Saturday, December 27, 2008

feliz 2009



fim de ano é tempo de fazer balanços e planos para o futuro. Comigo não é diferente e enquanto penso nas alegrias de 2008 (e foram muitas) a chuva cai sem parar aqui em Belo Horizonte o que só reforça o meu investimento no Studio Toró e a questão das águas urbanas.


desde que a família se reuniu em BH 14 dias atrás já choveu mais de 300mm, quase a quantidade de chuvas anual de Madrid e Lisboa e quase a metade do que chove nos grandes lagos onde moramos o resto do ano As meninas estão morrendo de tédio mas pelo menos no nosso apartamento não entra uma só gota de água, ao contrario da grande maioria das moradias da cidade.


e tragédias como a do vale do Itajaí vão se tornando rotina. Eu não me canso de mostrar que na América do Sul temos o equivalente a um furacão Katrina todos os anos, só que ao invés de 1000 mortos de uma vez são 150 daqui, 80 dalí e 20 acolá.
e as conversas sobre o tema sempre passam por aquilo que alguém deveria fazer. E sempre esse alguém é definido como outro, nunca como nós mesmos.

mas pra mim a questão das enchentes urbanas passa tento pelo poder público e pelas diretrizes de urbanização quanto por cada um de nós em nossos pedacinhos de terra dentro da cidade. É que as áreas públicas representam cerca de 20 a 30% do total da superfície urbanizada mas acabam sendo responsáveis pelo manejo e toda a água da chuva, seja porque nela corre a tubulação de escoamento pluvial ou porque nela são lançadas quase 90% do volume dado que todo o resto está absolutamente pavimentado.


e aqui mora o meu argumento de que a questão das enchentes urbanas diz respeito a todos os que na cidade residem. Sem um mínimo de permeabilidade não há rede pública que agüente tanta água.


vejamos os números de Belo Horizonte. De 12 de dezembro pra cá já choveu cerca de 300mm. Isso dá um volume de mais de 100 mil litros para cada lote comum de 12 x 30 metros, ou 4.3 milhões de litros para cada quarteirão da área central da cidade. Enquanto a rede pluvial tem se comportado bem e evitado maiores problemas, um simples canteiro de 3 x 3 metros em cada propriedade seria capaz de absorver 80% deste volume, realimentando o lençol freático e contribuindo para, através da evaporação, diminuir a absorção de calor e a temperatura resultante nos dias de sol forte.


em resumo, nas regiões tropicais com regime de chuvas concentrado nos meses de verão como é o caso do sudeste brasileiro não existe ambiente urbano saudável sem um mínimo de permeabilidade do solo e isso não pode ser alcançado sem a atuação do agente privado, mesmo que o setor público faça tudo certinho.

boas festas,
boas chuvas
e um feliz 2009

Sunday, December 14, 2008

convite




depois de 7 anos sem expor esse ano já vem aí a segunda mostra das minhas aquarelas.


nesta quarta-feira dia 17 de dezembro convido a todos os amigos para a abertura da exposição "estados da alma de BH", as 19 hs, no restaurante 2008, rua levindo lopes 158

as 8 aquarelas que lá estarão são parte de um projeto em homenagem a Belo Horizonte. Em agosto passado eu percorrí a rua Timbiras, da esquina de Rio Grande do Sul a esquina de Grão Pará, desenhando todas as esquinas desses "estados" que fazem parte da alma de BH.

espero todos lá

Thursday, December 11, 2008

Charles Correa III

vamos ver se eu consigo por em palavras um pouco do que foi a passagem de Charles Correia por aqui. Correia tem seu lugar garantido na história da arquitetura porque lá atrás, nos anos 60, provou que tipologias tradicionais com 2 ou 3 pavimentos poderiam garantir a mesma densidade das torres de Corbusier mas com uma qualidade de vida e interatividade muito melhores.

foi basicamente por isso que eu o trouxe a BH. Por achar que a prefeitura esta fazendo tudo certinho nas intervenções nas favelas: cuidando das águas, mantendo a comunidade no lugar, gerando empregos locais..... com a exceção de estar insistindo na tipologia dos predinhos de 3 pavimentos.

Charles mostrou um pouco disso na palestra mas foi no jantar que ele, como bom arquiteto, pegou os guardanapos e começou a mostrar como funciona a coisa.

e pra minha surpresa o homem se revelou um matemático de primeira. Eu nunca tinha visto alguém com uma lógica tão apurada desenhando em guardanapo, normalmente tem-se um ou outro. Ou se desenha ou se calcula.

mas Charles, formado em Michigan (modéstia a parte) e no MIT chuta com as duas nesse caso. E demonstrou, na frente de um Demetri encantado, que a conta que realmente importa é a de área pública por habitante, não o tamanho mínimo das unidades. E seu discurso faz sentido já que nos trópicos podemos usar as áreas públicas o ano inteiro, e é melhor que assim seja. Acostumados com as grades e os muros, as vezes nos esquecemos do fundamental: espaço para interagir.

Charles também mostrou seus projetos recentes em Boston, Toronto e Lisboa, e perguntou muito sobre o Brasil, nosso povo e nossos costumes, sempre traçando paralelos com a cultura indiana.

enfim, foram 48 horas intensas em que as lições de simplicidade e humanidade de Charles e Monika Correa (ela uma artista plástica genial) me encheram de esperança,

esperança na arquitetura.

Sunday, December 7, 2008

ainda Charles Correa




foi um sucesso a estada de Charles Correa em BH.

andar pela Pampulha com Charles e Monika Correa foi um privilégio. As conversas sobre o que Brasil e Índia têm em comum serviram de ponto de partida para muitas discussões arquitetônicas que deixaram encantada a platéia que encheu o auditório da Casa do Baile. Teve até ex-presidente do IAB vindo do Rio especialmente pro evento, o que em deixou especialmente feliz.

e claro a simpatia de Charles e o modo tranqüilo e natural com que ele fala de suas obras me fizeram acreditar um pouquinho mais na possibilidade de melhorar o mundo através da arquitetura.

ficou a promessa de aprofundarmos os laços entre as culturas do “sul” sem a incômoda mediação das instituições do “norte”. Nas palavras de Charles do alto de seus quase 80 anos e 1,90m, políticas passam, os laços culturais ficam.

Wednesday, December 3, 2008

charles correa em BH




embarco amanhã para BH onde recebo no final de semana o mestre indiano Charles Correa para uma serie de eventos/reuniões promovidos pelo studio toró em parceria com a PBH (Casa do Baile e Regional Noroeste).

prometo relatar em breve as conversas com Correa mas fica aqui o convite a todos os colegas mineiros para a palestra dele no sábado, 6 de dezembro, às 17hs na Casa do Baile.

Thursday, November 27, 2008

espaços colaterais


estive em Chicago esta semana e várias vezes me lembrei do Carlos Teixeira porque andei basicamente pelas mesmas ruas que andamos juntos uns 10 anos atrás.
chegando em casa encontro um pacotinho dele com o novo livro “Espaços Colaterais”, que será lançado amanha, sexta-feira, às 19:00h, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional (Av. Paulista, 2073), São Paulo.

Carlos é talvez o mais talentoso pensador e provocateur contemporâneo no Brasil. Morasse ele em São Paulo ou no Rio e ele já seria conhecido nacionalmente. Mas Carlos é bem mineiro apesar de transitar em vários mundos, da AA de Londres a Coronel Fabriciano. O fato é que muito provavelmente Belo Horizonte permite um exercício de reflexão (e interlocução) que leva a obra e dos textos de Carlos Teixeira a um nível por poucos alcançado (vide seu texto sobre o capim).

neste livro, junto com os co-editores Tandi Campos, Renata Marquez e Lou Cançado, Carlos reúne o que mais instigante se fez nas alterosas na última década. Um dos trabalhos, o das próteses de ventilação e iluminação para barracos de Brana Carvalhaes, merecia prêmio internacional pela precisão casada com inventividade.

bom, vou parar por aqui, sugiro a quem estiver em Sampa que vá no lançamento e pra quem não estiver que dê um jeito de ler o livro.

ISBN 978-85-61659-00-4, collateralspaces@gmail.com

Monday, November 24, 2008

500 kilometros em 47 semanas!

o fim do ano está chegando um pouco mais cedo pra mim e não é só porque chego em BH daqui a 10 dias. No natal passado ganhei da Lê um ipod com pedômetro, provavelmente o presente mais útil e prazeroso dos últimos anos.

o negocinho tem sido pra mim um enorme incentivo. Se correr ouvindo música (Benjor e Fernanda Abreu são meus favoritos) já é bom, imagina ter um gadget que computa distância, tempo, ritmo, upload pra uma webpage, calcula totais, médias e ainda compara suas corridas com as de outros amigos.

o resultado é que eu devo ter corrido quase o dobro esse ano.

ainda em janeiro fiz um cálculo por alto de que se eu corresse em média 2 vezes por semana chegaria a 500 km no ano, e foi essa marca que eu alcancei ontem, com 5 semanas de antecedência.

foram 84 corridas de mais ou menos 30 minutos e 6km cada, algumas ótimas como na praia na Bahia outras nem tanto como a vez que levei um tombo da esteira na academia, saindo com alguns arranhões no corpo e muitos mais no ego.

mas se tem uma coisa que me fez feliz nesses 500 km foi perceber que posso usar minha obsessão com dados e medições para levar uma vida mais saudável

e quem sabe celebrar 1000 km em outubro de 2009.

Friday, November 21, 2008

Sejima em busca da extrema simplicidade

o jornal espanhol El Pais mais uma vez nos presenteia, agora com uma preciosa entrevista com Kazuyo Sejima, a quem nao me canso de elogiar.

e' preciso ler a entrevista inteira para perceber o quao Sejima tem sido bem sucedida nesta tal busca da extrema simplicidade. No meio de tantos egos e tanta pavonice a mestra japonesa brilha com sua discricao.

e' de uma humanidade invejavel.

Tuesday, November 18, 2008

depois da crise


a cena é mais ou menos a seguinte: uma crise severa tem origem nos EUA e se espalha pela Europa e depois pelo mundo todo. Países exportadores de commodities perdem receita num primeiro momento mas se recuperam mais rapidamente com ajuda de seus mercados internos menos endividados e portanto menos deprimidos que os dos países mais desenvolvidos. Mas a crise é suficiente para deixar os arquitetos do mundo desenvolvido sem trabalho e eles aos poucos vão se abrindo para oportunidades d’além mar.


parece 2009 mas pode também ser 1929, tão parecidos são os cenários de agora e os de 80 anos atrás.

entre 1929 e 1936 apareceram no Rio de Janeiro Le Corbusier, Marcelo Piacentini, Frank Lloyd Wright e Eliel Saarinem. Quem acha que Corbusier foi só dar umas palestras ou FLW foi só julgar um concurso não sabe da ferocidade com que arquitetos deste porte se dedicam a conseguir grandes projetos. Dão até murro nos outros e talvez por isso sejam tão bem sucedidos na nossa charmosa mas carnívora profissão.

coincidentemente, Libeskind e Sejima só foram dar uma palestra depois de ter visto as imagens do novo prédio do Siza que, ao contrário de Bernard Tschumi e Jean Nouvel, provou ser possível realizar um projeto de altíssimo nível no Brasil. Que eu me lembre o primeiro deste porte desde que Corbusier percebeu que não podia mais chamar de seu o prédio do MEC.

então acho que cabe celebrar o fim desses 70 anos de auto-isolamento buscando perceber que a boa arquitetura tem um poder enorme de disseminação e tanto Siza quanto futuros H+dMs ou Koolhaases ou Pianos ou Saanaas podem contribuir enormemente para ventilar a arquitetura brasileira. Da mesma forma nossos arquitetos tem tido uma presença muito maior no cenário internacional que acabam gerando obras pelo mundo a fora.

usando de todo o meu otimismo disponível eu diria que a novíssima geração brasileira tem tudo para se libertar de antigos dogmas e pensamentos mofados de forma a juntar o melhor da brasilidade com o melhor da universalidade,

como fizeram de maneira tão eficiente os moços de mil e novecentos e trinta e poucos

Saturday, November 15, 2008

que pena que não foi o Piano.....




saiu hoje na Slate a segunda parte da crítica de Witold Rybczynski sobre os dois novos prédios de Renzo Piano na California, agora enfatisando a academia de ciencias em San Francisco. O edifício é lindo e elegante, como alias tudo que conheço de Renzo Piano, e o texto de Rybczynski é excelente.


mas o melhor do texto (e eu nem vou falar aqui da cobertura com plantas nativas e do aproveitamento da água de chuva) é o ultimo parágrafo que trata da relação entre o projeto de Piano e seus vizinhos Herzog e De Meuron:

“The California Academy of Sciences sits across from the new de Young museum of art, which likewise replaced a building damaged in the 1989 earthquake. Two different types of museums, two different architects (the de Young was designed by Swiss Pritzker Prize winners Herzog and de Meuron)—and although both buildings could be described as big boxes, they represent two different visions of the role of the contemporary architect: problem-solving vs. art-making. Of course, all buildings do both, but Piano seems to be more directly concerned with the former, while Herzog & de Meuron's self-absorbed architecture is a result of the latter. Whether you prefer one or the other may be a matter of taste, but standing on the roof of the Academy looking at the de Young, I was struck by its slightly ominous appearance—and how intrusive the 144-foot canted tower is in Golden Gate Park. The California Academy feels much more at home.”

Wednesday, November 12, 2008

torcendo os brises do MEC








o post de hoje trás um projeto que me fascinou pela beleza, pelo desafio e pela referência direta à arquitetura brasileira.

Tsz Yan Ng e Mehrdad Hadighi do Studio for Architecture projetaram em Shantou, China, um edifício multi-uso para uma indústria textil que conjuga show-room, escritórios e andares para a própria fabricação.

a solução barata e extremamente elegante foi inspirada ao mesmo tempo no nosso MEC de 1936e na caixinha de comando de Herzog e De Meuron em Basel.

o fantástico do edifício de Ng e Hadighi foi modelar um brise torcido e perfurado a ser fabricado na China, em concreto, a partir de moldes elaborados em Bufallo, NY.

o resultado está aí nas fotos mas trazendo a discussão para o nosso contexto, em primeiro lugar é importante perceber o impacto que a arquitetura moderna brasileira tem no exterior. Nem Ng nem Hadighi tiveram nenhum contato maior com o Brasil a não ser através dos livros de história da arquitetura moderna e no entanto ao explicar de onde veio a idéia do brise torcido lá estão o MEC e H+dM.

mudando de assunto para a recente contratação de Herzog e De Meuron para um projeto em São Paulo, ainda bem que vamos aos poucos evoluindo e finalmente deixando os autores do genial prédio do MEC onde eles ficam melhor: no século passado. Agora um concurso internacional traria propostas daqueles que serão os melhores arquitetos das próximas décadas e não das passadas. Foi isso que Getulio Vargas e Gustavo Capanema fizeram em 1936, investiram na arquitetura do futuro, mesmo que pra isso fosse preciso cancelar um concurso.

Sunday, November 9, 2008

Eisenmann por escrito

acabei de ler este final de semana a tese de doutorado de Peter Eisenmann: The Formal Basis of Modern Archietcture.

um primor de análise formal, Eisenmann é excelente quando analisa Corbusier, Aalto, Wright e seu favorito Guiseppe Terragni. Como arquiteto são muitas as criticas a sua obra. Eu arrepio por exemplo toda vez que ele fala que faz arquitetura para si mesmo e não se importa com mais ninguém, nem com o cliente que está pagando a conta.

mas como estudioso da arquitetura Peter Eisenmann é fantástico, ler sua tese é entender em detalhes a gênese formal do que de melhor construímos no século passado.

só que tem um detalhe importante, a tese de Eisenman foi publicada em 2006 por uma pequena editora Suíça, 43 anos depois de ter sido defendida em Cambridge. Isso mesmo, entre 1963 e 2006 a tese ficou juntando poeira em prateleiras inglesas. Eisenmann publicou alguns artigos a respeito mas juntando tudo tenho absoluta certeza que pouco mais de algumas centena de pessoas leram a respeito.

no entanto, não conheço nenhum arquiteto digo do titulo profissional que carrega que não diga conhecer a obra de Eisenmann. Mas ao invés de ler sua obra nós consumimos imagens dela apenas. Não estou aqui negando o fato de que a visualidade tem um papel central na nossa profissão e serei o primeiro a defender que uma imagem vale mais que mil palavras.

mas existe algo em uma tese, uma organização lógica e sistematização do conhecimento que não se transmite apenas graficamente.

agora se a tese de doutorado de um dos mais celebrados arquitetos do final do século 20 demora 43 anos para ser publicada, tem algo muito errado acontecendo (ou não acontecendo) entre a produção do conhecimento na academia e a divulgação deste.

Wednesday, November 5, 2008

mais Obama




a fila da foto não é de eleitores esperando a vez de votar ontem mas sim de gente fazendo fila para comprar um jornal hoje de manhã (no caso o NY Times). Jornais do país inteiro esgotaram a tiragem de 50% a mais que o normal por volta das 9 da manhã.


este é o clima hoje nos EUA. A sensação de que o país finalmente acordou e oito anos de Bush-Cheney foram um longo e tenebroso pesadelo.

dava pra ver na cara das pessoas hoje de manhã, o dia bonito de novembro ajudou mas a energia coletiva liberada pela vitória expressiva de Obama é impressionante.

Tuesday, November 4, 2008

Obama




hoje fomos dormir felizes da vida. O reinado do medo e da ignorância explorado pelos conservadores aqui nos Estados Unidos acabou. Se fini. It is over. Vale aqui o slogan de Lula em 2002: a esperança venceu o medo!

e não só isso, o país acaba de eleger um negro ,com nome árabe, nascido no Hawaii, que morou na Indonésia quando criança. A carga simbólica disso é gigantesca, um passo significativo na direção de uma desejável igualdade independente de sexo, cor da pele, religião ou etnia.

aqui em Ann Arbor, o clima é de festa. Os posters de jardim como os da foto acima são tantos que OBAMA foi a primeira palavra que minha filha de 5 anos leu sozinha na rua.

Obama trás uma carga de otimismo e esperança que tem sim um enorme poder de transformação. Só a mensagem de diálogo e diplomacia já seria suficiente para colocar os EUA alinhados com o resto do mundo depois que Bush usou 9/11 para seqüestrar o discurso político.

e assim como Lula em 2002, Obama deve desapontar muita gente porque governar é muito mais difícil do que fazer campanha, mas minha expectativa é de que assim como Lula, Obama deixe um país melhor depois dos oito anos que deve governar.

de qualquer forma, eu deixo de dizer que gosto de 49% dos EUA e passo a dizer que gosto de mais ou menos 52%. A diferença de 3 ou 4% é enorme.

bom dia 5 de novembro pra todo mundo.

Monday, November 3, 2008

salvemos nós mesmos o mercado

há tempos eu ando pensando em escrever sobre a questão dos mercados em BH e nos últimos dias duas notícias chamaram a minha atenção: uma reportagem dizendo que o Iphan quer tombar o Mercado Central e um e-mail sobre a luta para manter o Distrital de Santa Tereza.

mas o fato de ser um tema muito caro à minha família faz com que as idéias nem sempre saiam muito organizadas. Mesmo assim me sinto compelido a externar minha opinião.

faz mais de um ano que Olímpio e Olinto Marteleto (avô e tio-avô da Letícia) fecharam o Armazém Aymoré, depois de 75 (isso mesmo, setenta e cinco) anos de trabalho. Olinto foi embora dessa vida em setembro e Olímpio, aos 92 anos, ainda se preocupa com o Mercado como se preocupa com sua própria vida, isto porque sua vida sempre foi o Mercado. Mas o armazém não existe mais, fechado depois de dar prejuízo por muitos anos.

daí a minha frustração com os movimentos pelo tombamento do Mercado Central ou pela manutenção do de Santa Tereza. Nenhum mercado se sustenta sem uma base forte de clientes e a elite belorizontina que gosta tanto de mostrar o mercado para os visitantes já não faz compras lá há décadas.

pra mim já é tarde demais para os mercados de Santa Tereza e da Barroca, e não adianta restaurar e reabrir porque os pequenos lojistas que fazem destes espaços um espetáculo de cores e cheiros não tem a mínima condição de competir com os sacolões ou com o Epa-Carrefour. A não ser que os moradores da Barroca e de Santa Tereza passem a comprar lá semanalmente, o que eu duvido que venha a acontecer.

basta lembrar do mercadinho da Lagoinha que passou por uma restauração cuidadosa quando o Patrus era prefeito e foi reinaugurado com a presença de toda a intelligentsia de BH para poucos anos depois estar novamente às moscas.

já o Mercado Central pode ser salvo pelo alcance metropolitano que ainda emana dalí. Tanto a base de clientes das classes C e D que passam por lá antes e depois do ônibus, diariamente (e é quem compra de verdade no mercado), quanto das classes A e B que passam por lá de vez em quando (para comprar algo especial ou para mostrar aos turistas) ainda sustentam, no limite, as bancas sobreviventes.

então meus caros, para salvar o Mercado Central e evitar que ele se transforme numa versão melhorada do Shopping Oi, façamos lá as nossas compras do mês

e antes que me acusem de cínico ou de romântico aviso que quando estamos em BH é lá que compramos frutas e verduras, mesmo tendo um Mart-plus a 100 metros de casa.

outras estratégias, por reforma ou por decreto, estão na minha opinião fadadas ao fracasso.

Thursday, October 30, 2008

a GM vendendo geladeiras


muito tem se falado aqui em Michigan sobre a situação pre-falimentar das montadoras de automóveis. A cidade de Detroit há muito já foi pro buraco mas mas três grandes (Ford Chrysler e GM) ainda são extremamente influentes e importantes por aqui. Esta semana a conversa era sobre a necessidade do governo americano ajudar a GM a comprar a Chrysler para evitar a falência das duas!!

ao mesmo tempo, no vôo para Illinois semana passada eu folheava a revista de bordo da cia aérea que mostrava os “lançamentos de Detroit para recuperar o mercado”. Entre as atrações se destacava uma câmera instalada no para-choque traseiro para evitar passar por cima das bicicletas na garagem e uma geladeira embutida entre os bancos dianteiro e traseiro.

enquanto Honda, VW, Subuaru e Toyota desenvolvem carros melhores, mais seguros, mais econômicos e mais bonitos, GM, Chrysler e Ford colocam geladeira e câmeras pra ver se ainda enganam por mais algum tempo. Pois é justamente enganação que eles andam vendendo.

nos anos 90, resolveram acabar com os modelos perua ou “station wagon” que sempre foram o tipico carro de familia, para construir carros com o dobro do peso (e consequentemente o dobro do consumo) chamados de mini-van ou SUV. E na promessa de que gasolina ia ser barata pra sempre eles venderam milhões desses monstrengos enquanto tiravam de linha os similares da velha Belina e da confortavel Caravan.

pois mesmo no Brasil onde os carros são menores e mais econômicos você só acha uma boa perua na VW Parati ou na Fiat Palio Weekend.

sacou a jogada das “big three”? Obrigar as famílias a comprar o dobro de lata pelo dobro do preço e ter o dobro do lucro.

pois acontece que com gasolina perto de U$ 4.00 ninguem quer SUV nem de graça. Essa semana o preço da gasolina voltou pra 2,90 mas porque o crédito está congelado. Quandoa situação se normalizar a expectativa é que o preço fique em torno de 3,50.

enquanto isso, surprise surprise, Honda, Subaru, Toyota e VW estão abocanhando o mercado que agora percebeu que não precisa de tanta lata, nem de geladeira, nem de câmera no para-choque.

como os republicanos estão descobrindo, não dá para enganar todo mundo o tempo todo.

Sunday, October 26, 2008

digital fabrication feita à mão.


acabei de voltar de Urbana-Champaign, onde fica a universidade de Illinois. Chegando lá eu juro que achei, pela minha posição atrás da asa, que o avião estava descendo no milharal.

é que bem no meio do milharal existem duas cidades gêmeas, Champaign e Urbana, sede de uma excelente universidade com quase 40.000 alunos. A escola de arquitetura que sediou esta conferência sobre digital fabrication tem sozinha mais de 800 alunos, sendo 200 no mestrado.

sobre a conferência em si muita conversa e pouca coisa nova, gente usando CNC Router e Laser Cutter para todo tipo de experimentação.
o melhor (tirando as conversas de corredor), foi a palestra de Bill Massie. Massie coordena o programa de mestrado em Cranbrook, a famosa escola de Arts & Crafts fundada por Eliel Saarinen nos anos 20.

num outro post prometo escrever sobre Cranbrook e seus programas não-certificados de mestrado.
o que eu quero escrever hoje é sobre esta linda e paradoxal casa que Massie construiu com 3 alunos dentro do seu estúdio e pôs em exposição pública no gramado da escola. A casa foi toda construída com materiais comprados no Lowes ou Home Depot (as telha nortes daqui).

e o que a casa tem de mais lindo tem também de mais contraditório. A curva do telhado e a oval do banheiro foram cortados a lazer e deveriam celebrar o potencial das ferramentas digitais. Mas enquanto Massie mostrava centenas de fotos da casa sendo construída dentro do estúdio eu não pude deixar de reparar que tudo foi montado à mão, lixado à mão, emassado à mão, pintado à mão.


me lembrei das maçanetas de Warchavchik, fundidas uma a uma a partir de um molde para serem idênticas ao original que era um pedaço de tubo dobrado à máquina.

Thursday, October 23, 2008

Foster volta a New York




a New York Public Library (foto acima) anunciou hoje que Baron Norman Foster (sim, ele tem o título de barão) foi o escolhido para a reforma e ampliação do famoso edifício da 5ª. Avenida construído em 1911.

a discussão que se seguirá promete porque o prédio em questão carrega um forte significado simbólico para NYC e Foster como todo bom arquiteto que se preza vai intervir na estrutura quase centenária para adaptá-la ao século 21, alterando com certeza sua imagem.

uma estrutura de vidro como a do Reichtag ou da prefeitura de Londres é o esperado mas eu gostaria de ver Foster incidindo mais no edifício em questão como Renzo Piano fez com elegância na Morgan library.

digo isso porque acho que depois de toda a destruição promovida pela arquitetura moderna nós vivemos agora um zelo exagerado que faz de qualquer casinha velha um “patrimônio”. É certo que os entusiastas do modernismo (entre os quais me incluo) normalmente esquecem do tando que se demoliu para que nossos lindos modernos pudessem ser erguidos.

e desde que a discussão seja em cima de parâmetros arquitetônicos o debate é muito bem vindo e saudável. Ou alguem imagina o que seria da arquitetura moderna brasileira se o conselho municipal do patrimônio existisse em 1939 e barrasse a construção daquele hotel em Ouro Preto, projeto de um jovem arquiteto de 30 e poucos anos chamado Oscar Niemeyer.

Monday, October 20, 2008

O’Gorman brothers



quando eu dou aula sobre arquiteturas contemporâneas ao sul de do trópico de câncer ou sobre modernismos periféricos, sempre uso um texto de Edward Said na introdução. Em “Orientalism” seu livro clássico, Said explica que a idéia de “oriente” foi inventada pelos europeus para definirem a sí mesmos como ocidentais ou “não-orientais”. Assim Said problematiza toda a construção da oposição oriente-ocidente a partir da origem fictícia do binômio.

bom, eu poderia escrever páginas aqui sobre Said e o orientalismo mas não é sobre isso o post de hoje. Lendo sobre os congressos panamericanos de arquitetura (um livro editado por Ramon Gutierrez em Buenos Aires) descobri a figura de Edmundo O’Gorman, historiador mexicano que escreveu “
Invención de América” em 1958 e influenciou gerações com a idéia de que a américa não foi nunca descoberta e sim inventada, construída.

corri na biblioteca, achei uma tradução de 1962 e adorei o texto de O’Gorman. Basicamente, o mexicano analisa todos os documentos de Colombo, Cabral, Vespucio e cia para montar seu argumento sobre a construção da américa.

em um mundo que se pensava estático e finito, perfeito e inalterável, o novo continente foi por muito tempo chamado de “orbis alterius” em oposição ao “orbis terrarum” que era formado pelos continentes contíguos que hoje chamamos Europa, Ásia e Africa.

me pareceu genial, a américa é desde sempre a “alteridade” que desloca o pensamento eurocentrico. No último parágrafo do livro O’Gorman resume tudo ao dizer que “o processo de invenção do corpo e da geografia da américa forçou o abandono de conceitos insulares e arcaicos de um mundo centrado apenas na história européia.

eu não sabia e nunca ouvi ninguem falar sobre isso mas O’Gorman escreveu mais ou menos a mesma coisa que Said só que 20 anos antes e merece o crédito por tê-lo feito.

e para nós arquitetos cabe ainda revelar que Edmundo era irmão de Juan O’Gorman, arquiteto da vanguarda mexicana que projetou os ateliers de Diego e Frida e a biblioteca da UNAM, antes de abandonar a arquitetura para se dedicar somente a pintura porque a primeira seria “demasiadamente burguesa”.
salve O'Gormans

Thursday, October 16, 2008

Rybczynski on Piano





vale a pena seguir os textos que Witold Rybczynski tem publicado na Slate,

Rybczynski na minha opinião é o melhor critico de arquitetura em atividade (empatado com Luis Fernandez Galiano)

este sobre o novo museu de Renzo Piano em Los Angeles tem tudo que eu gosto numa crítica de arquitetura: é bem ilustrado, bem argumentado (ver a observação sobre os elevadores) e no final depois de checar todos os problemas do edifício (quem nunca construiu que atire a primeira pedra) Rybczynski conclui que a modéstia (ou falta de pretensão nas palavras do autor) é uma das qualidades deste prédio. Gostei e pra dizer a verdade adoraria ver mais prédios modestos com esta qualidade.

semana que vem ele vai escrever sobre o edifício da academia de ciências da California, em San Francisco, já apelidado de “green museum”.

Tuesday, October 14, 2008

it’s the economy again, stupid


o gráfico acima foi publicado hoje pelo New York Times. Paul Krugman, meu colunista preferido e agora prêmio Nobel, já havia escrito várias vezes que questões ideológicas estavam interferindo na capacidade de resposta do governo norte-americano.

o embrólio das últimas semanas trouxe o foco da discussão para a economia e por incrível que pareça o desempenho dos conservadores neste quesito é pífio. Mas não seriam eles os defensores do livre mercado e do capitalismo?

acontece que há muito tempo a direita americana deixou de defender seus valores tradicionais de livre mercado (o governo Bush criou o maior déficit da história) e passou a usar a chamada “guerra cultural” como ferramenta eleitoral.

o voto da direita deixou de ser um voto a favor do mercado e da não intervenção governamental e passou a ser um voto anti-aborto, anti-gay e anti-cultura.


acontece que ser contra o aborto e contra o casamento gay não pôe comida na mesa de ninguém, muito ao contrário, empurra os eleitores para um nível de cegueira ideológica e ignorância jamais vistos. O sucesso desta estratégia desenhada por Karl Rove entre 1996 e 2004 fez os republicanos acreditarem que teriam uma maioria eterna. Basta manter a base com pouca informação (Fox News faz esta parte direitinho) e continuar pondo a culpa na elite educada e cosmopolita das costas Leste e Oeste que na verdade se beneficiou bastante das políticas da era Bush. Os mais ricos nunca concentraram tanta riqueza desde 1929.

só que o endividamento um dia bate `a porta para cobrar. Os trabalhadores que já vinham ganhando pouco vis-a-vis o aumento de produtividade começaram a ver muita gente perdendo suas casas, o valor do bairro inteiro despencando, gasolina custando o dobro e agora os fundos de pensão valendo mais ou menos 60% do que valiam 365 dias atrás.

não há ideologia que resista a perder o emprego, a casa e a aposentadoria privada.

como no Brasil, não há ideologia que resista a crescimento econômico com melhor distribuição de renda e conseqüente indicativo de diminuição da violência.

mas cadê a imprensa brasileira pra mostrar estes gráficos (o americano e o brasileiro) com a veemência do New York Times?

Saturday, October 11, 2008

meu jogo do ano


o ano do centenário vinha sendo de muitas frustrações, nenhum título e algumas derrotas dignas de serem enterradas.

mas hoje, diante do Flamengo e de mais de 80 mil pessoas, o time jogou como merece sua torcida encantada. Baixou o espírito dos grandes: Juninho encarnou Kafunga, Renan foi classudo e oportunista como Mário de Castro e até mestre Telê baixou no banco pra ajudar Marcelo a montar um time que ocupou cada metro quadrado de grama disponível.

e o Galo deu um baile como há muito eu não via. Aliás, pela primeira vez o justin.tv funcionou perfeitamente. Quer dizer, nada é perfeito quando se tem que aguentar comentaristas do Sport TV torcendo descaradamente. Mas isso só me incomodou até o segundo gol, daí pra diante foi só festa.

também vale lembrar que um jogo é muito pouco para tanta paixão.

mas foi em cima do Flamengo, com o Maracanã lotado e tirando deles qualquer chance de competir com Grêmio e Palmeiras pelo título.

aí, dadas as condições, é muito.

Friday, October 10, 2008




no inicio desta semana uma colega aqui em Michigan comentou que escrever um livro era parecido com ter um filho. Por delicadeza eu concordei na hora mas pensando melhor, publicar um livro não é nada parecido com o nascimento das minhas filhas. Fora a deselegância (quase uma ofensa a meu ver) de comparar um ser humano com um objeto, só quem tem filhos entende que o amor que se sente por um pequeno ser com metade dos seus gens é infinitamente maior e absolutamente incomparável.


mas mesmo que fosse uma questão de escala, não conheço ninguem, por mais egocêntrico que seja, que consiga estar apaixonado por um livro de sua autoria quando da sua publicação. Deixa eu ver se consigo explicar melhor: o processo de escrita, revisão, submissão à editora, revisão baseada nos comentários do editor, re-submissão, revisão baseada nos comentários dos pareceristas externos, re-submissão, aprovação final pelo conselho editorial, formatação das ilustrações, obtenção de direitos autorais para as ilustrações, revisão gramatical, re-submissão final e correção das provas é tão exaustivo que no final tudo que a gente sente é um alívio enorme de ter conseguido sobreviver ao processo.


é mais ou menos assim que eu me sinto com a publicação do meu primeiro livro em inglês este mês.


o texto que explica do que se trata o livro está disponível desde ontem no Vitruvius e preferi não repetí-lo aqui.


o livro já está a venda nas grandes redes norte-americanas como a Amazon e com um bom desconto na Barnes & Noble.


ou se alguem preferir me pagar no Brasil por favor mande um e-mail para
fernandoluizlara@gmail.com que eu posso comprar aqui e enviar pelo correio.

mas como eu sou muito cabeça dura ontem mesmo enviei para uma editora a proposta do próximo livro. Assim que for aceita eu conto aqui no parede do que se trata.

Tuesday, October 7, 2008

e o mercado não acredita mais no Mercado


por aqui não se fala em outra coisa. Com o índice Dow Jones 30% abaixo do nível de 6 meses atrás, a turbulência do sistema financeiro internacional bate a porta de todo mundo. São investimentos da universidade que estão adiados, a previdência privada de todo mundo que vale um terço a menos, a impossibilidade de se vender ou comprar um imóvel, e pior, nenhuma solução a vista.

mas vamos ver se conseguimos entender o problema. Para evitar uma recessão em 2000/2001 Alan Greenspan injetou trilhões na economia na forma de credito fácil pra todo mundo mas principalmente para grandes bancos de investimento. Esses créditos chegaram a grande maioria dos norte-americanos na forma de empréstimos para compra de carros, imóveis, roupas e etc. No caso dos imóveis, emprestou-se a juros flexíveis para famílias que não teriam renda para comprar uma casa com um financiamento tradicional. O tal sub-prime se refere ao individuo que não inspira segurança ou seja, cuja renda não comporta um empréstimo do tamanho X.

acontece que a maioria destes sub-prime mortgages foram feitos na forma de ARM ou adjustable rate mortgage. Funciona mais ou menos assim, você paga um juro artificialmente baixo nos primeiros 3 anos depois sua taxa flutua de acordo com o mercado. Isso permitiu que milhões de famílias que não poderiam comprar uma casa em San Francisco ou em New York com um financiamento tradicional pudessem fazê-lo, mas permitiu também que outros milhões comprassem uma casa muito maior do que podiam ou pior ainda, re-financiassem suas casas já pagas para “investir” o dinheiro em consumo. Os norte-americanos que já vinham se afundando em dívidas tinham de repente muita facilidade em contrair mais dívida.

nesse meio tempo, a Washington de Bush e Cheney ignorava escandalosamente o chamado “consenso de Washignton” e produzia déficit atrás de déficit desde 2001.

em 2007 a bolha do sub-prime mortgage estourou, o numero de famílias atrasando pagamentos e perdendo suas casas chegava as centenas de milhares por mês. Com isso o mercado imobiliário inteiro perdeu 10 a 15% do valor piorando a situação: quem pagava x com os juros artificialmente baixos tinha agora uma prestação de 2x ou 3x com sua casa valendo menos que a dívida.

calma que fica pior, como esses financiamentos foram agrupados em pacotes e revendidos a centenas de bancos, o sistema financeiro inteiro ganhou muito dinheiro entre 2001 e 2006 e agora é dono desses créditos “tóxicos” como dizem por aqui.

o governo norte-americano tem injetado trilhões (emprestados) desde que a crise se agravou no primeiro semestre de 2008 mas nada tem adiantado porque basicamente o mercado não sabe qual o tamanho do buraco. Nas palavras de um economista que eu escutei na NPR ontem, se ninguém quer comprar algo este algo não tem valor, são os tais créditos podres. Ninguém consegue estimar o quanto vale (ou não vale) estes créditos podres que os bancos, os fundos de investimento e os fundos de pensão (ou seja nós todos) tem nas mãos. Sem saber quanto vale o patrimônio ou qual o tamanho do buraco do outro, os bancos pararam de emprestar uns pros outros. Por conseqüência, pararam de emprestar também para empresas grandes e pequenas, da General Motors ao supermercado da esquina.

basicamente, ninguém confia em ninguém, a mão invisível do mercado travou.

Thomas Friedman e Paul Krugman (um de direita e outro de esquerda) do New York Times já vinham falando a muito tempo que os norte-americanos estavam enriquecendo vendendo casas uns aos outros com o dinheiro emprestado.

uma aposta de mais ou menos 1 trilhão de dólares que agora está sendo cobrada na conta de todo mundo.

Friday, October 3, 2008

redução ao absurdo ou o fim da arquitetura?

Hoje recebi um e-mail do grupo Doors of Perception com a uma provocação feita pelo fundador do grupo John Thackara. Como a discussão está pegando fogo aqui no parede e tanto o Alencastro quanto o Alberto andam propondo demoliçoes aí vai a minha contribuição:

"What would architects design, if they did not design buildings? My question isnot a rhetorical one. The inputs and outputs of industrial society are wildly outof balance - and that includes its buildings and infrastructure. We have reachedthe end of a brief era in which we could burn cheap fossil fuel, and despoilecosystems, mindless of the consequences. We need to re-imagine the built worldnot as a landscape of frozen objects, but as a complex of interacting ecologies:energy, water, mobility, food. Our life-sustaining ecologies, especially, needto be nurtured, not swept away, built over, or diverted. The need for newbuildings will be rare. Sometimes the design choice will be to do nothing".

tradução minha:

“O que os arquitetos projetariam, se não projetarem mais edifícios?” Minha pergunta não é retorica. As ofertas e demandas da sociedade industrial estão descontroladamente desequilibradas - e isso inclui edifícios e infrastructura urbana. Nós chegamos ao fim de uma era em que podíamos queimar combustível fossil barato, e transformar ecosistemas sem pensar nas conseqüências. Precisamos agora re-imaginar o mundo construído não como uma paisagem de objetos congelados, mas como um complexo de ecologias de interação: energia, água, mobilidade, alimento. Os ecosistemas que sustentam a vida no planeta, em especial, precisam ser cuidados, não destruídos, construídos por cima, ou ser desviados. A demanda por edifícios novos será rara. Às vezes a escolha do projeto será não construir nada”.

ok, eu sei que a proposta de Thackara é radical e implica implodir a prática da arquitetura tal como a conhecemos, mas não deveríamos estar explorando isso pelo menos nas escolas? Não deveríamos nos preparar para todos os worse-case-scenario assim como engenheiros preparam teóricamente as estruturas para um terremoto e médicos preparam teóricamente o sistema de saúde pública para uma pandemia?


Tuesday, September 30, 2008

vingança da natureza?




eu confesso que sou obcecado pela relação entre água e arquitetura

mas a imagem acima merece ser difundida.
trata-se da famosa casa Farnsworth de Mies que foi inundada pela primeira vez em 1956 e depois em 1996. No ultimo dia 14 de setembro, apenas 12 anos depois da última cheia, caiu outra “chuva de 100 anos” e a casa sofreu sua pior inundação, com a água chegando a 40cm acima do piso principal (130cm acima do terreno natural).

ano passado Jonathan Hill (Bartlett) esteve aqui e sua palestra foi toda sobre a relação entre a arquitetura e os elementos (chuva, gelo, calor, vento) tendo a imagem da casa Farnsworth inundada em 96 como foco principal da esquizofrênica relação entre o modernismo e a natureza circundante.


agora a própria fundação Farnsworth que administra a casa criou um blog para que possamos todos acompanhar o processo de limpeza e restauração.


e tem gente que ainda resiste a idéia de que o aquecimento global terá um impacto significativo na forma como fazemos arquitetura. Pode perguntar pra quem teve seus vidros e telhas quebrados em Belo Horizonte na pior chuva de granizo da história que coincidiu com a inundação da Farnsworth aqui em Illinois.

Sunday, September 28, 2008

design and ethics

acabei ontem de ler o novo livro de Thomas Fisher, Design and Ethics, publicado este ano pela Elsevier. Tom Fisher é um dos meus autores favoritos no cenário acadêmico norte-americano. Ex-editor da revista Progressive Architecture (nos seus melhores tempos, antes de ter sido comprada e fechada pela concorrente) e atualmente é dean da escola de arquitetura de Minnesota.

o livro não é o melhor do autor nem entraria na minha lista dos top 50, é meio desfocado, as vezes parece ter sido escrito para o público em geral, mas é demasiadamente arquitetônico sem sê-lo o suficiente. Deu pra entender? Pois é, eu também não saquei direito qual a intenção principal do autor.

mas o Tom Fisher acerta ao trazer o tema da ética para a discussão sobre arquitetura. O texto é muito bem embasado no que diz respeito a este ramo da filosofia e muito bem amarrado com as questões contemporâneas do design.

por exemplo, Fisher vai direto ao ponto quando argumenta que a arquitetura precisa servir as pessoas e deixar de se preocupar com a beleza e a ordem como fins em si mesmas. Discorrendo sobre o panorama norte-americano (mas serve também para os jovens da pseudo-vanguarda brasileira), Fisher demonstra como a ênfase na abstração vai corroendo o papel social da arquitetura. Numa das melhores passagens do livro o autor explica como a pseudo-vanguarda cria uma escassez artificial. Nada é bom o suficiente então deve-se sempre inventar a próxima moda que de novo não tem nada, enquanto a verdadeira escassez (de qualidade na construção em geral) nunca é devidamente atacada.

a mudança ética de que fala Tom Fisher passa por uma mudança de discurso, pela inclusão de todo tipo de construção como objeto de estudo da arquitetura e não apenas aqueles projetados por arquitetos famosos, argumento que faz parte da maioria dos meus escritos. Fisher acerta também ao dizer que nossas conversas abstratas são uma barreira que atrapalha o entendimento do nosso trabalho por parte da sociedade.

em resumo, não é o melhor texto de Thomas Fisher mas é uma discussão oportuna e importante.

Monday, September 22, 2008

livros e mais livros




na ultima seção de comentários do parede duas pessoas mencionaram que gostariam de ler mais sobre arquitetura contemporânea.

então enquanto eu olhava para minha estante hoje em busca de inspiração para um outro texto fui selecionando os livros que eu recomendaria para estudantes e colegas arquitetos.

Palladio’s Children de N.J.Habraken já nasceu clássico ano passado. Habraken foi diretor do MIT por muitos anos e é holandês da turma de Bakema e Hertzberger que conquistou o mundo com seu pragmatismo 20 anos antes de Koolhaas ter entrado numa escola de arquitetura. Vale a pena mesmo e eu o coloco como primeiro da lista.


Mais profundo e mais abstrato são as Differences de Solá-Morales. Solá-Morales influenciou gerações da Espanha e na América Latina e Differences é um resumo de sua obra interrompida precocemente uns anos atrás


La Modernidad Superada de Josep Maria Montaner não está na foto acima porque está emprestado mas é uma leitura precisa do modernismo tardio com muitos elogios aos brasileiros. Acho que já foi traduzido para o português.


Architecture after Modernism de Diane Ghirardo é imperdível. Também já traduzido para o português, Ghirardo dá um show ao explicar a arquitetura do final do século XX junto com as transformações no capitalismo da era Reagan/Thatcher


Architecture and disjunction de Bernard Tschumi é obra fundamental para entender a arquitetura contemporânea principalmente no que diz respeito a seus paralelos com as outras artes ou disciplinas criativas em geral.


Eupalinos é um livrinho lindo de Paul Valery cuja edição brasileira tem um excelente prefácio do saudoso Joaquim Guedes. Imperdível para todos que amam a arquitetura e a filosofia, alem de ser muito melhor que qualquer fenomenologia.


O lugar da crítica é uma coleção de ensaios de Ruth Verde Zein que pra mim é quem melhor tem escrito no Brasil já há muitos anos. Nem precisa explicar muito.


O Alvo do Olhar Estrangeiro é a tese de doutorado de Nelci Tinem, professora da UFPB. Nelci faz um passeio pelas revistas de arquitetura dos anos 50 pra demonstrar como os interesses de cada publicação moldam suas decisões editoriais.


O projeto arquitetônico de Alfonso Corona-Martinez também existe em português e é um clássico dos estudos do ato de projetar em si. Fundamental pra todo mundo que quer entender direito o que se passa no processo dos primeiros croquis até a resolução espacial ganhar seu caráter definitivo.


e por último para aqueles que estão cursando mestrado ou doutorado, Architecture Research Methods de Linda Groat e David Wang é um manual de introdução às diversas técnicas de pesquisa em arquitetura que acredito ser o melhor livro no assunto.

e por último fica minha sugestão de que todo mundo contribua nos comentários para que esta lista cresça e se torne mais abrangente que a minha pequena e arbitrária seleção

Thursday, September 18, 2008

menos desigualdade (ainda que tardia e lentamente)


esta semana o parede bateu todos os recordes com centenas de visitas e mais de 50 comentários. Pensando nestes comentários e no debate entre visões de mundo a direita e a esquerda me lembrei várias vezes das conversas que tive com um pedreiro da minha última obra em BH, em 2004. Para preservar sua privacidade (embora sejam remotas as chances de que ele ou alguém que o reconheça venha ler este post), vou chamá-lo apenas de ZA.

pois bem, ZA tem quase 60 anos, trabalhou a vida inteira como pedreiro e junto com seu filho que é pintor construiu uma casa de 300 metros quadrados na entrada do aglomerado da serra onde mora com sua mulher e as famílias do filho pintor e da filha divorciada com 2 crianças.

e foi sobre uma destas crianças que rodou a conversa que tanto me marcou. ZA estava desesperado em 2004 porque seu neto, na época com 15 anos, não mostrava disposição para trabalhar com o avô e como todo adolescente questionava se valia a pena carregar tijolo e areia 8 horas por dia para ganhar 300 reais no final do mês. E o pior é que bem na frente da casa de ZA um grupo de meninos da mesma idade do seu neto tinha montado uma central de vendas de trouxas e papelotes onde faturavam por dia o que um servente de pedreiro demorava um mês inteiro para receber.

me lembrei muito desta história porque ela tem todos os componentes do drama da desigualdade. Tendo trabalhado a vida inteira ZA tinha agora uma vida minimamente confortável na sua casa simples mas espaçosa. Sua ética de trabalho é invejável, ZA nunca chegou na obra depois das 7:30 e nunca saiu antes das 18 horas, tendo construído sua casa trabalhando também em milhares de domingos ao longo da vida. Mesmo assim sua situação era extremamente vulnerável. Seu único patrimônio (e único apoio para uma velhice menos pobre) é a casa na favela que ele não consegue vender nem alugar por que alem de não ter a propriedade legal, fica em frente a uma boca-de-fumo e ninguém quer.

bom, esse ano visitando as obras da prefeitura no aglomerado da serra encontrei o filho pintor do ZA que me disse que o sobrinho estava trabalhando de armador para uma construtora grande, com um salário de R$ 1200, pensando em casar e etc...

o moço de 20 anos percebeu que não valeria a pena se arriscar no tráfico para morrer ou passar o resto da vida entrando e saindo cadeia, destino de TODOS os seus amigos da rua que tentaram a vida por aí. Ajudou também o fato de que BH passa por um boom da construção civil, o menino trabalhou uns meses na própria obra da prefeitura, aprendeu a cortar e dobrar ferragem e se mandou para ganhar mais na iniciativa privada.

resumindo, o moço flertou com a marginalidade porque o resultado imediato parecia muito melhor que carregar lata de massa por décadas a fio, e se salvou porque tinha de um lado a seriedade e a correção do avô como exemplo, e de outro um programa da obras da prefeitura que se preocupa com a qualificação da mão de obra local e sua inserção no mercado de trabalho.

bom, dei uma volta danada pra argumentar que a melhoria da qualidade de vida depende de valores à esquerda e à direita. Sem a ética do trabalho herdada de ZA o menino teria se perdido na marginalidade, mas sem os programas da prefeitura ele muito dificilmente conseguiria um emprego melhor que o de porteiro com sua 8ª série incompleta.

e assim aos poucos a vida vai melhorando como mostra o resultado da PNAD 2007 que saiu hoje.

Monday, September 15, 2008

tantas oportunidades para tão pouca arquitetura



o blog esteve tão quente na semana passada (ver comentários) que os assuntos foram se acumulando.

no dia 11 de setembro queria ter escrito sobre a inauguração do memorial as vítimas do pentágono projetado pelo Keith Kaseman e pela Julie Beckman do KBAS. Depois veio o artigo de Ouroussoff no NYTimes de ontem comparando a desolação de New Orleans e o fracasso do World Trade Center com a construção frenética da China.

então o post de hoje junta as duas coisas para falar de tantas oportunidades perdidas. A começar por New Orleans que três anos depois da inundação ainda tem áreas onde parece que a água acabou de secar. Eu estive lá em Março de 2007 e a cena é desoladora, milhares de casas condenadas e outros milhares de lotes vazios já demolidos. E nenhuma resposta significativa ao desafio de como construir uma cidade melhor para o século XXI. O mais rico e militarmente mais poderoso país do mundo não conseguiu dar uma resposta a altura da tragédia que se abateu sobre New Orleans.

agora a comparação de Ouroussoff também é fraca. A china está se enchendo de edifícios desenhados por arquitetos famosos mas isso está longe de ser uma resposta adequada ao desafio de construir a cidade do século que se inicia. Ninhos de pássaro e sedes de TV servem como ícones de um crescimento acelerado mas não se traduz exatamente em qualidade de vida como Barcelona, Paris ou São Francisco. Ou alguem aqui preferia viver em Bilbao, Kuala Lumpur ou mesmo Vegas a viver nas três cidades supra-citadas.


mas no meio de tantas oportunidades perdidas vem Keith e Julie recém formados pela Columbia (2001) vencer o concurso para o memorial das vítimas do 11 de setembro no pentágono. Um desenho limpo, simples e capaz de captar simbolicamente o trauma vivido por este país (do qual o mundo todo sofre a ressaca até hoje).

184 bancos de aço, um para cada vítima, alinhados na direção do avião quando se chcou contra o prédio. Keith e Julie se mudaram para Alexandria, Virgínia e trabalharam por 5 anos no projeto que foi inaugurado na semana passada, desde ajudando a levantar doações até fazendo no CNC Router os moldes de cerâmica que serviram para fundir todas as peças de aço.

as grandes oportunidades parecem perdidas, New Orleans e Ground Zero continuam como dois grandes buracos na alma de um país traumatizado e agora também quebrado financeiramente (muito por conta de erros decorrentes do trauma de 9/11)

enquanto isso uma nova geração de arquitetos se agarra com vontade às pequenas oportunidades e vão aos poucos renovando o ar carregado que paira por aqui.

Thursday, September 11, 2008

do parede para a AU



um post despretensioso de exatamente um ano atrás acabou se transformando em uma matéria mais elaborada para a Revista AU. Para tanto eu acabei entrevistando os arquitetos Stephen Kieran e James Timberlake que aliás foram super atenciosos e prestativos.

deixo aqui meu agradecimento a toda equipe da AU e em especial a Simone Capozzi pelo convite que me permitiu mostrar a arquitetura de Kieran e Timberlake construída aqui na minha Ann Arbor para colegas do Brasil inteiro,

o texto completo pode ser lido no site da AU

Tuesday, September 9, 2008

porque os arquitetos nunca se aposentam?

vale a pena ler o divertido artigo de Witold Rybczynski (professor da University of Pennsylvania) sobre a longevidade dos arquitetos que saiu essa semana na Slate.

Rybczynski nos lembra que Corbusier projetou Ronchamp aos 63 anos, Louis Kahn projetou o Salk Institute aos 64, Gehry desenhou Bilbao aos 68 e que Frank Lloyd projetou seu Guggenheim bem depois dos 80.

Rybczynski não citou o nosso Oscar mas vale perguntar: será que algum projeto dele das últimas décadas vai ficar para a história como os acima citados ou vamos sempre nos lembrar que nosso arquiteto maior desenhou Pampulha aos 34 anos?

Sunday, September 7, 2008

viva ela




o post de hoje é uma homenagem a minha melhor metade. Letícia está colhendo este ano os frutos dos últimos anos de trabalho dedicado e merece que isso seja celebrado.


primeiro foi o relatório sobre gravidez na adolescência para a ONU como parte do programa Objetivos do Milênio.


depois foi a revista Veja que usou seu trabalho na reportagem de capa da edição de 30 de julho passado apesar de muito “vejamente” ter citado só o co-autor americano mesmo depois de duas horas de conversa telefônica com ela. Mas tudo bem, o que importa é que a análise refinada dos demógrafos está sendo divulgada, ajudando a derrubar a idéia atrasada mas ainda tão presente (principalmente na direita) de que vivemos uma explosão populacional.


agora esta semana veio o prêmio de melhor paper publicado concedido pelo IPUMS (International database for cross-temporal and cross-national research) do Centro de População da Universidade de Minnesota.


tim-tim, cheers.

Thursday, September 4, 2008

e a história se repete como farsa

num primeiro momento eu até achei que a indicação de Sarah Palin para vice-presidente na chapa republicana era um sinal de que as história estava andando para frente apesar do caminho tortuoso.

ontem o discurso dela na tal convenção acabou com qualquer fantasia de que pode haver evolução ou mesmo maturação na direita norte-americana.

a mulher é uma piada de mau gosto que faz George Bush II, o bronco, parecer um intelectual refinado. Nas palavras do meu amigo Dan Silverman, quando Bush fazia pose de sujeito normal com quem você tomaria uma cerveja era mentira eleitoreira pois ele é filho de ex-presidente e tem diploma de Yale.

quando Sarah Palin diz ser uma hockey-mom que governa o Alaska e pretende governar os EUA como governa seus cinco filhos é verdade!


incrível mas para continuar enganando a metade ignorante dos norte-americanos em cima de discursos anti-aborto, anti-gay e anti-imigração a elite republicana pretende eleger para o cargo de vice-presidente uma pessoa cuja maior “qualificação” é ser uma boa mãe de família que levou estes valores para a prefeitura de sua cidadezinha de 9.000 habitantes e depois virou governadora de um estado de 600.000 habitantes (pouco maior que Juiz de Fora ou pouco menor que Uberlândia)!

pobre Marx, se ele soubesse quantas vezes a história ia se repetir como farsa!

postscript na sexta dia 5 de setembro: o texto de hoje do Paul Krugman no New York Times explica melhor tudo isso:

Monday, September 1, 2008

sobre a imensidão


hoje eu saio totalmente da escala da arquitetura para contar algo que me deixou muito feliz, encantado mesmo, neste final de semana.

com o projeto 365specialdays evoluindo bem, eu prometi a mim mesmo que não ia gastar nem um centavo ganho com as aquarelas em coisas banais como as contas nossas de todo dia.

pois com essa idéia na cachola eu comprei um telescópio pequeno (700mm), um presente pras minhas filhas e pra mim mesmo, ainda que atrasado por um quarto de século mais ou menos.

e não é que o bichinho é incrível. No sábado deu pra ver Venus do tamanho de uma moeda pequena com suas nuvens e tudo, e ontem a noite foi dominada por Júpiter e suas luas. Nunca imaginei que ia conseguir ver com tanta precisão esses dois planetas e não vejo a hora de ver Marte e a mesmo a Lua que tem surgido tarde demais para alguém que acorda ainda no meio da noite para dar mamadeira.

e o melhor de tudo foi ver minha filha de 5 anos entusiasmada, querendo aprender tudo sobre planetas e estrelas, querendo entender como eles se movem no céu e porque eles não trombam com a nossa Terra se todos flutuam no espaço.

agora vou montar o telescópio toda vez que a rotina começar a tomar conta. Faz a gente se sentir tão pequeno e ao mesmo tempo tão enorme.

Friday, August 29, 2008

certo por linhas tortas


foi de certa maneira uma surpresa a escolha, anunciada hoje, de Sarah Palin como vice na chapa de John McCain. Governadora do Alaska e extremamente conservadora, Palin está longe de ser o meu modelo de mulher no poder (Hillary seria um pouco melhor mas ainda longe do ideal).

mas o fato de a extrema-direita norte-americana ter de engolir uma mulher no commando do país (e mais importante ainda, das forças armadas) já sinaliza uma vitória, ainda que simbólica, da igualdade sobre a tradição machista. Se eleito, McCain será o mais velho norte-americano a assumir ao presidência aos 73 anos e escolha de Sarah Palin nestes termos significa pra mim duas coisas:

1) uma esperteza enorme dos republicanos que fazem qualquer coisa para ganhar eleição

e

2) a confirmação de que para ter alguma chance nesta eleição eles tiveram de se dobrar aos tempos e colocar uma mulher de vice para concorrer com um negro de sobrenome árabe.


por mais conservadora e retrograda que Palin seja, é mulher e mãe, e isso simbolicamente já é alguma coisa.

ou seria mais uma armação eleitoreira de Karl Rove?

ps: domingo dia 31/8, 48 horas foram o bastante para que eu percebesse a extensão da direitisse da dona Palin. Corrigo o que escrevi acima com a seguinte comparação: a indicação dela equivale a nomear um gay homofóbico ou um latino anti-imigração (o que Bush já fez com Albert Gonzales.

Saturday, August 23, 2008

que venha a dúvida

acabei de chegar em Ann Arbor e estas 24 horas vagando por aeroportos e aviões são sempre cheias de dúvidas pra mim. Vale a pena? Porque? Será que é isso mesmo? As meninas não estariam mais feliz num lugar só

e ao chegar me deparo com o excelente texto de Ana Luiza Nobre sobre Joaquim Guedes que saiu no número especial de Arquitextos. Eu escrevi outro dia que Guedes foi quem melhor se esquivou da síndrome do gênio criador, havia algo nele que evitava o exagero gestual do desenho que é tão presente (e tão nocivo) na arquitetura brasileira da segunda metade do século XX.

Ana Luiza Nobre matou a charada: é a dúvida. A dúvida que devia sempre estar presente mas que tantas vezes se deixa dominar pelo ego, tornando o processo de criação arquitetônica auto-centrado, quase autista. Afinal, entre milhares de soluções possíveis para cada problema arquitetônico, porque seguir esta e não aquela?

a genialidade de Guedes estava em cultivar a dúvida. Perguntar melhor para responder melhor.

e diante de tanta dúvida, a gente só espera estar fazendo as perguntas certas. Ou seria esta mais uma dúvida importante pra se cultivar?

Wednesday, August 13, 2008

pamphlets


hoje foi dia de faxina profunda aqui na rua Timbiras. Retiramos centenas de livros das estantes, enchemos vários panos de chão com a sujeira das prateleiras e recolocamos tudo de volta menos quatro sacos de lixo grandes.

apesar do corpo exausto e dos espirros a tarde toda, foi um ótimo exercício. Descobrir livros antigos perdidos na estante é como folhear um álbum de fotografias, tantas as imagens e as lembranças que voltam a mente.

no meio de tantos um em especial chamou a minha atenção. A coleção dos 10 primeiros Pamphlets reeditados pela Princeton Architectural Press em 1998.

os PAMPHLETS foram exatamente o que o nome diz, panfletos de arquitetura, de poucas páginas, edições pequenas e baratas que Steven Holl e William Stout lançaram esporadicamente a partir de 1978.

mas o que prendeu meu olhar mesmo foi o paralelo com a Revista Pampulha, editada exatamente na mesma época aqui em BH. As mesmas investigações formais, a mesma vontade de publicar, o mesmo improviso genial que acaba catalizando todo um movimento.

fica aí minha sugestão para Sylvio e Gabi, uma reedição comemorativa dos 30m anos de Pampulha juntando todas os números da revista. Que tal?

Thursday, August 7, 2008

que o detalhe nunca seja anônimo





hoje este blog volta ao doloroso papel de obituário para homenagear Miltom Ramos que faleceu esta semana em Brasília. Arquiteto muito pouco conhecido apesar de ter projetado aquele que eu considero o mais bonito aeroporto do Brasil, o de Confins aqui em Belo Horizonte.

arejado, generoso e impecavelmente detalhado em concreto que continua lindo depois de 25 anos


Miltom Ramos foi ainda o responsável pelo detalhamento do Itamaraty e de vários outros projetos de Oscar Niemeyer em Brasília.

ah como anda fazendo falta alguém na equipe do genial centenário alguém que soubesse detalhar como Miltom Ramos.

Wednesday, August 6, 2008

parabéns Carsalade

ontem foi dia de festa na UFMG com a posse de Flávio Carsalade na diretoria. Carsalade é sem dúvida o mais preparado dos arquitetos para o exercício da liderança, tendo sido presidente do IAB, do IEPHA e prefeito regional da Pampulha. Isso tudo sem deixar de projetar ou de escrever. Ano passado além de um livrinho saboroso sobre a Pampulha Carsalade ainda arrematou mais de 700 páginas de sua tese de doutorado na UFBA. A escola de arquitetura da UFMG está seguramente em boas mãos.

mas na conversa em meio a festa ouví de uma pessoa querida a seguinte pérola: "quem ainda não entrou numa 'federal' tem de publicar muito mesmo, nós
aqui de dentro não temos esta urgência não".

não sei se a pessoa nunca ouviu falar da avaliação da capes, ou acha que publicação é só pra encher relatório, ou incorpora a mentalidade acomodada de funcionário público, ou acredita mesmo que o cargo numa instituição federal de ensino superior lhe dá o privilégio de disseminar o conhecimento sem precisar se esforçar para publicar.

de qualquer forma, Flávio Carsalade tem pela frente desafios bem a altura de suas capacidades.

Saturday, August 2, 2008

convite


aproveito o blog para convidar a todos para a

abertura da exposição 365 dias comuns, na próxima segunda-feira 4 de agosto, as 19 horas no cozinha de minas, rua gonçalves dias 45, belo horizonte, mg


365 dias comuns

arte inspirada na vida cotidiana


durante o ano de 2007 quase 100 pessoas participaram do projeto 365 regular days, escolhendo pela internet um dia do ano e escrevendo algumas linhas sobre a sua rotina. Para cada uma delas foi pintada uma aquarela e esta exposição reúne uma seleção destas.

ver www.365regulardays.com e também www.365specialdays.com

Thursday, July 31, 2008

sempre vanguarda

acabei de sair do escritório do Sylvio Podestá e da Gaby Aragão que me mostraram a última idéia deles:

colocar na internet, disponível para todo mundo, o conteúdo integral das revistas Vão Livre e Pampulha (1979-83), documentos fundamentais para se entender a arquitetura brasileira dos anos 80.

o link é este, breve todas as publicações da AP estarão disponíveis. Sylvio e Gabi tem um histório respeitável de publicações de arquitetura e continuam empolgados.

uma vez vanguarda, sempre vanguarda.

Monday, July 28, 2008

luto

este blog está hoje de luto oficial por Joaquim Guedes.

sua lucidez e seu rigor vão fazer muita falta.

Friday, July 25, 2008

lições teóricas e práticas de sustentabilidade

a pedidos da Cleo e do Marcão eu vou começar contendo sobre a minha apresentação em Oxford. Meu trabalho tinha o título propositadamente provocativo de que as mudanças climáticas seriam a última chance para se reconciliar projeto e pesquisa no ensino de arquitetura.

começo voltando aos anos 60 e 70 quando teoria era assunto de projeto, não de história, e repasso as mudanças dos anos 80, época em que a arquitetura se lançou numa aventura pós-estruturalista de validar o discurso acima de qualquer coisa, jogando a pesquisa empírica pra escanteio e com ela a pesquisa sobre e através do projeto.

e isso se deu muito também por culpa dos projetistas teóricos dos anos 60 e 70 (Christopher Alexander era um deles) que pretenderam cientificisar e sistematizar o processo criativo. Em busca da famosa “caixa transparente” desprezaram o poder criativo da arquitetura, menosprezaram a experimentação e quiseram mudar o modelo de ensino baseado no studio (atelier) pelo lado de fora, sem participar seriamente dele.

acontece que na minha visão o studio/atelier é a parte mais fundamental do ensino de arquitetura. Em Oxford todo mundo com menos de 40 anos concordava com isso e quase todo mundo com mais de 50 mostrava uma dificuldade enorme em perceber que a pesquisa científica pode e deve ser jogada dentro do studio para apoiar em sólidas fundações o processo criativo. Isto na minha opinião é o que de melhor a pesquisa pode oferecer ao studio, ensinar aos alunos os rudimentos da linguagem da pesquisa para que eles possam 1) se basear em informações menos fantasiosas que o discurso pós-estruturalista e 2) desenvolver uma possibilidade de diálogo com outras disciplinas que não apenas as humanidades.

pensar é fundamental mas e ensinar a pensar é uma das mais importantes funções da universidade mas não basta, é preciso saber mais sobre o fazer e incorporar o fazer na nossa investigação espacial de studio/atelier.

foi mais ou menos isso que apresentei ressaltando que a urgência das mudanças climáticas nos dá uma oportunidade de ouro para que a pesquisa se incorpore ao ensino de arquitetura e também para que a profissão reconquiste seu papel social que anda bem esgarçado depois da pós-modernidade.

mas para mim, no meio de tantas excelentes conversas sobre o futuro do ensino de arquitetura, ficou uma humilde lição de sustentabilidade. Como minha mala nunca chegou a Oxford, tive de me virar com o mínimo possível nesses 3 dias. Uma camisa, 2 cuecas e 2 meias foi tudo que comprei na caríssima Inglaterra, além de escova de dentes e lâmina de barbear. Os confortos fizeram falta falta: a câmera ficou sem bateria e a corrida pelos lindos gramados ingleses ficou pra uma outra vez. Mas que podemos viver com muito menos, ah podemos.

Wednesday, July 23, 2008

the oxford debate

o debate que abriu a conferência de Oxford foi curioso, talvez até inusitado eu diria.

a provocação inicial (a pratica da arquitetura estaria melhor com ou sem escolas?) foi apresentada por Peter Buchanan com argumentos interessantes: excesso de teorização pós-estruturalista, deficiência da capacidade de desenho, pouco conhecimento tecnológico e por aí vai, nós sabamos de cor os defeitos do ensino contemporâneo.

mas a resposta de Peter Cook em defesa das escolas foi muito mais sofisticada: a começar pela criação das instituições de ensino no final da idade média passando pelos avanços que a sistematização do conhecimento trouxe para a humanidade.

e Jeremy Till deu o golpe de misericórdia ao perguntar: se não tivermos escolas de arquitetura teremos o quê? Corporações de ofício formando aprendizes? Isto seria voltar ao tempo em que havia apenas treinamento, educação é outra coisa, implica questionar, pensar.

mas ao longo do dia de ontem as críticas voltaram a recair sobre o ensino atual. Christopher Alexander abriu o dia com uma apresentação péssima, mal articulada, mal pensada. De que planeta veio esse cara e como ele conseguiu ser tão influente sendo tão confuso?

Richard Lorch fez na miha sessão uma brilhante defesa da necessidade de se trazer a pesquisa pra próximo do ensino de graduação para que os arquitetos possam ter um diálogo melhor com os outros profissionais da construção.

e o dia acabou com uma recepção oferecida pelo príncipe de Gales em que foi lido um texto dele mesmo, o Charles, defendendo uma volta aos valores tradicionais como forma de enfrentar os desafios do aquecimento global.

em resumo, a velha geração está tao encastelada em suas velhas e desgastadas verdades que não consegue nem perceber a velocidade com que as coisas mudaram nos últimos anos.