica da humanidade se isolava por horas a fio dentro de caixas móveis de lata para vencer uma necessidade muitas vezes artificial de deslocamento. Nosso deslumbramento com o automóvel é o mais poderoso motor da dependência em petróleo cuja brutalidade é retratada por Mass. O livro de Vanderbilt explora bastante as transformaçõescognitivas e psicológicas do ato de dirigir e sua influência nas relações humanas. Vanderbilt tem ainda um blog que vale a pena visitar pela variedade dos assuntos tratados.


do lado da demanda cabe ressaltar que o automóvel como solução de transporte de massa é absolutamente insustentável mas infelizmente continuamos a construir (e destruir) cidades para eles. Do lado da oferta, cabe uma nota de preocupação com toda essa euforia do pré-sal. Sermos independentes em energia é sem dúvida importante, mas a energia do futuro não vem de fósseis cozinhados no fundo do mar. Pior ainda, reservas abundantes de petróleo são na grande maioria das vezes uma maldição e não uma benção.


dado que podemos escolher que cidade queremos e que modelo econômico queremos (e lutar por eles) há de se ficar muito atento. A distância conceitual (e real) entre a Noruega e a Rússia não é assim tão grande.



I spent the week with two different books on related topics. Crude World: the violent twilight of oil writing by Peter Mass and Traffic: why we drive the way we of (and what it says about US), by Tone Vanderbilt.


in Crude World (the title is in itself excellent) Mass follows the path of destruction left by the oil industry, from Alaska to Ecuador passing by Nigéria, Russia and of course the Middle East.


everywhere the rule is an increase of on corruption and violence associated directly with the oil discoveries (the only exception being Norway). Not being an industry that generates jobs in the same scale of the initial investment, the exploration of oil gravitates around a limited group of “oilmen” whose main goal is to obtain exploration contracts at any cost. And by any cost he means supporting the Saudi royalty, the Russian oligarchs or Nigerians warlords. And even in the absence of corruption and repression the flow of capital from oil artificially inflates the local currency, causing to the slow death of local industry by making exports expensive and imports cheap.


in Traffic the question is on the demand side of our oil addiction. The 20th century will probably be known in history as a time in which the richest half of mankind isolated itself for hours each day inside metallic boxes to deal with an artificial need of dislocation. Our infatuation with the automobile is the most powerful engine of our addiction to oil whose brutality is well portrayed by Mass. Vanderbilt’s Traffic explores the cognitive and psychological transformations in the act of driving and its influence in all other human relations. Vanderbilt also has a blog that worth visiting for the variety of subjects discussed.


on the side of demand we know that the automobile as solution for mass transportation is absolutely unsustainable but unfortunately we continue to build (and destroy) cities for them.


of the side of supply, I am getting more and more concerned with all this euphoria with the Brazilian oil reserves. To be independent in energy is no doubt important, but the energy of the future does not come from fossils cooked in the depths of the sea. Worse still, abundant reserves of oil are almost always a curse and not a blessing.

given our ability to envision what city and what economy we want in the near future it is not too late to recall that the conceptual (as well as the real) distance between Norway and Russia it is not that big.

Monday, October 12, 2009

os ossos de Descartes / Descartes bones



o livro que ando lendo essa semana com grande entusiasmo se chama Descartes Bones e percorre a trajetória da separação entre religião e ciência seguindo a trilha dos ossos e das idéias de Rene Descartes depois de sua morte em 1650.


assim muito rapidamente, Descartes fundou a ciência moderna com seu método de questionar tudo que pudesse ser minimamente questionável. No final da corda estava a premissa inquestionável de que “eu existo”, o famoso cogito ergo sum.


acontece que a influência do pensamento deste homem dominou a ciência por séculos mas aos poucos vai sendo superada, principalmente no que tange à separação entre corpo e mente que hoje sabemos estarem intrinsicamente ligados.


fica aqui o meu pensamento cartesiano da semana: uma idéia pode existir na sua mente como abstração mas ela nao se concretiza no mundo real até que seja de alguma forma rabiscada. Uma separação mente/matéria que se mostra ainda verdadeira no ato de projetar.


e o fato de Descartes ter criado também a geometria analítca, pedra fundamental do processo de projeto desenvolvido pela academia francesa e usado por nós até hoje, me permite pensar os arquitetos (e todos os profissionais que tratam do desenho de objetos no espaço) como os últimos cartesianos.


e como amanhã voo para o Projetar em São Paulo estarei o resto da semana rodeado de alguns dos meus mais queridos amigos cartesianos




the book that I am reading this week with great enthusiasm is Descartes Bones in which the author tracks the separation between religion and science following the path of the bones and the ideas of Rene Descartes after his death in 1650.


superficially speaking, Descartes established modern science with his method of questioning absolutely everything. In the end of the rope it was the unquestioned premise that “I exist”, the classic cogito ergo sum.


the influence of his thoughts dominated science for centuries but is slowly vanishing. Especially in terms of the separation between body and mind that we know today to be intrinsically interdependent.


so my cartesian thought of the week is: an idea can exist in your mind as an abstraction but it does not materialize itself in the real world until it is sketched in some form. A separation mind/matter that still holds true in design.


the fact of Descartes also invented the analytical geometry, basic foundation of the design process developed by the French academy that we still use allows me to think of architects (and for that matter any design professional) as the last cartesians.


since tomorrow I will be flying to the Projetar conference in São Paulo I will spend the rest of the week with some of my dearest cartesian friends.

Monday, May 11, 2009

buckminster fuller



no inicio de abril estive em Chicago e fui ver a exposição sobre a obra de Buckminster Fuller montada pelo Museum of Contemporary Arts. Nascido em 1895 Fuller foi o mais visionário dos arquitetos modernos norte-americanos. Expulso de Harvard (por ser pego com pornografia, imagine!) Fuller trabalhou na marinha durante a primeira guerra mundial e tentou tocar alguns negócios da família (sem sucesso) antes de resolver que ia ser inventor. Os protótipos Dymaxion dos anos 30 (um carro super aerodinâmico e uma casa a ser produzida em escala industrial) foram notados e Fuller começou sua carreira de professor errático, mudando de escola em escola enquanto trabalhava em projetos que juntavam industrialização e performance através de geometrias elaboradas.

sua obra mais conhecida é o pavilhão dos EUA na feira de Montreal de 1967 (a mesma para a qual Moshe Safdie construiu o Habitat), uma esfera geodésica de aço e acrílico com 62 metros de altura e 76 metros de diâmetro equatorial.

o que vale a pena discutir a partir da obra de Fuller é até que ponto pode-se classificar sua obra de “sustentável”? O catálogo e os textos da exposição insistiam e promover as invenções de Bucky Fuller como pioneiros da sustentabilidade já que ele inegavelmente buscava a eficiência na forma de construir mais com menos recursos.

me incomoda esta apropriação contemporânea de sua obra porque de certa maneira Fuller esteve a vida toda absolutamente imerso no paradigma mecânico-industrialista do século XX segundo o qual existe uma resposta eficiente para todos os problemas da humanidade. Pois foi esta crença no progresso tecnológico como panacéia que nos colocou neste buraco ecológico. Ao mesmo tempo em que a evolução tecnológica pode (e deve) resolver alguns dos problemas atuais, seguramente não resolve a todos.
Fuller projetou por exemplo uma cidade flutuante que poderia ser usada em caso de crise como um tsunami ou uma pandemia (só pra citar dois problemas recentes). Mas será esse o destino da humanidade, viver em casas provisórias e flutuantes fugindo da elevação dos oceanos ou da vaca-louca, aqui citados por serem tragédias causadas pelo próprio modelo industrial de produção produção produção.

será que a eficiência que Fuller tanto buscou não pode ser vista como uma forma melhor de aproveitar nosso tempo na terra, consumindo menos e conversando mais ao invés de querermos maximizar tudo?

como o mineirinho da piada, se é pra ter uma vida melhor e mais confortável pra que essa volta toda?



at the beginning of April I was in Chicago and went to see the exhibition on Buckminster Fuller mounted by the Museum of Contemporary Arts. Born in 1895, Fuller he was most visionary of all North American modern architects. Expelled from Harvard (for being caught with pornography, can you imagine!) Fuller worked in the Navy during the World War I and tried to run some of the family businesses (without success) before deciding that would be inventor. The Dymaxion prototypes of the 1930s(an super aerodynamic car and a house to be produced in industrial scale) got some notoriety and Fuller started his career of an erratic professor, moving from school to school while working in a variety of projects that joined industrialization and performance through elaborated geometries.

his most visible work was the U.S. pavilion in Montreal's 1967 WorldFair (the same one for which Moshe Safdie constructed the Habitat), a geodesic sphere of steel and acrylic with 62 meters of height and 76 meters of equatorial diameter.

what seems worth to debate about Fuller’s work is to what extent it can be classified as “sustainable”? The catalogue and the texts of the exhibition insistently promote the inventions of Bucky Fuller as pioneers of sustainability since it undeniably searched for efficiencies in form in order to build more with less resources.
but this contemporary appropriation of Fuller as “sustainable” bothers me because it is also evident that he was absolutely immersed in the mechanic-industrial paradigm of the 20th century, according to which there would be a technological response to all the problems of humanity. Besides, it was precisely this belief in technological progress as panacea that brought us such ecological mess. While technological evolution can (and must) resolve some problems, it surely cannot solve all. Fuller designed for instance a floating city that could be used in times of crisis such as a tsunami or a pandemic (to quote only two recent problems). But is that humanities future? To life in provisory cities escaping from the oceans rise of mad-cow disease, quoted here for being tragedies caused by the very same industrial model of production production production.

why couldn’t the efficiency that Fuller so decisively searched be seen as a better way to use our time in this life, consuming less and having more time for each other more instead of maximizing everything?

in Minas Gerais there’s a story of a man who was selling produce by the side of the road. Somebody stopped by trying to convince him to expand his business and he kept asking why? why a bigger stall? why a store? why a supermarket? why a franchise? until the visitor said that he would be able to leave comfortably and enjoy a peaceful life.

to which he then asked: why all the effort?

Wednesday, March 25, 2009

lina e michelangelo


os dois são italianos e Michelangelo, não Buonarroti mas sim Sabatino acabou de me ensinar muita coisa sobre nossa saudosa Lina Bo Bardi.


antes que vocês pensem que eu fiquei meio maluco explico que acabei de ler dois artigos do colega Michelangelo Sabatino, Space of Criticism: exhibitions and the vernacular in Italian Modernism(Journal of Architectural Education 56:1, 2009) e Ghosts and Barbarians: the vernacular in Italian Modern Architecture and Design (Journal of Design History 21:4, 2008). Neles o autor nos traz um panorama da presença da arquitetura vernacular italiana e sua influencia (enorme) no desenvolvimento do modernismo naquele país, de Arduino Colasanti bem no inicio do séc. 20 a Giancarlo de Carlo nos anos 70, passando por Ignazio Gardella, Marcello Piacentini, Giuseppe Pagano (co-editor de Casabella nos anos 30), Gino Dorfles e, claro, Bruno Zevi.

tudo isso me fez pensar na obra de Lina Bo Bardi, sua fascinação pelo popular e pelo vernacular na arquitetura. Os textos de Sabatino só fazem reforçar a intensa ligação da obra de Lina no Brasil com os desdobramentos teórico-conceituais na Itália. No entanto, a maioria dos textos e monografias brasileiras sobre Lina abordam superficialmente (ou não abordam em absoluto) este constante diálogo da arquiteta com a Itália, como se Lina tivesse nascido de novo em 1947 quando desembarcou em Santos.

e continuando tal elaboração, a influência (e contra-influência) italiana no modernismo brasileiro (Rino Levi, Warchavchick) me parece muito maior do que gostariam de admitir a conexão Corbusiana e o levantamento classico de Yves Bruand.

fica aos colegas a pergunta: existem textos novos sobre esta marcante transculturação (para usar o termo adequado elaborado por Felipe Hernandez) entre os modernismos (no plural) brasileiro e italiano?

Tuesday, February 24, 2009

Frampton de novo




madrugada de segunda-feira de carnaval no Brasil, alguns devem estar ainda sambando, outros dormindo e aproveitando as cidades vazias como eu se faria se lá estivesse. Em casa as meninas se divertem com Fuzzy, o porquinho-da-índia da escola da Nena que foi passar a semana com a gente enquanto eu estou quase do outro lado do mundo, em Seoul, Coréia do Sul, para ser jurado de um concurso de arquitetura.


aliás big concurso, depois escrevo mais sobre a experiência.


no avião, sobrevoando o Canada, o Alaska, a Rússia, a China e a Coréia do Norte eu vim lendo o último livrinho de Kenneth Frampton, The Evolution of 20th Century Architecture, a synoptic account (New York: Springer, 2007). Livro curto e muito bom para estudantes, mas provocativo o suficiente para interessar aos mais experientes também.


no início nada de novo. Quer dizer, o prédio do MES no Rio aparece já nas primeiras páginas enquanto Paulo Mendes da Rocha e Burle Marx se juntam a Niemeyer cujo texto, por sinal, é letra por letra o mesmo do seu clássico Critical History of Modern Architecture de 1982. Vinte e sete anos depois Frampton não tem uma única palavra diferente a dizer sobre Niemeyer. Um pouco triste e me faz pensar o quanto do livro é assim requentado, a parte sobre o Cassino da Pampulha é a única que eu lembro de cor porque citei no meu livro.


mas no final até que o velho Kenneth se redime. Dando espaço a Charles Correa, Raj Rewal (que vai estar no júri em Seoul e não vejo a hora de conhecê-lo) e Herman Hertberger, Frampton sugere que Niemeyer influenciou Corbusier que influenciou Correa que influenciou Barragan num fluxo global de idéias que eu acho fascinante. Sugere mas não elabora, num estilo tipicamente Framptoniano.


bom mesmo é o último parágrafo quando Frampton começa afirmando que o crescimento da mídia arquitetônica anulou de uma vez por todas a diferença entre centro e periferia. Sei não, alguém ainda duvida que um ensaio ou um edifício brilhante de alguém em Cuiabá por exemplo teria o mesmo impacto das páginas e mais páginas de bobagens que se publica todo ano em Columbia ou na AA de Londres?


depois ao afirmar que nossa sociedade ocidental falhou redondamente ao não conseguir propor um modelo de ocupação espacial ao mesmo tempo culturalmente sensível e ecologicamente correto, Frampton clama por uma mudança de paradigma que segundo ele está longe de acontecer.


pode até ser que esta mudança não esteja ainda acontecendo a plenos vapores. Eu acho que ela já se anuncia. Mas uma coisa eu tenho certeza: a fixação de Frampton em tratar a arquitetura como obra de gênios individuais descolada das condições de produção e do pano de fundo das obras ditas comuns vai bater em seus olhos como o sol das 6 da tarde, ofuscando tudo. É que pra mim esta tal mudança de paradigma que mestre Frampton agora invoca é incompatível com a postura individualista com que ele insiste em abordar a criação arquitetônica. Me espanta o fato de que Frampton até hoje se “esquece” de práticas coletivas como MVRVD ou SANAA ou mesmo Herzog+deMeuron.


e como eu estou chegando em Seoul para julgar o trabalho de 6 arquitetos contemporâneos, não há oportunidade melhor para testar as provocações de Kenneth Frampton.


more to follow soon

Friday, February 13, 2009

razoes do sucesso

acabei essa semana de ler “Outliers, the story of success” de Malcolm Gladwell. O livro cumpre um papel importante ao desmontar a idéia de que apenas o talento e o esforço individual seriam capazes de alavancar alguém a posições de sucesso. O autor demonstra com vários exemplos interessantíssimos que o sucesso é quase sempre uma combinação de muitas oportunidades aproveitadas com algum talento. Gladwell não usa a expressão “capital social” ou “capital cultural” mas usa do mesmo argumento o tempo todo para mostrar que o fator que mais influencia o desempenho de crianças semelhantes é a escolaridade dos pais.

ao discorrer sobre Bill Gates e outros gênios da informática Gladwell demonstra como o acesso a computadores no inicio dos anos 70 (quando eram raros e seu uso era cobrado por hora) permitiu que esses então adolescentes acumulassem milhares de horas de prática antes mesmo de se graduarem.

várias vezes no livro Gladwell se refere a 10.000 horas como um número mágico a partir do qual o sujeito atinge um nível superior no exercício da sua profissão seja ela programar computadores, tocar violino ou jogar basquete.

o que significariam então essas 10.000 horas no caso da arquitetura. Dado que nem todo tempo passado diante da prancheta ou do computador se traduz em prática criativa, vamos dizer que um jovem arquiteto passa, na melhor das hipóteses, 3 horas por dia efetivamente projetando. Com isso seria preciso 3300 dias ou cerca de 10 anos de trabalho ininterrupto para se alcançar esse almejado patamar superior que um jogador de futebol alcança por volta dos 25 anos e um violinista por volta dos 30.

por isso vale insistir no rigor da prática de projeto desde a escola. Semanas atrás uma colega que conhece muito de arquitetura brasileira e latino-americana me perguntava porque a arquitetura da Argentina, do Chile ou até da Colômbia parece alcançar resultados tão melhores, na média, que nossa amada e celebrada arquitetura brasileira.

fiquei com essa pergunta ressoando por vários dias até que o livro de Gladwell me deu esse insight: o rigor das escolas de arquitetura desses países (notadamente mais intenso que das nossas) dá aos alunos mais talentosos uma grande vantagem prática, eles acumulam boa parte dessas tais 10.000 horas ainda na escola passando o dia inteiro no studio, oportunidade que infelizmente está sendo negada a grande maioria dos acadêmicos de arquitetura no Brasil.

Sunday, November 9, 2008

Eisenmann por escrito

acabei de ler este final de semana a tese de doutorado de Peter Eisenmann: The Formal Basis of Modern Archietcture.

um primor de análise formal, Eisenmann é excelente quando analisa Corbusier, Aalto, Wright e seu favorito Guiseppe Terragni. Como arquiteto são muitas as criticas a sua obra. Eu arrepio por exemplo toda vez que ele fala que faz arquitetura para si mesmo e não se importa com mais ninguém, nem com o cliente que está pagando a conta.

mas como estudioso da arquitetura Peter Eisenmann é fantástico, ler sua tese é entender em detalhes a gênese formal do que de melhor construímos no século passado.

só que tem um detalhe importante, a tese de Eisenman foi publicada em 2006 por uma pequena editora Suíça, 43 anos depois de ter sido defendida em Cambridge. Isso mesmo, entre 1963 e 2006 a tese ficou juntando poeira em prateleiras inglesas. Eisenmann publicou alguns artigos a respeito mas juntando tudo tenho absoluta certeza que pouco mais de algumas centena de pessoas leram a respeito.

no entanto, não conheço nenhum arquiteto digo do titulo profissional que carrega que não diga conhecer a obra de Eisenmann. Mas ao invés de ler sua obra nós consumimos imagens dela apenas. Não estou aqui negando o fato de que a visualidade tem um papel central na nossa profissão e serei o primeiro a defender que uma imagem vale mais que mil palavras.

mas existe algo em uma tese, uma organização lógica e sistematização do conhecimento que não se transmite apenas graficamente.

agora se a tese de doutorado de um dos mais celebrados arquitetos do final do século 20 demora 43 anos para ser publicada, tem algo muito errado acontecendo (ou não acontecendo) entre a produção do conhecimento na academia e a divulgação deste.

Monday, October 20, 2008

O’Gorman brothers



quando eu dou aula sobre arquiteturas contemporâneas ao sul de do trópico de câncer ou sobre modernismos periféricos, sempre uso um texto de Edward Said na introdução. Em “Orientalism” seu livro clássico, Said explica que a idéia de “oriente” foi inventada pelos europeus para definirem a sí mesmos como ocidentais ou “não-orientais”. Assim Said problematiza toda a construção da oposição oriente-ocidente a partir da origem fictícia do binômio.

bom, eu poderia escrever páginas aqui sobre Said e o orientalismo mas não é sobre isso o post de hoje. Lendo sobre os congressos panamericanos de arquitetura (um livro editado por Ramon Gutierrez em Buenos Aires) descobri a figura de Edmundo O’Gorman, historiador mexicano que escreveu “
Invención de América” em 1958 e influenciou gerações com a idéia de que a américa não foi nunca descoberta e sim inventada, construída.

corri na biblioteca, achei uma tradução de 1962 e adorei o texto de O’Gorman. Basicamente, o mexicano analisa todos os documentos de Colombo, Cabral, Vespucio e cia para montar seu argumento sobre a construção da américa.

em um mundo que se pensava estático e finito, perfeito e inalterável, o novo continente foi por muito tempo chamado de “orbis alterius” em oposição ao “orbis terrarum” que era formado pelos continentes contíguos que hoje chamamos Europa, Ásia e Africa.

me pareceu genial, a américa é desde sempre a “alteridade” que desloca o pensamento eurocentrico. No último parágrafo do livro O’Gorman resume tudo ao dizer que “o processo de invenção do corpo e da geografia da américa forçou o abandono de conceitos insulares e arcaicos de um mundo centrado apenas na história européia.

eu não sabia e nunca ouvi ninguem falar sobre isso mas O’Gorman escreveu mais ou menos a mesma coisa que Said só que 20 anos antes e merece o crédito por tê-lo feito.

e para nós arquitetos cabe ainda revelar que Edmundo era irmão de Juan O’Gorman, arquiteto da vanguarda mexicana que projetou os ateliers de Diego e Frida e a biblioteca da UNAM, antes de abandonar a arquitetura para se dedicar somente a pintura porque a primeira seria “demasiadamente burguesa”.
salve O'Gormans

Sunday, September 28, 2008

design and ethics

acabei ontem de ler o novo livro de Thomas Fisher, Design and Ethics, publicado este ano pela Elsevier. Tom Fisher é um dos meus autores favoritos no cenário acadêmico norte-americano. Ex-editor da revista Progressive Architecture (nos seus melhores tempos, antes de ter sido comprada e fechada pela concorrente) e atualmente é dean da escola de arquitetura de Minnesota.

o livro não é o melhor do autor nem entraria na minha lista dos top 50, é meio desfocado, as vezes parece ter sido escrito para o público em geral, mas é demasiadamente arquitetônico sem sê-lo o suficiente. Deu pra entender? Pois é, eu também não saquei direito qual a intenção principal do autor.

mas o Tom Fisher acerta ao trazer o tema da ética para a discussão sobre arquitetura. O texto é muito bem embasado no que diz respeito a este ramo da filosofia e muito bem amarrado com as questões contemporâneas do design.

por exemplo, Fisher vai direto ao ponto quando argumenta que a arquitetura precisa servir as pessoas e deixar de se preocupar com a beleza e a ordem como fins em si mesmas. Discorrendo sobre o panorama norte-americano (mas serve também para os jovens da pseudo-vanguarda brasileira), Fisher demonstra como a ênfase na abstração vai corroendo o papel social da arquitetura. Numa das melhores passagens do livro o autor explica como a pseudo-vanguarda cria uma escassez artificial. Nada é bom o suficiente então deve-se sempre inventar a próxima moda que de novo não tem nada, enquanto a verdadeira escassez (de qualidade na construção em geral) nunca é devidamente atacada.

a mudança ética de que fala Tom Fisher passa por uma mudança de discurso, pela inclusão de todo tipo de construção como objeto de estudo da arquitetura e não apenas aqueles projetados por arquitetos famosos, argumento que faz parte da maioria dos meus escritos. Fisher acerta também ao dizer que nossas conversas abstratas são uma barreira que atrapalha o entendimento do nosso trabalho por parte da sociedade.

em resumo, não é o melhor texto de Thomas Fisher mas é uma discussão oportuna e importante.

Monday, September 22, 2008

livros e mais livros




na ultima seção de comentários do parede duas pessoas mencionaram que gostariam de ler mais sobre arquitetura contemporânea.

então enquanto eu olhava para minha estante hoje em busca de inspiração para um outro texto fui selecionando os livros que eu recomendaria para estudantes e colegas arquitetos.

Palladio’s Children de N.J.Habraken já nasceu clássico ano passado. Habraken foi diretor do MIT por muitos anos e é holandês da turma de Bakema e Hertzberger que conquistou o mundo com seu pragmatismo 20 anos antes de Koolhaas ter entrado numa escola de arquitetura. Vale a pena mesmo e eu o coloco como primeiro da lista.


Mais profundo e mais abstrato são as Differences de Solá-Morales. Solá-Morales influenciou gerações da Espanha e na América Latina e Differences é um resumo de sua obra interrompida precocemente uns anos atrás


La Modernidad Superada de Josep Maria Montaner não está na foto acima porque está emprestado mas é uma leitura precisa do modernismo tardio com muitos elogios aos brasileiros. Acho que já foi traduzido para o português.


Architecture after Modernism de Diane Ghirardo é imperdível. Também já traduzido para o português, Ghirardo dá um show ao explicar a arquitetura do final do século XX junto com as transformações no capitalismo da era Reagan/Thatcher


Architecture and disjunction de Bernard Tschumi é obra fundamental para entender a arquitetura contemporânea principalmente no que diz respeito a seus paralelos com as outras artes ou disciplinas criativas em geral.


Eupalinos é um livrinho lindo de Paul Valery cuja edição brasileira tem um excelente prefácio do saudoso Joaquim Guedes. Imperdível para todos que amam a arquitetura e a filosofia, alem de ser muito melhor que qualquer fenomenologia.


O lugar da crítica é uma coleção de ensaios de Ruth Verde Zein que pra mim é quem melhor tem escrito no Brasil já há muitos anos. Nem precisa explicar muito.


O Alvo do Olhar Estrangeiro é a tese de doutorado de Nelci Tinem, professora da UFPB. Nelci faz um passeio pelas revistas de arquitetura dos anos 50 pra demonstrar como os interesses de cada publicação moldam suas decisões editoriais.


O projeto arquitetônico de Alfonso Corona-Martinez também existe em português e é um clássico dos estudos do ato de projetar em si. Fundamental pra todo mundo que quer entender direito o que se passa no processo dos primeiros croquis até a resolução espacial ganhar seu caráter definitivo.


e por último para aqueles que estão cursando mestrado ou doutorado, Architecture Research Methods de Linda Groat e David Wang é um manual de introdução às diversas técnicas de pesquisa em arquitetura que acredito ser o melhor livro no assunto.

e por último fica minha sugestão de que todo mundo contribua nos comentários para que esta lista cresça e se torne mais abrangente que a minha pequena e arbitrária seleção

Sunday, April 27, 2008

luxúria imobiliária



House Lust é o nome do livro de Daniel Mcginn cuja tradução seria algo como “luxúria imobiliária. Mcginn é jornalista da Newsweek e no livro ele tenta explicar as razões psicológicas por trás da bolha imobiliária de 2002-2005 nos EUA. Percorrendo lançamentos imobiliários de 600 m2 cujo preço inicial é de 1 milhão (podendo ir a 5 milhões em algumas áres de New York ou San Francisco).

escrito em 2007, o livro já indicava que esta bolha imobiliária estava para estourar e que muita gente ia acabar devendo mais do que o valor da casa assim que as taxas de juros subissem e o mercado esfriasse.

mas o interessante do livro de Mcginn é quando ele começa a tentar entender porque alguem que vive bem em uma casa de 300 m2 fica obscecado em se mudar para uma casa de 450 m2 e 1 milhão a mais.
por exemplo, em um dos capítulos Mcginn discute a idéia de que muita gente busca se dispõe a pagar muito mais por uma casa nova, como se imóvel fosse um carro e o “cheiro de novo” fosse um valor de uso. Acontece que carros tem uma vida útil de 10 anos, talvez 15, enquanto casas tem uma vida perfeitamente útil de no mínimo 60 anos, talvez 100, muitas vezes 200.

e o argumento usado para explicar esta obcessão a casa nova é de que as pessoas não gostam da idéia de que alguem já usou aquele banheiro ou deixou marcas de gordura na parede da sala de jantar.
mas como na comparação com os carros, os especialistas sabem que o semi-novo, aquele carro de 1 ou 2 anos com menos de 20 mil kilômetros é de longe o melhor custo-benefício, assim como aquela casa ou apartamento de menos de 10 anos, cujo valor já caiu um pouco ao mesmo tempo em que a infra estrutura não deve dar problema nas próximas décadas.

e quanto a supervalorização do novo, pra mim isso é uma mal disfarçada fixação com a idéia de pureza ou virgindade. Pureza que aliás é um conceito inventado artificialmente para reforçar a exclusão daquilo que não é considerado “puro”.

portanto cuidemos bem das nossas casas velhas (principalmente as modernas senhoras de 1950), que como escreveu o Quintana, é onde reside a melhor arquitetura.

Thursday, April 3, 2008

contra-cultura ou contra a cultura?


acabei de ler o livro-manifesto de Andrew Keeen, “the cult of the amateur, how today’s internet is killing our culture”.


o argumento de Keen é de que a suposta democratização do acesso e da disseminação da informação está causando mais dano que benefício. Como exemplo, Keen lista vários blogs supostamente amadores pagos por empresas ou lobbies, mensagens de ódio em redes de relacionamento, vídeos falsos no Youtube e outras campanhas difamatórias do tipo para mostrar o poder destrutivo desta avalanche de informações sem controle que nos afeta diáriamente e contra a qual não temos ainda abrigos adequados.


até aqui concordo plenamente com o argumento de Andrew Keen, principalmente quando ele expõe o lado negro da Wikipedia, como o caso dos executivos do Wal-Mart constantemente editando favoravelmente o artigo sobre a firma, ou o caso de uma arbitragem da própria Wipkipedia que considerou equivalentes as contribuições de um adolescente e as de um climatologista com 18 anos de carreira no caso de artigos sobre o degelo da Antártica.

mas a idéia de Keen de que a blogosfera atual se equivale a milhões de macacos digitando em milhões de teclados (usando a metáfora de T.H Huxley, avô de Aldous, o autor de Admirável Mundo Novo) e de que esta pletora de informações está sufocando a idéia mesma de cultura me parece exagerada e tendenciosa.


sendo o próprio Keen um crítico de música, seu capítulo sobre o impacto da internet na indústria fonográfica explica muito do seu desespero atual. Keen vai fundo em detalhes mostrando a falência da Tower Records e a perda de faturamento de Hollywood para argumentar os prejuízos causados pela internet, sem ao menos citar o outro lado, ou seja: o forte lobby da indústria de entretenimento que durante décadas manipulou preços e mercados, sufocando concorrentes e criando cartéis e monopólios.

na questão do jornalismo o texto de Keen é um pouco mais equilibrado, ainda que vociferando contra a falta de controle e rigor das informações na blogosfera. No final do livro o autor aponta possíveis “soluções” como as iniciativas do New York Times e do Guardian de disponibilizar conteúdo gratuitamente na internet em troca de publicidade, e o quanto ainda se valoriza a informação produzida por um jornalista e escrutinada por um editor.

em vários momentos Keen cita a importante função que o especialista desempenha na sociedade contemporânea, e a diluição deste conhecimento acumulado é o principal problema apontado pelo autor. Mas Keen se recusa a tratar o outro lado da moeda: o enrigecimento das estruturas que acabam gerando defesas corporativistas, cartéis e lobbies de todo tipo. Um pouquinho de Foucault não faria mal nenhum à análise de Keen que as vezes parece estar interessdo em salvar a cultura, outras vezes parece simplesmente amarrado a um modelo capitalista de marketing cultural que precisa urgentemente de evoluir para preservar o que existe de melhor na capilaridade interativa da internet sem necessariamente deixar de valorizar o talento e o esforço.

vai levar algum tempo e ainda vamos ler, ver e ouvir muita porcaria, mas o trigo há de se separar do joio nesse campo fértil que é a web.


Sunday, February 17, 2008

boys from dolores


saindo um pouco da arquitetura que é o tema principal (mas não único) deste blog, escrevo hoje sobre um livro que acabei de ler.


ultimamente ando muito seletivo com minhas leituras, acho que cada dia concordo mais com J.L.Borges em que é muito melhor reler algo bom do que ler novas bobagens. Hoje mesmo devolvi para a biblioteca um livro sobre a vida de Pablo Picasso que não consegui passar da página 30, tantas eram as irrelevâncias, fofocas mesmo, esmiuçadas a cada parágrafo.

mas “boys from dolores” de Patrick Symmes foi daqueles que dava vontade de ler mais e mais, mesmo quando o sono já pesava nas pálpebras. O livro, resumido em uma única frase, apresenta a vida de uma geração de meninos cubanos que estudaram com os jesuítas no Colegio de las Dolores, em Santiago de Cuba, no início dos anos 40. Symmes entrevistou dezenas destes meninos exceto os dois mais famosos da turma: Fidel e Raul.

a grande maioria deles se mudou para Miami em algum momento dos anos 60 como a maior parte da elite cubana cujos filhos estudaram com os jesuítas, mas vários permaneceram em Cuba.

a trajetória destes meninos, depois rapazes, depois homens e agora idosos traça um panorama riquíssimo dos últimos 60 anos em Cuba, desde a república dos anos 40, a ditadura de Fulgencio Batista, a guerrilha da Sierra Maestra, a empolgação dos primeiros anos da revolução, o deslocamento de milhares para Miami e o endurecimento do regime na ilha depois da Baía dos Porcos e da crise dos misseis.
mas o que mais me chamou a atenção, intrincado no meio das estórias narradas por Symmes, foi o altissimo grau de fantasia (no sentido de deslocamento da realidade) com que vivem tanto os de Miami quanto os de Havana. De um lado e de outro desenha-se uma Cuba absolutamente irreal. Entre o inferno pintado por uns e o paraíso decantado por outros a distorção da realidade é tão gritante que assusta.

desculpe o mal-feito trocadilho mas acho que o título do livro resume tudo: os meninos das dores.