Friday, July 6, 2007

o caos aéreo inverte todas as prioridades


Já faz tempo que viajar de avião virou sinônimo de pesadelo.
Também já estamos cansados de escutar tantas estórias de desinformação e desrespeito, seja nos aeroportos, seja dentro de aviões parados por horas na pista.
Mas na ultima quarta-feira dia 4 de julho o check-in da Gol em Guarulhos conseguiu superar em desrespeito e despreparo todas as minhas expectativas. Por volta das 10 horas da manhã formaram-se duas filas, uma do atendimento normal e outra dita “prioritária” para onde eram encaminhados idosos e passageiros com crianças de colo. Acontece que com apenas dois guichês atendendo às prioridades e oito atendendo a todos os demais, a fila normal andava muito mais rápido. Alertados, os funcionários da Gol responsáveis pela fila tentavam tapar o sol com a peneira dizendo que não, que a fila prioritária anda mais rápido e pronto. Até que a fila normal ficou absolutamente vazia (foto) e a prioritária tinha ainda umas 10 famílias. Chamamos o supervisor, de nome Eric, que questionado sobre que tipo de prioridade era aquela, respondeu com toda a delicadeza de um elefante em loja de loucas: Sou eu quem mando e a fila prioritária só pode ser atendida pelos guichês 19 e 20.
Diante da absurda constatação de que a Gol faz velhinhos e crianças esperarem MAIS que os outros passageiros, pelo menos serviu para esclarecer quem é que manda naquela bagunça toda. A que ponto chegamos.

Tuesday, July 3, 2007

fort greene


No inicio dos anos 60 Jane Jacobs revolucionou o urbanismo ao celebrar a diversidade e a vitalidade de Greenwich Village, onde morava, em Manhattan. Tendo nascido quase uma década depois da publicação do seu livro e morado 25 anos no Brasil, eu não pude conhecer o Village de que falava Jacobs. O que eu vejo agora é um bairro simpático mas extremamente gentrificado, cuja diversidade já minguou a muito tempo e não passa hoje de variações de moda sobre a mesma classe. No entanto, o processo de renovação e conseqüente getrificação continua a todo vapor.
Passar 5 dias em Fort Greene, Brooklyn, foi uma lição nesse sentido. O bairro onde ate 7 anos atrás motoristas de taxi se recusavam a pegar passageiros e algumas ruas eram off-limits ate para residentes, passa agora por um processo de reforma acelerado. Novos restaurants e wine-bars são abertos a cada mês, convivendo tranqüilamente com mercadinhos de coreanos e pizzarias de porto-riquenhos. Nas ruas, jovens profissionais com filhos pequenos buscando uma alternativa um pouco mais espaçosa e muito mais barata que Manhattan dividem espaço com uma classe media baixa que vive ali a meio século (desde que a área ficou barata e conseqüentemente barra-pesada nos anos 60) mas que aos poucos vai sendo expulsa pelos preços que sobem a medida que cada brownstone é reformado.
Mas por enquanto o resultado é bonito de se ver, com gente de varias etnias e varias faixas de renda dividindo as mesmas calcadas, os mesmos parquinhos, as mesmas mercearias. Um pouco da urbanidade que nos arquitetos adoramos celebrar depois que Jane Jacobs nos abriu os olhos em 1962 com Life and Death of the Great American Cities. Uma pena que a mesma dinâmica que faz das cidades espaços tão interessantes na inclusão, seja responsável também pela exclusão, por muros, distancia ou simplesmente preço. Mas quando reina a inclusão e a diversidade, ah como a vida fica mais rica.
Vou ter saudades da Fort Greene de 2007.

Sunday, July 1, 2007

90% de boas intenções, 10% de acerto


uma exposição no Copper-Hewitt Design Museum me atraiu pelo título: Design for the Other 90%.
O que deveria ser a celebração de idéias interessantes a serem usadas pelos 90% da população do mundo que normalmente não consome “design”, acabou se mostrando um amontoado de objetos que não fazem muito sentido juntos, e talvez nem separados. Como um filtro de cerâmica para resolver o problema da contaminação de água no terceiro mundo.... dãaaa, ninguém avisou pra eles que isto existe em qualquer armazém no Brasil. Ou pior, um abrigo para “day laborers”, imigrantes que ganham a vida fazendo qualquer trabalho que aparece e que normalmente se encontram no mesmo lugar todas as manhãs. Mas vejamos, pra que serve um abrigo se os lugares escolhidos já são a sombra de uma árvore ou debaixo da marquise de um posto de gasolina, e se desabrigados pela própria legislação e vítimas de repetida repressão policial, os migrantes mudam de “ponto” a cada semana.
Noutro momento “nada a ver” estava exposto uma enorme parábola de metal a ser usada para concentrar raios solares e fazer fogo ou ferver água, esquecendo-se de que tanto no Brasil quanto na Índia e na maior parte da África a população já tem tanto eletricidade quanto gás de cozinha.
Mas nem tudo foi bola fora na exposição, dois objetos fazem valer o ingresso e por coincidência os dois lidam com a questão da água. O primeiro um filtro portátil usado como um canudo de sucção que filtra a água diretamente do reservatório, seja ele qual for, para a boca. O segundo, disparado meu preferido, um galão de plástico com capacidade de 50 litros que pode ser puxado rolando (ver foto acima) para alivio de milhões de pescoços que ainda hoje carregam latas na cabeça.
Em resumo, uma exposição para fazer novaiorquino se sentir bem imaginando que o design pode salvar o mundo. Na maioria dos casos mostrados me pareceu que os designers não se deram muito ao trabalho de entender a complexidade do mundo real. Nos casos dos dois objetos descritos acima, tiro meu chapéu para quem os concebeu, tanto pela simplicidade quanto pelo impacto que podem ter pelo mundo a fora. Espero ver meninos rolando muita água morro a cima enquanto o saneamento não chega.

Wednesday, June 20, 2007

somos sociais ou nem tanto?

Nós brasileiros adoramos nossa imagem de um povo bastante social e sempre que estamos no exterior reclamamos da falta que sentimos desta vida social mais intensa.
Mas quando perguntamos a 20 famílias brasileiras e 20 famílias coreanas quanto tempo cada um dos moradores passa nas áreas sociais (estar, jantar, varandas) e nas áreas privativas (quarto e banheiros), os coreanos demonstraram passar 76% mais tempo nas áreas sociais: 3hs21min para os coreanos, 2hs31min para os brasileiros. Como já expliquei em um post passado, o questionário não tem representatividade estatística mas de qualquer forma este resultado foi uma surpresa para brasileiros e coreanos participantes do Global Apartments Research Group aqui de Michigan
Poderia-se argumentar que os brasileiros passam mais tempo fora de casa, o que foi comprovado pelo questionário embora a diferença seja muito pequena, apenas 25min a menos dentro de casa por dia. Ou pior ainda, os brasileiros entrevistados passam mais tempo nos quartos 9hs21min do que os coreanos 9hs05min.
Alguém se habilita a explicar?

Monday, June 18, 2007

forma, conteúdo e o vira-lata


o tema é antigo, forma e conteúdo se alternando na vanguarda arquitetônica como um pendulo. No ponto máximo do lado do conteúdo a arquitetura alcança seus melhores resultados em termos de responsabilidade social e melhora a vida de muita gente, enquanto no extremo oposto do lado da forma, a arquitetura cria ícones que gravados na nossa memória se tornam referencias da evolução da humanidade.

no entanto, nenhuma boa arquitetura se faz com um ou outro apenas. nem só forma (muito bom para museus e centros culturais de todo tipo) nem só conteúdo (que geralmente produz uma arquitetura insossa apesar das melhores intenções).

por isso há de se prestar atenção aos extremos de forma e conteúdo para que possamos, espera-se, fazer nascer um espaço construído melhor do cruzamento das duas matrizes puras. Em resumo, busquemos uma arquitetura híbrida, mestiça, vira-lata na melhor acepção do termo.

e para tanto cabe abusar dos melhores puros-de-origem disponíveis no mercado. No lado da forma, não vejo ninguém melhor que Daniel Libeskind. Confesso mas uma vez que nunca fui um grande fã do excesso de ângulos e quebras mas ilustrado por Raul Smith acabei aprendendo a admirar o rigor com que Libeskind enfrenta o projeto, buscando sempre e com igual intensidade levar ao limite as possibilidades formais da sua investigação. Gostei muito do museu de Denver e não vejo a hora de visitar o Royal Ontário Museum in Toronto. No lado do conteúdo, tiro o chapéu para o trabalho que Ed Mazria tem feito junto às escolas de arquitetura e o American Institute of Architecture com seu
Desafio 2030: todos os novos edifícios devem buscar como base mínima um gasto de energia 50% menor que a média de sua região ainda antes de 2010, chegando a serem carbon-neutral antes de 2030.

acredito que qualquer arquitetura significativa nas próximas décadas vai se deparar com ambos os desafios: o limite da forma e o limite do conteúdo.

a propósito, querido leitor, você sabe quanto um edifício na sua região consome de energia por metro quadrado? não? taí um numero fácil de decorar que pode fazer nossa profissão um bocado mais significativa de um dia pro outro.

Tuesday, June 12, 2007

70 minutos por dia de vida em família

70 min é o tempo médio que uma família brasileira interage no mesmo espaço. Este dado não tem nenhuma representatividade estatística, é apenas o resultado preliminar de 60 questionários enviados a famílias no Brasil, na Coréia e na Rússia no ano passado cujos resultados começam a ser analisados agora. (obrigado a todos que responderam) Basicamente o questionário pedia que fosse registrado qual o espaço (sala, quarto, cozinha, etc..) em que cada membro da família normalmente se encontra, em intervalos de 15 minutos ao longo do dia. Na verdade, o questionário não pergunta se os membros da família estão realmente interagindo (podem estar todos cada um com sua leitura ou seu celular) mas pressupõe-se que para haver interação as pessoas precisam estar no mesmo espaço. Ou não? De qualquer forma, é um pouco assustador perceber que estamos cada vez mais isolados uns dos outros e passando cada vez menos tempo juntos, o que fica evidente quando se vê a tendência atual de cada membro da família com seu próprio quarto, seu próprio banheiro, seu próprio carro e ate sua própria televisão (o que no caso do nosso questionário conta como interação!!!)

Mais resultados em breve,


Mais informações sobre a pesquisa aqui no Global Apartments Research Group

Thursday, June 7, 2007

habitação e água em toronto

hoje vai um post bem curtinho só pra chamar a atenção para a questão da água em relação a arquitetura, por ocasião de uma conferência em Toronto:

ver interdesign 2007 e studio toró