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Tuesday, January 18, 2011

a tragédia e algumas questões que não queremos responder




na semana passada eu estava do outro lado do mundo enquanto o céu desabava na região serrana do Rio de Janeiro, trazendo morro abaixo uma infinidade de água e lama e levando de volta pra cima centenas de almas. Mas obviamente esta explicação fatalista e quasi-religiosa não me satisfaz. Como entrar numa sala de aula ou sentar-se diante de um cliente e não pensar nas consequencias de cada talude mal drenado, de cada quintal impermeabilizado, de cada entulho jogado no lote do fundo que no próximo verão vai descer com a chuva para entupir as bocas-de-lobo, entupir de tragédia as páginas dos jornais, entupir de números as estatísticas e entupir de dor a vida dos que ficaram pra trás.


saturado pela discussão superficial e sensacionalista da mídia você neste parágrafo está pensando que este é mais um texto eco-chato sobre o modelo de ocupação das encostas, a política habitacional ou a incompetência do poder público.


nada disto. Como eu acabei de voltar de Cingapura, gasto hoje este espaço para refletir sobre os limites entre o poder de intervenção do estado e os direitos individuais.


uma das coisas que mais me assustou em Cingapura foram arquitetos e sociólogos, todos professores universitários com pós-graduação e experiência internacional, defendendo o modelo de democracia de Cingapura. Para quem não conhece, Cingapura tem partido único, imprensa controlada e um governo que regula e policia absolutamente tudo. Os casos mais famosos são os de chicotadas públicas por cuspir na rua ou multa por não dar descarga nos banheiros públicos. Numa outra conversa assuntos mais mundanos de arquitetura perguntei ao presidente do Instituto de Arquitetos de Cingapura se eles não tinham problemas de dilatação ao usar cerâmicas nas fachadas, caso típico de cidades tropicais como nós bem sabemos. A resposta dele: o código de obras especifica quais cerâmicas e quais argamassas podem ser usadas para cada tipo de edifício dependendo do tipo de estrutura, altura e exposição solar.


agora que nome damos a este tipo de relação público - privado? Capitalismo super-regulado? Fascismo pragmático? Exagero de zelo pelo bem comum? Mega big brother? Cingapura recebe tanta chuva quanto Manaus, 70% mais do que a media do sudeste brasileiro e o nível de planejamento é tanto que os arquitetos não estão nem um pouco preocupados com mortes decorrentes de enchentes e desabamentos. Estão preocupados em garantir que uma cerâmica 10x10 não despenque do 18o. andar.


a pergunta que andamos evitando no caso da tragédia da região serrana é que tipo relação com o estado nós queremos. Estamos dispostos a apoiar um estado que remova milhares de pessoas das regiões de risco e cobre impostos suficientes para prover infra-estrutura para estes mesmos milhares? Ou preferimos um estado que apenas policie e deixe para o mercado oferecer habitação de qualidade. Neste caso, estamos dispostos a pagar um salário mínimo de R$ 1500.00 que garanta a todos a possibilidade de pagar R$ 600.00 de prestação ou aluguel? Estamos dispostos a apoiar um estado (ou um CREA ou um CAU) que efetivamente fiscalize os afastamentos, áreas totais e taxas de permeabilidade?


nós que trabalhamos todo dia com a aprovação de edifícios e loteamentos estamos dispostos a defender as leis que os regulam diante dos clientes que perguntam se dá pra aprovar assim ou assado? Estamos dispostos a ir lá com a policia explicar os riscos da ocupação e exercer a interdição se necessário? Como, se não damos conta nem de explicar na reunião de condomínio que a varanda o pilotis não podem ser fechados com blindex.


o exemplo de Cingapura me parece sim extremo e autoritário, mas o nosso modelo de jeitinho para os amigos e leis para os inimigos está falido, enterrado debaixo de toneladas de lama em Ilha Grande, Angra, Teresópolis, Friburgo e onde mais chover. Estaremos dispostos a assumir responsabilidade coletiva por um modelo de espaço construído que não implique riscos de destruição em massa.

Thursday, October 21, 2010

o verde e a fé

texto novo no ARQ!Bacana sobre a explosiva mistura de religiosidade e ambientalismo

Thursday, June 10, 2010

pintando a favela / favela painting

isto é suficiente ou o melhor que podemos fazer?

is it enough or the best we can do?

esto es suficiente o lo mejor que podemos hacer?

Monday, July 20, 2009

inhotim








a visita a Inhotim que eu já devia ter feito a muito tempo marcou uma semana em que os deuses do futebol abençoaram mais uma vez a torcida alvinegra das alterosas. Inhotim pra quem não conhece é um centro de arte em Brumadinho, a 60km de Belo Horizonte, onde o colecionador Bernardo Paz oferece aos visitantes aquela que é sem dúvida a melhor coleção de arte contemporânea do Brasil.
mas antes de falar da coleção é necessário dizer que Inhotim é antes de tudo um parque. Parte do paisagismo foi desenhado por Burle Marx nos anos 80 e sua influência é visível no restante do espaço embora as vezes se perceba um certo exagero, um viés monumental na paisagem.

dispostos neste imenso jardim estão uma dúzia de galerias onde se vê obras de artistas consagrados como Cildo Meireles e Tunga e jovens como Rivane Neuschwander e Alexandre da Cunha. A maioria das galerias tem uma arquitetura inexpressiva mas abrigam muito bem o acervo. Algumas até parecem ter sido desenhadas para uma obra em questão como True Rouge do Tunga. A notável exceção é a galeria projetada por Rodrigo Lopez para as obras de Adriana Varejão. Um cubo de concreto em balanço sobre um espelho d’água lembra automaticamente Tadao Ando tanto na textura das formas do concreto quanto pelo uso da iluminação indireta. A impactante obra de Varejão é nitidamente acentuada pela arquitetura, o que me permite perguntar se o mesmo efeito amplificador não poderia ser aplicado também sobre algumas das outras obras como a “através” de Cildo. Completando a exuberância do parque uma instalação de Helio Oiticica (magic square #5), os fuscas de Jarbas Lopes e a “inmensa” escultura em aço de Cildo Meireles se oferecem ao redor do lago.

em resumo, a melhor coleção de arte contemporânea brasileira pode ser vista por todos que se dispuserem a enfrentar a dureza da BR 381 em Contagem e Betim e os quebra-molas da estrada de Brumadinho.
vale super a pena.





60 km southwest of Belo Horizonte we find Inhotim, the Best collection of contemporary art in Brazil. Before discussing the collection I must reveal that Inhotim is a park, part of it designed by Burle Marx in the 1980s and his influence is still visible despite the monumentality that we can also see in the current landscape.

around this giant garden are the galleries, most unimpressive, that house so many amazing pieces of art, from celebrated artists such as Cildo Meireles and Tunga to younger like Rivane Neuschwander and Alexandre da Cunha. The one remarkable building is a Tadao-Ando-like cube of concrete elevated over a water pond, designed by Rodrigo Lopez to house the works of Adriana Varejão. The works of Varejão are clearly highlighted by the excellence of the architecture and I wonder if the same could not be also true for “através” by Cildo Meirelles or “true rouge” by Tunga. Completing the exhuberance of the collection the troca-troca VW Beetles by Jarbas Lopes, magic square #5 by Helio Oiticica and inmensa by Cildo Meireles are all in the garden.

in summary, the best collection of Brazilian contemporary art is open to the public in a beautiful park, just a little bumpy road away from Belo Horizonte.

absolutely worth it.

Monday, June 22, 2009

pontos cegos / blind spots

comecei e não consigo parar de ler o excelente “Carradas de razões”, obra de Otavio Leonídio sobre Lucio Costa. Como bom modernista que sou a vida e a obra do Dr. Lucio são fundamentais para se entender o Brasil de hoje, na arquitetura, no urbanismo e na questão do patrimônio. E o livro de Leonídio (resultado de sua tese de doutorado) é de longe o melhor texto que já li sobre aquele que foi o mentor intelectual da arquitetura brasileira do século XX. Indo direto nas fontes primárias como bom trabalho de historiografia que é, o livro traz a tona componentes essenciais para se montar (e desmontar) nossas narrativas da modernidade.

mas o que me chamou muito a atenção, saindo um pouco da questão arquitetônica, foi a linguagem tantas vezes pejorativa e preconceituosa usada pelos arquitetos no início do século passado. Marianno Filho, médico e mentor do neo-colonial, usa a expressão “judaísmo internacional” para se referir às vanguardas européias (ou talvez numa alusão direta a Gregori Warchavchik). Católico fervoroso, Marianno Filho confunde a idéia de nação com a religião majoritária no país, esquecendo-se que desde 1889 estado e igreja estavam devidamente separados no Brasil.

ainda mais estarrecedor é ler o próprio Lucio, intelectual refinado e elegante escrevendo em 1928 que: “toda arquitetura é uma questão de raça. Enquanto nosso povo for esta coisa exótica que vemos pelas ruas a nossa arquitetura será forçosamente uma coisa exótica. Não é essa meia dúzia que viaja e se veste na rue de La Paix, mas essa mutidão anônima que toma trens da central e da Leopoldina, gente de caras lívidas, que nos envergonha por toda parte.”

agora sou eu quem fica envergonhado de ter como herói arquitetônico o mesmo Lucio Costa que escreveu as linhas acima. Pode-se justificar que isso veio do alto de seus 26 anos de idade ou que, na época, ainda estava ligado ao neo-colonial de Marianno Filho e portanto na contra-mão há história. É fácil demonizar Marianno Filho e seu combate quixotesco contra a arquitetura moderna mas o fato é que são ambos argumentos racistas e preconceituosos.

o que me faz perguntar quais seriam os argumentos, hoje dados como aceitáveis, que causarão náusea a nossos leitores daqui a meio século ou século inteiro?

quais são hoje nossos pontos cegos?



I started and I can’t stop reading the excellent “Carradas de Razão”, by Otavio Leonídio about the work of Lucio Costa. Being myself a confessed modernist, Dr. Lucio is fundamental to understand contemporary Brazilian architecture, urbanism and preservation. And Leonídio’s book (his phd dissertation) is by far the best text I have read on the man who was the intellectual mentor of Brazilian 20th century architecture. Based on primary sources as it should be, the book brings to light many components that are essential to assemble (and disassemble) our narratives of modernity.


but what called my attention very, if I may leave architecture aside for a moment, was the pejorative and prejudiced language used by the architects at the beginning of the last century. Marianno Filho, a medical doctor who was the mentor of the neo-colonial movement in Brazil, uses the expression “international Judaism” to referring to the European avant-gardes (or perhaps a direct attack on Gregori Warchavchik). A devoted catholic, Marianno Filho confuses the idea of nation with its main religion, deliberately forgetting that since 1889 state and church they were duly separate in Brazil.

even more astonishing it is to read the Lucio Costa himself, a refined and elegant intellectual, writing in 1928 that: “all architecture is a matter of race. As long as our people are this exotic thing that we see in the streets our architecture will be forcibly an exotic thing. It is not about half dozen that travel and dresses at rue de la Paix, but the anonymous crowd that uses the trains, people of livid faces that are a shame to us all.”

now I am the one ashamed of those words written by Costa in 1928. One might say that he was only 26 years old and still affiliated with the neo-colonial movement of Marianno Filho and therefore lost in history. It is easy to demonize Marianno Filho and his frivolous combat against modern architecture but the fact is that both arguments are racist and filled with prejudice.

it is hard to believe that Costa, such a hero to Brazilian architects, could be so wrong. But the question we need to ask is what kind of arguments, acceptable today, will make the readers of the next century sick to their stomachs?

which are our blind spots?

Monday, June 15, 2009

presentes de aniversário / birthday presents






este blog sai hoje um pouco dos assuntos arquitetônicos mais sérios para narrar uma série de encontros e acontecimentos que fizeram dos últimos quatro dias um contínuo e delicioso presente de aniversário pra mim.

a começar pela nossa sessão na LASA que me levou ao Rio na quinta-feira onde ótimas conversas com Ruth Verde Zein e Stella Nair se juntaram a aquele espírito de discussão (e festa) que é marca do congresso. Ainda na quinta teve encontro de blogueiros com Idelber do Biscoito, Ana Paula do Urbanamente e a divertidíssima Helê das Duas Fridas, entre outros.

na sexta voltei a um dos lugares mais fantásticos que eu conheço: o sítio de Roberto Burle Marx em Guaratiba. Diante da pérgula (foto), um espaço que sempre me emociona, dá vontade de se curvar e fazer uma louvação ao encontro genial do concreto com a natureza, síntese da Arquitetura Moderna Brasileira. No sábado, arrematando a viagem ao Rio, fiz uma corrida boa em Ipanema e minha querida amiga Flávia Oliveira me levou para comer bacalhau com Otávio Leonídio e Ana Luiza Nobre, de quem eu já era leitor entusiasmado e adorei conhecer pessoalmente. Monica Rocio, quem eu não via a 15 anos ainda me levou no Galeão.

o Rio, lindo como sempre, me deixa muito a vontade e reafirma a cada visita a velha idéia de que o destino dos melhores mineiros passa pela Guanabara.

de volta a BH no domingo tive um delicioso aniversário em família e os deuses da bola me presentearam com o Galo na liderança, Cruzeiro perdendo e o Flamengo destroçado com ajuda de seu goleiro falastrão.

assim só me resta agradecer tanto carinho e tantos presentes.

ps: chegou mais um presente em 16/6



this blog will divert from serious architectural discussions today to talk about a series of meetings and events that turned the last four days into a continuous birthday present to me.

starting with our session at LASA that brought me to Rio de Janeiro on Thursday and into excellent conversations with Ruth Verde Zein and Stella Nair, adding to the festive spirit of Latin American Studies. Also on Thursday a congregation of Brazilian bloggers with Idelber, Ana Paula and Helê, among others.

on Friday, I revisited one of the most sacred spaces I know: Robert Burle Marx estate in Guaratiba. Under this pergola (photo), a space that always touches me, one thinks of getting down to the knee to prais the brilliant blending of concrete and nature, almost a synthesis of Brazilian Modern Architecture. On Saturday, summing up a fantastic trip, I run 5 miles in Ipanema before and my dear friend Flávia Oliveira took me to lunch with Otávio Leonídio and Ana Noble Luiza, two of the best scholars on Brazilian architecture whom I had already read many times. Rio, as enchanting as always, reaffirms to me with each visit why so many of the best from Minas Gerais moved there.

back to Belo on Sunday I had a comfortable birthday party surrounded by the loved ones while the soccer Gods wrapped up my 38th year with Atletico as a leader, Cruzeiro and Flamengo suffering scorching defeats.

I can only be thankful to so much affection and so many gifts.

ps: one more gift arrived on 6/16

Monday, June 8, 2009

andando para trás / moving backwards







chegando a Belo Horizonte esta semana me deparei com esse elefante branco projetado pelo centenário Niemeyer que servirá de centro administrativo do estado. Nada mais século 20 do que esses edifícios monumentais, umas curvas simplórias no auditório, prateleiras em curva formando dois prédios enormes, um projeto difícil de engolir se viesse dos traços de um aluno de primeiro ano de arquitetura. Vindo do nosso maior arquiteto é mesmo uma vergonha. Dizem os que trabalham na obra que não havia nenhuma forma de compatibilização entre os vários projetos, erros primários relativos a insolação, absoluta ausência de detalhes. Isso na a maior obra do governo do estado projetado pelo mais famoso arquiteto brasileiro é triste, muito triste. Pra não falar na oportunidade perdida. Com o centro da cidade esvaziado, as secretarias e autarquias estaduais poderiam ter se instalado em dezenas de edifícios que estão sub-ocupados, injetando vida e recursos numa área que apesar de suas belezas está condenada ao abandono. Daria mais trabalho, sim, e provavelmente o orçamento para reformar vários edifícios com mais de 50 anos de uso seria quase o mesmo da obra em andamento. Mas seria o tipo de intervenção que pede o século que se inicia. Niemeyer teve seu momento nos anos 40 e 50 quando ele era um dos melhores do mundo e seus contratantes tinham uma visão apontada para o futuro. Hoje, ao contrário, seus projetos são completamente anacrônicos e construí-los aponta para o passado.




arriving in Belo Horizonte this week I found this white elephant designed by our centennial Niemeyer that will house the administrative center for the state government of Minas Gerais. Nothing could be more 20th century than those monumental buildings, simplistic curves on the auditorium, stacks of slightly curved floors making two enormous structures. A composition that would be considered poor if it were presented by a 1st year student. Coming from our most famous architect is just a shame. People who work in the construction reported that there were no compatibility between the different sets of drawings, basic mistakes regarding solar orientation and absolutely no detailing. Not to mention that the location of this enormous complex is in itself a huge missed opportunity. With downtown quite empty, the state government branches could occupy dozens of buildings that are now mostly idle. It would probably be more troublesome and the budget to renovate many 50-year-old buildings would be about the same. But it would be a intervention worthy of its time. Niemeyer had his moment in the 1940s and 50s when he was among the best in the world and his clients had a view towards the future. Today, unfortunately, his designs are extemporaneous and to build them points to the past.

Monday, April 20, 2009

ruas no lugar de muros / streets not walls

de toda essa discussão sobre o desastrado muro em torno das favelas do Rio uma das melhores colocações foi a da Ana Paula Medeiros do Urbanamente e o que ela chamou de “mania de cercadinho”ou nas palavras dela mesma:“tendência à fragmentação, a criar grupos estanques de pessoas, de coisas. Tendência a reforçar a cisão entre grupos sociais distintos, a criar barreiras, a excluir. Seja com o intuito de enfatizar a exclusividade e o privilégio, como os currais vip dos shows, seja disfarçando com o argumento da preservação ambiental, como é o caso da atual discussão envolvendo as favelas do Rio.”

pois isso me parece um dos mais tristes fenômenos deste início de século. Quanto mais criamos comunidades virtuais ou laços com pessoas do outro lado do planeta, mais dificuldade temos em estabelecer qualquer troca com aquele que vive ali pertinho mas que se mostra muito diferente de mim.

ano passado me chamou a atenção o livro The Big Sort, de Bill Bishop e Robert Cushing. Os autores, um jornalista e um professor de sociologia da Universidade do Texas, partiram de dados eleitorais para mostrar que a população norte-americana esta se fragmentando em territórios ideológicos. Na eleição de Carter em 76 a grande maioria do país teve disputas acirradas a nível dos condados. Já na eleição de Bush em 2004 (e muito provavelmente também na eleição de Obama ano passado) a maioria do país foi de “lavadas” onde um ou outro candidato ganhou com mais de 20% de frente.

nas palavras de Bishop e Cushing“os EUA são hoje mais diversos do que nunca mas os lugares onde vivemos estão se tornando cada vez mais cheios de pessoas que vivem como nós, pensam como nós e votam como votamos. Esta transformação social não aconteceu por acidente, nós construímos um país onde podemos todos escolher qual vizinhança morar como quais notícias assistir. E estamos vivendo com as conseqüências desta segregação.Nosso país se tornou tão polarizado, tão ideologicamente incestuoso, que as pessoas não sabem e não conseguem compreender os outros.”

no caso brasileiro esta divisão não se revela tanto espacialmente, pessoas de ideologia e modos de vida bastante diferente ainda dividem o mesmo elevador na maioria dos prédios onde vive a classe média e média-alta das grandes cidades. Mas fora a diversidade dos apartamentos esta segregação acontece com força total, nas escolas que escolhemos para nossos filhos, nos shoppings, nos clubes, nos restaurantes. A mídia já percebeu isso há muito tempo e cada radio toca para seu público, cada revista escreve para seu público e com isso cria-se um ciclo vicioso que gera polarização porque as idéias iguais vão sendo ampliadas ao reverberarem em ouvidos fiéis. A direita torna-se mais direita e a esquerda mais esquerda num processo que espelha a profunda divisão norte-americana.

inconscientemente cada vez mais escolhemos estar em espaços onde estarão também aqueles que pensam como a gente, e as cidades vão perdendo um pouco do que elas tem de melhor que é facilitar o contato com tudo que me é diferente, com a alteridade, com aquilo que me altera.

por isso insisto em criticar o muro como intervenção desastrada. Primeiro porque como bem escreveu Sergio Besserman, ex presidente do IBGE, as favelas estão crescendo horizontalmente na zona leste e verticalmente na zona sul, onde os muros então não servirão para nada. Segundo porque se o problema é preservar a mata porque o estado não consegue conter a expansão ilegal então o muro não vai durar duas semanas. Terceiro porque os 40 milhões de reais reservados para os muros poderiam ser investidos em abertura de ruas. Ruas para que possa subir a polícia mas para que também possa subir a ambulância, o caminhão de lixo, os bombeiros. Ruas para descer o esgoto devidamente encanado. Ruas para que a acessibilidade gere mais possibilidade de contato, mais oportunidade de emprego e geração de riqueza. Ruas para que nossas vidas rodeadas de iguais sejam mais permeáveis, ainda que apenas potencialmente.

vale ler também o que escreveram Roberto da Matta e Sergio Magalhães [alem do otimo texto de Luiz Fernando Janot publicado em O Globo no ultimo dia 17 que o proprio autor disponibilizou nos comentarios desse post].


of all this quarrel around the disastrous wall around the favelas of Rio one of the best posts was written by Ana Paula Medeiros at Urbanamente and what she called “fancing mania” , the contemporary trend to create groups, to strengthen the split between distinct social groups, to create barriers, to exclude. Either with intention to emphasize exclusiveness and privilege, as the vip corrals in concerts, either hidden under the argument of environmental preservation, as is the case of the current wall around Rio's favelas.”

this seems to me as one of the saddest phenomena of this new century. The more we create virtual communities or ties with people on the other side of the planet, more difficulty we have in establishing any kind of meaningful exchange with that think different but might be so close to me.

last year the book “The Big Sort”by Bill Bishop and Robert Cushing called my attention. The authors, a journalist and a professor of sociology at UT Austin departed from electoral data to show that the North American population has been breaking down into ideological territories. In their own words: “America may be more diverse than ever coast to coast, but the places where we live are becoming increasingly crowded with people who live, think, and vote like we do. This social transformation didn't happen by accident. We've built a country where we can all choose the neighborhood and church and news show — most compatible with our lifestyle and beliefs. And we are living with the consequences of this way-of-life segregation. Our country has become so polarized, so ideologically inbred, that people don't know and can't understand those who live just a few miles away.”

in the Brazilian case this division not yet so strikingly spatialized. People of diverse ideology and life-style still share the same elevator in the majority of the buildings where the middle and upper middle class lives in major cities. But outside of apartments buildings segregation happens with total force, in the schools that we choose for our children, in shopping malls we go, in clubs, in restaurants. The media already knows that for a long time and each radio station caters to its public, each magazine writes for its subscribers in a vicious cycle that generates polarization because equal ideas get louder when reverberating in faithful ears, to the point of becoming two different languages, unintelligible for another audience. The right becomes more right and the left more left in a process that mirrors the deep North American divisions.

we feed that unconsciously each time we choose to be in spaces where we can find those that think like we do, and the cities lose a little the best they can offer which is to facilitate the contact with the different, with alterity, with that which alters me.

that’s why I insist on criticizing the wall as disastrous intervention. First because as stated by Sergio Besserman, ex director of the Brazilian Census Bureau IBGE, the favelas are growing horizontally in the east periphery and vertically in the southern part of town where the walls will then be good for nothing. Second because if the problem is to preserve the forest while the state cannot contain the illegal expansion then such wall won’t last two weeks. Third because the 40 million reais reserved for the walls could be invested in opening of streets. Streets so that give access to the police but also the ambulance, the garbage truck, the firetruck. Streets such that the sewage can come down properly. Streets that increase accessibility and more chances of contact (not less), more jobs and generation of wealth. Streets that make our contemporary insulated societies more permeable, even if only potentially so.

Monday, April 13, 2009

o muro do Rio / Rio’s wall





esta semana o assunto da blogosfera foi o início da construção de vários muros no Rio de Janeiro, entre algumas favelas e as vizinhas áreas verdes remanescentes. Me lembrei imediatamente da discussão acalorada que tivemos aqui em Michigan em 2007 quando a escola de arquitetura comemorou 100 anos e trouxe vários figurões para um seminário de 3 dias que pretendia olhar tanto para o século que passou quanto para o século que temos pela frente. O resultado foi um racha entre defensores da sustentabilidade ambiental (Ed Mazria, William Saunders, John Thackara, Ken Yeang, David Orr) e os defensores da sustentabilidade social (Teddy Cruz, Charles Correa, Saskia Sassen, Michael Sorkin). No final ficou no ar um certo consenso de que as duas sustentabilidades são inatingíveis em separado, que a forma de alcançar uma delas passa necessariamente pela outra.

o muro do Rio me parece uma forma extremamente infeliz de lidar com esse conflito, como bem lembrou Sergio Besserman. Sim, as áreas verdes precisam ser preservadas, mas a população também precisa de soluções urgentes de habitação com um mínimo de qualidade e acesso aos serviços e oportunidades da cidade.

e por isso cabem aqui várias perguntas:

preservar as áreas verdes para quem? Já que isoladas por um muro (vamos fantasiar que o muro não vai ser quebrado ou escalado) elas deixam de participar do convívio da população e qualquer chance de uma efetiva educação ambiental desce pela enchurrada (na ausência de ralo)

porque murar em volta das favelas e não em volta de tantas áreas ricas do Rio que também invadem, desmatam e se apropriam das áreas de preservação que deveriam ser públicas? As mansões do Recreio ou de Angra vão ganhar muros também?

talvez valha a pena lembrar o muro de Berlim, o muro da faixa de Gaza e a cerca entre San Diego e Tijuana, barreiras que só servem para materializar fisicamente o preconceito, a desigualdade e o desinteresse numa solução melhor e mais permanente para o problema.

tem de haver uma solução melhor!



the buzz of the week in Brazil was the beginning of the construction of some walls in Rio De Janeiro that are supposed to separate the favelas from the neighboring remaining green areas. Reading about it I immediately I recalled a interesting discussion we had here in Michigan in 2007 when the architecture school celebrated its centennial and brought many distinguished scholars for a 3-day seminar that was supposed to reflect on the century past and the one ahead. The result was a debacle between proponents of the environmental sustentability (Ed Mazria, William Saunders, John Thackara, Ken Yeang, David Orr) and the defenders of social sustainability (Teddy Cruz, Charles Correa, Saskia Sassen, Michael Sorkin). In the end there was a consensus that the two sustainability are unreachable separately, that the road one of them necessarily goes through the other.

the wall of the Rio seems to me an extremely unhappy solution to this problem. Yes the green areas need to be preserved but the population also needs urgent housing solutions of minimum quality and access to the services and opportunities of the city. And many questions arise:

is the wall the best solution to preserve the green areas or just the first surface waiting the others three that will constitute a new dwelling?

to whom are we preserving this nature? Isolated by a wall (let’s pretend for a second that it will not be breached) they disappear from people’s perception and any possibility of an effective environmental education goes down the drains (opps, drains are rare in the favelas)

why build walls around the favelas and not around wealthy areas in Rio that also invade, deforest and appropriate nature preserves that should be public. Will they eventually wall the mansions of Recreio and Angra also?

but I am sure it is worth noting that as much as the Berlin wall, the Gaza wall or the Tijuana fence, the main purpose of these barriers is to materialize prejudice, inequality and a profound lack of interest in a better (and therefore permanent) solution for the problem.

Rio deserves a better solution!

Wednesday, March 25, 2009

lina e michelangelo


os dois são italianos e Michelangelo, não Buonarroti mas sim Sabatino acabou de me ensinar muita coisa sobre nossa saudosa Lina Bo Bardi.


antes que vocês pensem que eu fiquei meio maluco explico que acabei de ler dois artigos do colega Michelangelo Sabatino, Space of Criticism: exhibitions and the vernacular in Italian Modernism(Journal of Architectural Education 56:1, 2009) e Ghosts and Barbarians: the vernacular in Italian Modern Architecture and Design (Journal of Design History 21:4, 2008). Neles o autor nos traz um panorama da presença da arquitetura vernacular italiana e sua influencia (enorme) no desenvolvimento do modernismo naquele país, de Arduino Colasanti bem no inicio do séc. 20 a Giancarlo de Carlo nos anos 70, passando por Ignazio Gardella, Marcello Piacentini, Giuseppe Pagano (co-editor de Casabella nos anos 30), Gino Dorfles e, claro, Bruno Zevi.

tudo isso me fez pensar na obra de Lina Bo Bardi, sua fascinação pelo popular e pelo vernacular na arquitetura. Os textos de Sabatino só fazem reforçar a intensa ligação da obra de Lina no Brasil com os desdobramentos teórico-conceituais na Itália. No entanto, a maioria dos textos e monografias brasileiras sobre Lina abordam superficialmente (ou não abordam em absoluto) este constante diálogo da arquiteta com a Itália, como se Lina tivesse nascido de novo em 1947 quando desembarcou em Santos.

e continuando tal elaboração, a influência (e contra-influência) italiana no modernismo brasileiro (Rino Levi, Warchavchick) me parece muito maior do que gostariam de admitir a conexão Corbusiana e o levantamento classico de Yves Bruand.

fica aos colegas a pergunta: existem textos novos sobre esta marcante transculturação (para usar o termo adequado elaborado por Felipe Hernandez) entre os modernismos (no plural) brasileiro e italiano?

Saturday, March 14, 2009

quem disse que mineiro não perde o trem?



Carlos Teixeira (na foto relaxando em um de nossos penetráveis) esteve aqui em Michigan esta semana, fez um workshop com meus alunos e apresentou seus premiadíssimos trabalhos. Carlos é sem dúvida o arquiteto mais cosmopolita das Minas Gerais e tem mostrado pelo mundo seus trabalhos nos quais a intimidade e o estranhamento são dosados com precisão. Intimidade para entender as complexidades da construção brasileira em textos como O Capim e projetos como as Amnésias Topográficas. Estranhamento para desenvolver uma crítica pertinente e revelar as contradições do espaço construído brasileiro. Além disso, Carlos Teixeira consegue manobrar seus projetos no exíguo e nebuloso espaço entre o público e o privado, ao mesmo tempo em que desafia os limites de ambos.

mas mesmo sendo tão antenado com o trem da história Carlos e Gabi se infiltraram ontem a tarde por Ann Arbor, e chegaram atrasados na estação onde eu esperava com as malas. O resultado foi mais uma noite de conversas porque o próximo trem pra Chicago só saiu agora de manhãzinha.

mais um paradigma das gerais desconstruído pelo Carlos

Sunday, March 8, 2009

ufa !!!

foram 3 dias muito intensos em BH. Pampulha, favela, seminário na prefeitura, sarau arquitetônico com os horizontes, mercado central, família e um pouco de chuva, claro.

a parceria com a PBH me deixa cada vez mais animado pela forma aberta e interessada com que várias secretarias e autarquias encaram essa troca de experiências.

o encontro com os horizontes (resenhado pelo Marcão) também foi na mesma linha, um intercâmbio de idéias arquitetônicas amplificado por uma amizade que já vai completar uma década.

e como eu já esperava o ponto alto foi a manhã passada na favela do Acaba-Mundo, uma imersão em uma realidade totalmente estranha aos alunos de Michigan e também a grande maioria dos arquitetos brasileiros. E teve de tudo, o carinho das crianças do projeto Querubim, polícia de arma na mão, um rapaz cortando mato e barranco para começar a construir sua casa (Leo Guerra jura que eu contratei ele para estar lá naquele exato momento). Agradeço ao pessoal da Urbel cujo suporte torna muito mais rica essa interação.

nessa visita foram registradas algumas idéias interessantes: os alunos estrangeiros perceberam o esforço do governo brasileiro em amenizar as desigualdades numa escala absolutamente impensável nos EUA (almoçaram depois no restaurante popular a R$ 1.00). E foram também surpreendidos pela quantidade de perguntas que os moradores do Acaba-Mundo tinham sobre Obama. E acabaram tendo uma conversa ótima comparando os programas tipo bolsa-escola e bolsa-família com food-stamps. Claro que os moradores do Acaba-Mundo ficaram também surpresos com os números sobre a pobreza nos EUA que os meus alunos conhecem mas que estão absolutamente ausentes de qualquer debate aqui no norte.

e no final fica reforçada minha idéia de que o Brasil e os EUA são muito mais parecidos do que gostam de se imaginar.

Thursday, March 5, 2009

em solidariedade aos excomungados


cheguei ao Brasil hoje e já no avião do Rio para BH leio sobre o caso menina de 9 anos que engravidou ao ser estuprada pelo padrasto. E eis que no meio de toda monstruosidade a mãe da menina resolve fazer o que eu acho absolutamente correto: conseguiu autorização judicial para realizar o aborto, e assim procederam.

ora convenhamos, um aborto implica traumas físicos e de consciência, mas a última coisa que essa menina que já passou por tanto abuso precisa é de correr mais risco e a gravidez antes de estar o corpo preparado é fisiologicamente arriscada pra não falar do absurdo psicológico que é a maternidade aos 9 anos.

mas não é que o bispo de Recife decide excomungar a mãe, o juiz e os médicos que participaram do procedimento. Senhor bispo, se ainda não percebeu, o aborto no caso de incesto ou de risco de vida da mãe é legal nesse país, e nesse caso cabiam ambas as prerrogativas.

e para usar uma ótima estória bíblica, que atire a primeira pedra aquele que nunca teve um aborto na família. Ou melhor, dado o caminho da irrelevância que a igreja escolheu depois de massacrar a Teologia da Libertação, pode me excomungar também senhor bispo, não vai fazer nenhuma diferença, nem pra VSa e nem pra mim.

Thursday, February 19, 2009

morfologia das favelas


hoje meus alunos apresentaram pela primeira vez os trabalhos de analise do Acaba-Mundo em BH. Cinco outros professores na platéia se revezando em toda sorte de comentários, esmiuçando mesmo o trabalhos dos estudantes.

de repente surgiu uma questão. De acordo com o mapa de levantamento desta favela, apesar das densidades altíssimas, não encontramos uma única parede compartilhada por dois barracos. Cada uma das estruturas tem suas próprias quarto paredes, um envelope externo absolutamente independente mesmo que as vezes o espaço entre edifícios seja de 50cm ou menos.

dado que a maioria das classes media e alta nas grandes cidades brasileiras moram atualmente em apartamentos, onde uma ou várias paredes são compartilhadas, fica aqui uma anotação interessante. A lógica da ocupação das favelas impõe a independência dos envelopes externos, mesmo que a privacidade seja quase nenhuma dado que os vizinhos estão a menos de um metro de distância.

isso me parece comum na maioria das favelas brasileiras e vale perguntar qual a origem e discutir a pertinência deste fenômeno.

seria isso um desperdício de material e trabalho justamente onde faz mais falta ou uma peculiaridade morfologica dos assentamentos informais?


o que vocês acham?

Friday, February 6, 2009

david leatherbarrow


esta semana David Leatherbarrow, diretor do programa de doutorado da U Penn esteve aqui em Michigan para uma palestra e um seminário.

a palestra foi meio hermética mas o seminário foi uma ótima oportunidade de discutir arquitetura com um dos mais importantes scholars contemporâneos.

e a conversa acabou sendo muito pessoal. Primeiro porque Leatherbarrow começou dizendo que toda pesquisa tem um quê de pessoal, uma questão íntima, algo que cada um de nós quer resolver por dentro e acaba externando nas nossas investigações.

fiquei imaginando então o que meus textos dizem sobre mim mesmo.

mas a conversa esquentou mesmo quando eu falei alguma coisa sobre o Brasil e Leatherbarrow disparou a elogiar a arquitetura brasileira e sua contribuição para a arquitetura do século XX. Numa sala com outros 20 alunos de doutorado e outros 10 professores a minha tabelinha com o ilustre convidado durou o suficiente para deixar todo mundo com inveja da experiência brasileira.

e não podia ser mais pessoal….

Friday, January 23, 2009

coitada de Brasilia


o Max me chamou a atenção para este debate que anda esquentando as conversas em Brasília e eu faço minhas as palavras de Sylvia Ficher: Coitada de Brasília.


quando Oscar Niemeyer escreve como fez hoje no Correio Brasiliense que tem “o direito e a obrigação” de desenhar o que quiser em Brasília, a cidade, coitada, só tem a perder.

Niemeyer foi genial dos anos 30 (quando ele era na minha opinião o melhor arquiteto do mundo) aos anos 50 enquanto teve uma excelente equipe. Infelizmente, como bem observou Ourosoff por ocasião do centenário do mestre, teve a chance de viver o bastante para danificar a própria obra.

o projeto do Centro Administrativo do Estado de Minas Gerais por exemplo é ruim na concepção e mal projetado a ponto de causar tristeza. Pergunte a qualquer um que trabalhe na obra sobre a falta de detalhes, ausência de coordenação entre projetos complementares e flagrantes erros de orientação solar e funcionalidade.

e se ainda fosse uma forma elegante....

mas o mais triste mesmo, na falta de melhores argumentos urbanísticos e arquitetônicos , é ver o mestre do alto de seus 101 anos bradar que tem o direito e a obrigação de conceber e propor a praça.

desculpe mestre Oscar, com todo o respeito que lhe é devido, você não tem nem um nem outro, a cidade não lhe pertence desde 21 de abril de 1960.

sobre o debate ver textos de Sylvia Ficher, Fred Holanda, Carlos Henrique Magalhaes e a resposta do próprio Niemeyer.

ps: e parabens ao MDC (leia-se Danilo) por apoiar o debate.




Thursday, November 27, 2008

espaços colaterais


estive em Chicago esta semana e várias vezes me lembrei do Carlos Teixeira porque andei basicamente pelas mesmas ruas que andamos juntos uns 10 anos atrás.
chegando em casa encontro um pacotinho dele com o novo livro “Espaços Colaterais”, que será lançado amanha, sexta-feira, às 19:00h, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional (Av. Paulista, 2073), São Paulo.

Carlos é talvez o mais talentoso pensador e provocateur contemporâneo no Brasil. Morasse ele em São Paulo ou no Rio e ele já seria conhecido nacionalmente. Mas Carlos é bem mineiro apesar de transitar em vários mundos, da AA de Londres a Coronel Fabriciano. O fato é que muito provavelmente Belo Horizonte permite um exercício de reflexão (e interlocução) que leva a obra e dos textos de Carlos Teixeira a um nível por poucos alcançado (vide seu texto sobre o capim).

neste livro, junto com os co-editores Tandi Campos, Renata Marquez e Lou Cançado, Carlos reúne o que mais instigante se fez nas alterosas na última década. Um dos trabalhos, o das próteses de ventilação e iluminação para barracos de Brana Carvalhaes, merecia prêmio internacional pela precisão casada com inventividade.

bom, vou parar por aqui, sugiro a quem estiver em Sampa que vá no lançamento e pra quem não estiver que dê um jeito de ler o livro.

ISBN 978-85-61659-00-4, collateralspaces@gmail.com

Tuesday, November 18, 2008

depois da crise


a cena é mais ou menos a seguinte: uma crise severa tem origem nos EUA e se espalha pela Europa e depois pelo mundo todo. Países exportadores de commodities perdem receita num primeiro momento mas se recuperam mais rapidamente com ajuda de seus mercados internos menos endividados e portanto menos deprimidos que os dos países mais desenvolvidos. Mas a crise é suficiente para deixar os arquitetos do mundo desenvolvido sem trabalho e eles aos poucos vão se abrindo para oportunidades d’além mar.


parece 2009 mas pode também ser 1929, tão parecidos são os cenários de agora e os de 80 anos atrás.

entre 1929 e 1936 apareceram no Rio de Janeiro Le Corbusier, Marcelo Piacentini, Frank Lloyd Wright e Eliel Saarinem. Quem acha que Corbusier foi só dar umas palestras ou FLW foi só julgar um concurso não sabe da ferocidade com que arquitetos deste porte se dedicam a conseguir grandes projetos. Dão até murro nos outros e talvez por isso sejam tão bem sucedidos na nossa charmosa mas carnívora profissão.

coincidentemente, Libeskind e Sejima só foram dar uma palestra depois de ter visto as imagens do novo prédio do Siza que, ao contrário de Bernard Tschumi e Jean Nouvel, provou ser possível realizar um projeto de altíssimo nível no Brasil. Que eu me lembre o primeiro deste porte desde que Corbusier percebeu que não podia mais chamar de seu o prédio do MEC.

então acho que cabe celebrar o fim desses 70 anos de auto-isolamento buscando perceber que a boa arquitetura tem um poder enorme de disseminação e tanto Siza quanto futuros H+dMs ou Koolhaases ou Pianos ou Saanaas podem contribuir enormemente para ventilar a arquitetura brasileira. Da mesma forma nossos arquitetos tem tido uma presença muito maior no cenário internacional que acabam gerando obras pelo mundo a fora.

usando de todo o meu otimismo disponível eu diria que a novíssima geração brasileira tem tudo para se libertar de antigos dogmas e pensamentos mofados de forma a juntar o melhor da brasilidade com o melhor da universalidade,

como fizeram de maneira tão eficiente os moços de mil e novecentos e trinta e poucos

Wednesday, November 12, 2008

torcendo os brises do MEC








o post de hoje trás um projeto que me fascinou pela beleza, pelo desafio e pela referência direta à arquitetura brasileira.

Tsz Yan Ng e Mehrdad Hadighi do Studio for Architecture projetaram em Shantou, China, um edifício multi-uso para uma indústria textil que conjuga show-room, escritórios e andares para a própria fabricação.

a solução barata e extremamente elegante foi inspirada ao mesmo tempo no nosso MEC de 1936e na caixinha de comando de Herzog e De Meuron em Basel.

o fantástico do edifício de Ng e Hadighi foi modelar um brise torcido e perfurado a ser fabricado na China, em concreto, a partir de moldes elaborados em Bufallo, NY.

o resultado está aí nas fotos mas trazendo a discussão para o nosso contexto, em primeiro lugar é importante perceber o impacto que a arquitetura moderna brasileira tem no exterior. Nem Ng nem Hadighi tiveram nenhum contato maior com o Brasil a não ser através dos livros de história da arquitetura moderna e no entanto ao explicar de onde veio a idéia do brise torcido lá estão o MEC e H+dM.

mudando de assunto para a recente contratação de Herzog e De Meuron para um projeto em São Paulo, ainda bem que vamos aos poucos evoluindo e finalmente deixando os autores do genial prédio do MEC onde eles ficam melhor: no século passado. Agora um concurso internacional traria propostas daqueles que serão os melhores arquitetos das próximas décadas e não das passadas. Foi isso que Getulio Vargas e Gustavo Capanema fizeram em 1936, investiram na arquitetura do futuro, mesmo que pra isso fosse preciso cancelar um concurso.

Monday, November 3, 2008

salvemos nós mesmos o mercado

há tempos eu ando pensando em escrever sobre a questão dos mercados em BH e nos últimos dias duas notícias chamaram a minha atenção: uma reportagem dizendo que o Iphan quer tombar o Mercado Central e um e-mail sobre a luta para manter o Distrital de Santa Tereza.

mas o fato de ser um tema muito caro à minha família faz com que as idéias nem sempre saiam muito organizadas. Mesmo assim me sinto compelido a externar minha opinião.

faz mais de um ano que Olímpio e Olinto Marteleto (avô e tio-avô da Letícia) fecharam o Armazém Aymoré, depois de 75 (isso mesmo, setenta e cinco) anos de trabalho. Olinto foi embora dessa vida em setembro e Olímpio, aos 92 anos, ainda se preocupa com o Mercado como se preocupa com sua própria vida, isto porque sua vida sempre foi o Mercado. Mas o armazém não existe mais, fechado depois de dar prejuízo por muitos anos.

daí a minha frustração com os movimentos pelo tombamento do Mercado Central ou pela manutenção do de Santa Tereza. Nenhum mercado se sustenta sem uma base forte de clientes e a elite belorizontina que gosta tanto de mostrar o mercado para os visitantes já não faz compras lá há décadas.

pra mim já é tarde demais para os mercados de Santa Tereza e da Barroca, e não adianta restaurar e reabrir porque os pequenos lojistas que fazem destes espaços um espetáculo de cores e cheiros não tem a mínima condição de competir com os sacolões ou com o Epa-Carrefour. A não ser que os moradores da Barroca e de Santa Tereza passem a comprar lá semanalmente, o que eu duvido que venha a acontecer.

basta lembrar do mercadinho da Lagoinha que passou por uma restauração cuidadosa quando o Patrus era prefeito e foi reinaugurado com a presença de toda a intelligentsia de BH para poucos anos depois estar novamente às moscas.

já o Mercado Central pode ser salvo pelo alcance metropolitano que ainda emana dalí. Tanto a base de clientes das classes C e D que passam por lá antes e depois do ônibus, diariamente (e é quem compra de verdade no mercado), quanto das classes A e B que passam por lá de vez em quando (para comprar algo especial ou para mostrar aos turistas) ainda sustentam, no limite, as bancas sobreviventes.

então meus caros, para salvar o Mercado Central e evitar que ele se transforme numa versão melhorada do Shopping Oi, façamos lá as nossas compras do mês

e antes que me acusem de cínico ou de romântico aviso que quando estamos em BH é lá que compramos frutas e verduras, mesmo tendo um Mart-plus a 100 metros de casa.

outras estratégias, por reforma ou por decreto, estão na minha opinião fadadas ao fracasso.