Monday, October 12, 2009

os ossos de Descartes / Descartes bones



o livro que ando lendo essa semana com grande entusiasmo se chama Descartes Bones e percorre a trajetória da separação entre religião e ciência seguindo a trilha dos ossos e das idéias de Rene Descartes depois de sua morte em 1650.


assim muito rapidamente, Descartes fundou a ciência moderna com seu método de questionar tudo que pudesse ser minimamente questionável. No final da corda estava a premissa inquestionável de que “eu existo”, o famoso cogito ergo sum.


acontece que a influência do pensamento deste homem dominou a ciência por séculos mas aos poucos vai sendo superada, principalmente no que tange à separação entre corpo e mente que hoje sabemos estarem intrinsicamente ligados.


fica aqui o meu pensamento cartesiano da semana: uma idéia pode existir na sua mente como abstração mas ela nao se concretiza no mundo real até que seja de alguma forma rabiscada. Uma separação mente/matéria que se mostra ainda verdadeira no ato de projetar.


e o fato de Descartes ter criado também a geometria analítca, pedra fundamental do processo de projeto desenvolvido pela academia francesa e usado por nós até hoje, me permite pensar os arquitetos (e todos os profissionais que tratam do desenho de objetos no espaço) como os últimos cartesianos.


e como amanhã voo para o Projetar em São Paulo estarei o resto da semana rodeado de alguns dos meus mais queridos amigos cartesianos




the book that I am reading this week with great enthusiasm is Descartes Bones in which the author tracks the separation between religion and science following the path of the bones and the ideas of Rene Descartes after his death in 1650.


superficially speaking, Descartes established modern science with his method of questioning absolutely everything. In the end of the rope it was the unquestioned premise that “I exist”, the classic cogito ergo sum.


the influence of his thoughts dominated science for centuries but is slowly vanishing. Especially in terms of the separation between body and mind that we know today to be intrinsically interdependent.


so my cartesian thought of the week is: an idea can exist in your mind as an abstraction but it does not materialize itself in the real world until it is sketched in some form. A separation mind/matter that still holds true in design.


the fact of Descartes also invented the analytical geometry, basic foundation of the design process developed by the French academy that we still use allows me to think of architects (and for that matter any design professional) as the last cartesians.


since tomorrow I will be flying to the Projetar conference in São Paulo I will spend the rest of the week with some of my dearest cartesian friends.

Thursday, October 8, 2009

o momento do Brasil / Brazil's momentum

vale a pena ler a Foreign Policy analizando o momento brasileiro e dando boa parte do crédito para Celso Amorin (enquanto os chanceleres tucanos reclamam pelos cantos)

e tem gente que ainda acha que isso tudo é invenção da esquerda.....

it is worth reading Foreign Policy Magazine analyzing Brazil's momentum and crediting foreign minister Celso Amorin for the bulk of it.


ps em 9 de outubro. Alguns dos comentários neste post abusaram de linguagem inapropriada e ofensiva a este blogueiro e aos leitores. Foram deletados como serão quaisquer outros que eu julgar inapropriados.

Saturday, October 3, 2009

mensagem olímpica / olympic message

quando o telefone tocou no meio da noite Sérgio Cabral pensou que ainda estava sonhando. A sexta-feira foi de muita festa, ele tinha acabado de dormir mas resolveu atender assim mesmo.


- Cabralzinho, é o seu xará, Sérgio Bernardes. Você não imagina a festa aqui no céu com a escolha do Rio pra sediar as olimpíadas. Vinícius ta cantando até agora, Tom já escreveu várias músicas e disse que vai psicografar aí pra baixo. Até o JK e o Lacerda estavam se abraçando mais cedo. Você sabe, o Lacerda nunca perdoou o JK por tê-lo passado pra trás várias vezes mas o que ele realmente nunca aceitou foi o governo ter se mudado pro planalto central e ter deixado o Rio esvaziado. Agora a olimpíada devolve ao Rio seu lugar de destaque. Você não deve ter percebido Cabralzinho mas tem muito paulista de sorriso amarelo hoje. Aqui do lado o Ulisses, o Covas e o Montoro estão sem entender o sucesso do Lula.


-Olha Cabralzinho, a gente aqui em cima não se cansa de comemorar o nó que o Lula deu em todo mundo. Se já não bastasse botar as asinhas de fora lá em Honduras, "o cara" me arrasta o Obama para Copenhagen só pra ganhar dele, dos japoneses e dos reis da Espanha. O Nelson Rodrigues (que como eu também te carregou no colo) me disse que só em 58 viu um momento assim. A copa, as olimpíadas e esse tal de grau de investimento enterram de vez o complexo de vira-lata.


- Agora quando acabar a ressaca Cabralzinho, aproveita o que lhe resta de mandato e a alegria do povo e faz a coisa certa: concurso público pra todas as obras do Rio 2016. Dá tempo, mas tem que começar no seu mandato. Esse prefeito ai sei não, não me parece muito fã de concorrência pública, nem o Nuzman. Só você pode fazer isso Cabralzinho. Conversa com a Dilma e anuncia que todas as obras vão ser baseadas em concurso. Acerta isso com ela, vocês vão ter de trabalhar junto nisso. Enterre de vez as suspeitas levantadas em torno do Panamericano que vão se repetindo igualzinho na copa. O Bohigas fez isso em Barcelona e deu super certo, os coreanos também em Seoul. Assim você pega os projetos que vão servir melhor à cidade depois das olimpíadas. A inserção deles na malha urbana é fundamental. O Dr. Lúcio tá aqui todo feliz que a Barra vai ganhar densidade e quem sabe até transporte público decente.


-Depois de escolhidas as melhores propostas a turma de consultores vem e acerta os detalhes de programa. Isso evita que gente que não entende nada da cidade venha a fazer obras importantíssimas que vão ficar lá por décadas (arquitetura não se desmonta Cabralzinho, apesar de todos os meus esforços de uma vida nesse sentido). E evita também que os amigos dos governadores façam os projetos como está acontecendo com os estádios para a copa.


-Mas faz isso rápido Cabralzinho porque ano que vem tem eleição e com o Fluminense e o Botafogo na segunda divisão a turma vai estar preocupada com outras coisas....



when the phone rang in the middle of the night Sergio Cabral thought that he was still dreaming. Friday has been one hell of a party, he had barely slept a few hours.


- Cabralzinho, here is Sergio Bernardes. You cannot imagine the party here in heaven with Rio winning its bid for 2016 Olympic games. Vinícius and Tom have been singing all night. Even JK and the Lacerda were hugging. You know, from all tricks JK played on Lacerda the one he never forgive was moving the government out of Rio. I don’t know if you noticed but there were more than a few paulistas with a yellow smile. In a corner here were Ulisses, Covas and Montoro, all poorly disguising their envy while we all celebrate Lula’s achievements. If huffing feathers in Honduras was not enough, Lula dragged Obama all the way to Copenhagen just to beat him, the Japanese and the Spanish royalty.


Nelson Rodrigues (who also hold you when you were a baby) reminded me that only in 58 he saw something similar. The World Cup, the Olympic Games and this investment grade have finally buried the vira-latas complex.

- Now on more serious things Cabralzinho, uses the end of your term to make the right thing and demand open competition for all the deigns for Rio 2016. There’s more than enough time but you need to start (nor the mayor nor Nuzman are very interested in open competition). By having open design competition you chose the projects which better serve the city afterwards. Bohigas did that in Barcelona and it worked just fine. The Koreans also did that in Seoul.


This would prevent that people who know nothing about the city design important buildings that will remain there for decades (architecture does not disassemble Cabralzinho, despite attempting that all my life). It also prevents that friends of the governors get the design commissions as is already happening with the stadiums for the World Cup.


- But do this fast Cabralzinho because next year, with Fluminense and Botafogo in the second division, the people will be worried about other things….

Monday, September 28, 2009

dan phillips



não é segredo para ninguém que as sustentabilidades (no plural, a sustentabilidade ambiental e a sustentabilidade social) me interessam. Difícil é conjugar as duas fazendo arquitetura. Samuel Mockbee e Teddy Cruz são exemplares na sustentabilidade social mas nem tanto na ambiental. Os avanços tecnológicos que permitem a um edifício gastar menos energia são ainda caros e proibitivos para a população de baixa renda.

mas conjugando reciclagem com mão de obra barata e auto-construção um maluco aqui no Texas está provando que a difícil equação acima descrita pode ser resolvida. Dan Phillips constrói e vende para a população de baixa renda da região de Houston casas que custam cerca de 20, 30 mil dólares (a mais barata até hoje custou 18k), preço de um bom carro novo. Esse valor num financiamento tradicional de 30 anos daria mais ou menos 200 por mês de prestação. como ele faz isso? Recebendo doações de todo tipo de material antes que sejam jogados no lixo. Sabe aquelas pontas de madeira que não tem valor comercial? Os últimos metros quadrados de azulejo de uma remessa? Amostra grátis de carpete do ano passado? Tudo isso é usado de forma criativa e segundo o próprio Dan explicou em sua palestra aqui na semana passada ele só segue duas leis: o código de obras e a lei da gravidade, o resto ele inventa como quer.

as casas todas tem essa cara de “reino da fantasia” porque não se guiam por nenhum parâmetro estético pré-estabelecido, apenas o material disponível e a inventividade dos operários. Phillips diz que só paga salário mínimo (cerca de 1200 dólares aqui no Texas) de forma a manter baixo o custo das casas e manter o ambiente de aprendizado. Os trabalhadores deveriam poder arrumar um emprego melhor depois de alguns meses com Phillips.

funciona no Texas onde a mão de obra é bem barata,

funciona na escala de 2, 3 casas por ano.


mas será que não pode funcionar em outros lugares e em numa escala maior?

ps:veja o video encontrado por A.M. de odesproposito.



it is no secret that I am interested in sustainabilities (environmental and social sustainabilities). However is quite difficult to stitch them both together in architecture. Samuel Mockbee and Teddy Cruz are exemplary in the social side but not so much on the environment. And technological advances that allow a building to save energy are still expensive and out of reach of low income population.

but conjugating recycling with cheap labor and auto-construction someone in Texas is proving that the difficult equation mentioned above can be solved.

Dan Phillips builds and sells for low income folks around Houston houses that cost 20 to 30 thousand dollars (the cheapest to date was 18k), which with traditional 30 year mortdgage would be around 200 a month or less then most new cars. how does he do it? Receiving donations of all kinds of materials destined to landfills. Wood pieces, the last sqft of certain tiles, carpet samples. Everything is then used very creatively and according to Dan he only follows two laws: building codes and gravity besides which he does what he and the workers want.

the houses do look like story tales because they follow absolute no preset aesthetic parameter, only the material availability and the creativity of the laborers. Phillips says he pays minimum wage to keep cost low to keep the business as an apprentice workshop. Workers are encouraged to find a better job after some months with Phillips.

it works in Texas where the labor is cheap,


it works with 2, 3 houses per year.

but why can’t it work in other places and in on a larger scale?

Friday, September 25, 2009

1000 km corridos

esse blog sai hoje um pouco dos assuntos arquitetônicos para comemorar 1000 kilômetros corridos desde abril de 2008 (pouco mais de 500 dias) na forma de 159 corridas perfazendo 85 horas no total.


mas o que eu gosto mesmo de pensar é na distância linear entre BH e Salvador ou Florianópolis. E porquê esse esforço todo? Leia aqui.




this blog today diverges from architecture to celebrate 1000 km run since April 08 or a little more than 500 days in which I run 159 times adding a total of 85 hours. Or they I like it best, the distance from Austin to Mexico City or Denver. And why all the effort? Read here.

Monday, September 21, 2009

alteridade e autoridade / alterity and authority

estive lendo Edward Said esta semana para o meu seminário de Arquitetura Latino-americana.


para quem não conhece Said é o autor do clássico Orientalismo onde ele discute o fato de que a Europa inventou a sí mesma usando a idéia de oriente como alteridade. No meio disso tudo está um projeto de desmontar as engrenagens da relação conhecimento-poder, usando Foucault como ferramenta para desafiar esses processos de autoridade.


no caso da arquitetura um texto como Orientalismo nos faz pensar nos processos correntes de alteridade e autoridade. Os exemplos mais próximos são o regionalismo crítico de Frampton ou a complexidade e contradição de Venturi, ambos textos absurdamente influentes onde uma série de escolhas (e exclusões) ajudou a definir a arquitetura dos últimos 30, 40 anos.


a literatura questionando Venturi e Frampton é extensa e devo voltar a ela em algum momento futuro. O que me interessa perguntar hoje é quais os processos de alteridade e autoridade que estão funcionando HOJE? Que identidades estão sendo formadas, em cima de que conceitos, servindo a que propósitos?





I have been reading Edward Said’s Orientalism this week for my seminar on Latin American architecture. For those who don’t know Orientalism is a classic where said discusses how Europe invented itself using the idea of the “orient” as alterity. In the middle of all that is the Foulcautian project of dismantling the knowledge-power cranks.


in the case of architecture a text like Orientalism makes us think in the current processes of authority and alterity. The closer examples are Frampton’s critical regionalism of Venturi’s complexity and contradiction, both tremendously influential texts whose choices (and exclusions) defined the architecture of the last 30, 40 years.


the literature questioning Venturi and Frampton is extensive and I might go back to it in the near future but what I want to ask today is which processes of alterity and authority are operating nowadays? Which identities are being constructed, based on which concepts and serving which goals?

Monday, September 14, 2009

desigualdade de gênero pela última vez - last post on gender inequality

andei escrevendo aqui no parede sobre desigualdade de gênero, sobre a importância de discutir isso com as alunas de arquitetura, que são não apenas maioria numérica como também invariavelmente melhores ultimamente.


como pai de duas meninas me preocupa muito observar que a sociedade (eu, você, nós todos) incentivamos os meninos a serem sempre vocais e visíveis e subliminarmente incentivamos as meninas a não serem tão vocais nem tão visíveis.


mas a julgar pela caixa de comentários desse blog que registrou 27 colocações masculinas contra 2 femininas nos últimos dois posts, há de se concluir que:


ou o assunto é absolutamente desinteressante para as leitoras do sexo feminino,


ou a conformidade é tanta que desestimula até comentários num blog menor.


de qualquer forma continuo inquieto



I have been writing here about gender inequality and the importance of discussing this with female students of architecture whom are not only the numerical majority but invariably the best in class lately.


as a father of two girls it worries me that society (me, you, we all) stimulates the boys to be always vocal and visible and subconsciously tells the girls to be not so vocal and not so visible.


but judging from the commentaries in this blog which registered 27 masculine entries and only 2 feminine ones in last the two weeks, I might conclude that:


the subject is absolutely uninteresting for the female readers


or the level of conformity is such that it discourages them from even commenting in a minor blog.


either way I am still uneasy